Campo fértil para a pacificação do Oriente Médio

Os últimos dias têm presenciado uma drástica aceleração nos acontecimentos no Grande Oriente Médio, que poderão resultar em um até há pouco quase impensável desfecho de um entendimento tácito entre as grandes potências e as potências regionais, o qual abra caminho para uma há muito necessária pacificação da região, com a provável consequência da sua inserção na grande iniciativa de desenvolvimento eurasiático encabeçada pela China e a Rússia.

Não por acaso, a Rússia assumiu definitivamente o papel de protagonista central na dinâmica regional, com a sua ativa – e decisiva – presença militar na Síria e a atuação como mediadora confiável e aceitável por todas as partes, que começa a render frutos após anos de idas e vindas diplomáticas.

Até mesmo a súbita retirada das forças militares dos EUA do nordeste da Síria, decidida unilateralmente pelo presidente Donald Trump, pode ter sido discretamente negociada nos bastidores com Moscou, a exemplo do acordo de 2013 que resultou no cancelamento de um iminente ataque militar estadunidense contra a Síria e na posterior destruição do arsenal sírio de armas químicas. O desfecho imediato foi uma negociação entre os curdos e o governo de Damasco, que levou as forças militares sírias para a região, pela primeira vez desde 2012, para posicionarem-se diante da operação militar desfechada pela Turquia, também em duplo entendimento com Washington e Moscou.

Em paralelo, a Arábia Saudita, que recebeu o presidente Vladimir Putin em uma visita de Estado no último fim-de-semana, lançou uma iniciativa de entendimento com o arquirrival Irã, intermediada pelo premier paquistanês Imran Khan, ao mesmo tempo em que parece finalmente ter-se convencido da impossibilidade de vencer a guerra desfechada contra o Iêmen, sinalizando a busca de negociações.

Uma cronologia dos principais fatos ocorridos ajuda a se vislumbrar a nova dinâmica regional:

1) 6 de outubro: O presidente Donald Trump anuncia a retirada das tropas estadunidenses estacionadas no nordeste da Síria, próximo à fronteira com a Turquia, que anunciou uma iminente invasão da região ocupada desde 2012 pelas forças curdas das YPG (Unidades de Defesa do Povo), consideradas por Ankara um apêndice da organização terrorista turca PKK. O anúncio não foi previamente comunicado a Londres e Paris, que mantêm forças especiais operando na região, e provocou uma enxurrada de críticas a Trump, acusado de “trair” os curdos.

2) 08/10: O vice-chanceler sírio Faisal Mekdad aponta uma saída aos curdos: “A pátria dá as boas-vindas a todos os seus filhos e Damasco solucionará todos os problemas sírios de uma maneira positiva, sem violência (The Guardian08/10/2019).”

3) 08/10: A Rússia e a Turquia estabelecem um acordo para substituir gradualmente o dólar estadunidense no comércio bilateral, que atingiu 25,5 bilhões de dólares em 2018 (RT, 08/10/2019).

4) 10/10: A Rússia veta uma declaração do Conselho de Segurança das Nações Unidas, condenando a Turquia pela invasão do território sírio. O embaixador russo Vassily Nebenzia justificou a medida, afirmando que a declaração deveria exigir também a imediata cessação da “presença militar ilegal” no país, em clara referência aos EUA, França e Reino Unido (Deutsche Welle, 10/10/2019).

5) 11/10: O petroleiro iraniano Sabiti, navegando no Mar Vermelho ao largo da Arábia Saudita, é atingido e avariado por dois artefatos não identificados (drones ou mísseis). Teerã anuncia uma investigação, mas não faz qualquer acusação formal. Analistas creem ser improvável que tenha se tratado de uma ação saudita em retaliação ao ataque de 14 de setembro contra as suas refinarias; o mais provável é que tenha se tratado de uma ação provocativa de uma terceira parte interessada em inflamar a situação entre os dois países.

6) 11/10: Segundo o jornal inglês Financial Times, a Arábia Saudita e os insurgentes houthis do Iêmen estão entabulando conversas de bastidores para tentar colocar um fim no conflito que se arrasta desde 2015. A iniciativa saudita sugere que o reino se deu conta da inviabilidade de derrotar os houthis, após o devastador ataque de 14 de setembro às refinarias de Abqaiq e Khurais (Resenha Estratégica, 18/09/2019).

7) 12-13/10:  O príncipe Tahnoun bin Zayed, conselheiro de Segurança Nacional dos Emirados Árabes Unidos, visita Teerã em missão reservada, segundo a agência Middle East Eye (14/10/2019), com o objetivo de reduzir as tensões entre o Irã e a Arábia Saudita. A agência informa também que Riad também pedira a intervenção do primeiro-ministro iraquiano Adel Abdul Mahdi, com o mesmo propósito.

8) 13/10: Reunidos na base aérea russa de Hmeimim, representantes do governo de Damasco e das YPG acertaram um acordo, pelo qual os curdos renunciam às aspirações de criação de uma zona autônoma (Rojava), que lhes foram “vendidas” por estadunidenses e franceses, em troca da recuperação da soberania do Estado sírio sobre a área, começando pela ocupação militar, e a incorporação dos combatentes curdos que o desejarem às Forças Armadas nacionais (Réseau Voltaire, 14/10/2019).

9) 13-14/10: Em seguida ao acordo de Hmeimim, forças militares sírias foram imediatamente deslocadas para a região, ocupando as cidades de Raqqa, Hassaka e Qamishli e colocando-se frente às forças turcas invasoras. Elementos da Polícia Militar russa acompanham as forças sírias, para evitar entrechoques com os turcos (Réseau Voltaire, 14/10/2019).

10) 13-15/10: O primeiro-ministro paquistanês Imran Khan visita Teerã e Riad, com o objetivo declarado de intermediar um entendimento entre a Arábia Saudita e o Irã. Em Teerã, Khan afirmou que a iniciativa era paquistanesa, mas nenhum analista acredita que ele a tomaria sem uma aquiescência prévia dos dois países.

11) 14-15/10: Putin visita Riad e Abu Dhabi, onde negocia investimentos conjuntos e cooperação em várias áreas com sauditas e emiratis, além de discutir em detalhes as posições recíprocas “sobre assuntos internacionais atuais, com ênfase nos acontecimentos no Oriente Médio e no Norte da África”, segundo a concisa nota do Kremlin sobre a visita a Riad (14/10/2019).

12) 14/10: Em resposta às pressões para “punir” a Turquia, Trump determina sanções contra o país. Segundo o sítio Réseau Voltaire (15/10/2019), todas são meramente simbólicas, pois os três ministros sancionados não têm bens nos EUA e o aumento das tarifas de importação de aço turco já havia sido decidido em maio.

Embora, tratando-se do Oriente Médio, ainda seja cedo para se encomendarem os fogos de artifício, a perspectiva mais relevante desse cenário é que a possibilidade de que um amplo entendimento entre os atores regionais e extrarregionais poderá encerrar quase um século de investidas e disputas coloniais na região, o que seria um símbolo premonitório da mudança de época em curso no planeta, com um paradigma cooperativo e não hegemônico.

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