Cadáveres ilustres, de Buenos Aires a Moscou

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Os roteiros foram semelhantes: duas personalidades públicas de grande apelo midiático assassinadas às vésperas de, alegadamente, apresentarem evidências de ações condenáveis dos respectivos governos. Em ambos os casos, antes de qualquer investigação, as manchetes da mídia – principalmente, a internacional – se apressaram em apresentar as vítimas como opositores dos seus governos, lançando as suspeitas diretamente sobre os respectivos titulares. Em um deles, as supostas evidências foram posteriormente desqualificadas por uma autoridade judicial. No outro, a sua própria existência passou a ser questionada. Em ambos, o senso comum sugere que os governos não aufeririam qualquer vantagem com as mortes – mas, nos dois casos, as vítimas valiam mais mortas do que vivas a certos interesses contrários aos dois governos.

O primeiro caso foi o do promotor argentino Alberto Nisman, assassinado em janeiro último, cinco dias depois de ter acusado a presidente Cristina Kirchner de articular uma trama para ocultar a suposta responsabilidade do Irã no atentado à Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), ocorrido em 1994, em troca de vantagens comerciais. Nisman foi encontrado morto em seu apartamento, em um condomínio de luxo em Buenos Aires, mesmo contando com a segurança de agentes federais, na véspera de comparecer à Câmara dos Deputados, onde apresentaria as evidências incriminatórias que dizia ter contra a mandatária. Apesar de articulado para parecer suicídio, esta hipótese está praticamente descartada.

Por outro lado, o juiz federal encarregado de analisar o pedido de Nisman para indiciar Cristina Kirchner e o ex-chanceler Héctor Timerman, pelo suposto acordo com o Irã, simplesmente, o rejeitou pela absoluta falta de evidências para substanciá-lo – inconsistência que, aliás, já havia sido apontada por numerosos comentaristas.

“Ficou claro que nenhuma das duas hipóteses de delito se sustenta minimamente. A acusação carece de sentido, tanto do ponto de vista dos fatos, como, especialmente, do Direito”, afirmou o juiz Daniel Rafecas em sua decisão (Página 12, 26/01/2015).

Embora não tenha contribuído para a elucidação do caso, a decisão afasta ainda mais da Casa Rosada a busca dos responsáveis pelo crime, já que Nisman estava envolvido em uma complexa teia de relações com os serviços de inteligência e diplomáticos dos EUA e de Israel. Desde 1994, os dois países têm pressionado para que o Irã seja oficialmente responsabilizado pelo atentado à AMIA, a despeito da inexistência de quaisquer evidências concretas, como já estabelecido pela própria Justiça argentina.

O outro cadáver ilustre (tomando emprestado o título do filme de 1976 do diretor Francesco Rosi) é o do político russo Boris Nemtsov, assassinado a tiros na noite de 27 de fevereiro, em Moscou, quando passeava a menos de meio quilômetro do Kremlin com sua namorada, uma modelo ucraniana que nada sofreu. Nemtsov, descrito pela Wikipedia como “uma das figuras mais importantes na introdução do capitalismo na economia russa pós-soviética”, era um dos líderes da minúscula oposição liberal ao presidente Vladimir Putin, condição que lhe assegurava no Ocidente um interesse inversamente proporcional ao seu desempenho eleitoral na Rússia. Na década de 1990, foi governador da região de Nizhniy Novgorod e chegou a ocupar o cargo de vice-primeiro-ministro durante a presidência de Boris Yeltsin. Em 2012, foi um dos fundadores do Partido Republicano da Rússia (RPR-Parnas), que ainda não tem representação no Parlamento (Duma).

Previsivelmente, assim como no caso de Nisman, o crime foi amplamente trombeteado com manchetes e cabeçalhos destacando a condição de Nemtsov como um dos principais opositores do presidente russo e, da mesma forma, motivou uma onda de manifestações de governos ocidentais, encabeçada pelo presidente estadunidense Barack Obama e o premier britânico David Cameron, todos enfatizando a necessidade de uma investigação séria e imparcial. No dia seguinte, um sábado, os embaixadores de vários destes países se revezaram, contritos, para depositar flores no local onde Nemtsov havia sido abatido. Na terça-feira 3 de março, os embaixadores da União Europeia (UE) e dos EUA em Moscou compareceram ao funeral do político, juntamente com o ex-premier britânico John Major.

Na mesma noite do crime, Putin determinou a criação de uma força-tarefa policial para investigar o caso. As hipóteses incluem até mesmo a possibilidade de um crime passional, mas a principal linha de investigação é a de um possível vínculo com a crise na Ucrânia e elementos nacionalistas ucranianos interessados em criar problemas políticos para Putin (Al-Jazira, 2/03/2015).

No domingo seguinte ao assassinato, as 21 mil pessoas que participaram de uma manifestação já programada, da qual Nemtsov havia sido um dos organizadores, acrescentaram o crime à pauta de protestos contra o governo que a motivara.

Desta feita, entretanto, se os assassinos tinham a intenção de levantar suspeitas sobre o Kremlin, ela se esvaziou rapidamente, pois até mesmo lideranças da oposição a Putin admitiram que ele não teria nada a ganhar com o crime e sugeriram que se tratou de uma ação provocativa.

Itina Khakamada, cofundadora do RPR-Parnas com Nemtsov, afirmou que o assassinato, “claramente, não era do interesse de Putin. Ele teve o objetivo de agitar a situação (AP, 27/02/2015)”.

O ex-líder soviético Mikhail Gorbachov, que não tem qualquer simpatia por Putin, bateu na mesma tecla, dizendo que “o assassinato de Boris Nemtsov é uma tentativa de complicar a situação no país, até mesmo de desestabilizá-lo, acirrando as tensões entre o governo e a oposição” (DW, 28/02/2015).

Até mesmo a rádio Voice of America, uma relíquia da Guerra Fria mantida pelo governo estadunidense, se viu forçada a admitir que Putin teria muito mais prejuízos do que vantagens com a morte de Nemtsov.

Para muitos comentaristas da blogosfera, o assassinato de Nemtsov seria mais uma clássica operação de inteligência do tipo “bandeira falsa” (false flag, em inglês), no mínimo, com a participação de algum serviço de inteligência da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O ex-subsecretário do Tesouro estadunidense Paul Craig Roberts, que estava em Moscou no dia do crime, não se melindrou em apontar o dedo para a CIA (Paulcraigroberts, 27/03/2015).

A suspeita é justificada, inclusive porque, como se sabe, a agência estadunidense dá as cartas em Kiev, praticamente, controlando a sua contraparte ucraniana SBU, que dificilmente deixaria de estar envolvida na trama, se vingar a principal linha de investigação das autoridades russas.

Como em muitos outros casos similares, é possível que os assassinatos de Nisman e Nemtsov não venham a ser plenamente esclarecidos, exceto por algum providencial bode expiatório (de fato, a polícia russa já apontou um grupo de chechenos islâmicos como suspeitos). Não obstante, seja como for, ambos foram bastante convenientes para a agenda estratégica com a qual o eixo anglo-americano tem defendido ferrenhamente a sua hegemonia global.

One comment

  1. Em Maio 2011 falecou em Santa Maria, California/EUA por causa natural num hospital o alemao P.U. quem tinha servido como agente do BVS alemao entre 1967 e 1992. O “Bundesverfassungsschutz” e uma das agencias de inteligencia domestica da Republica Federal Alemanha, supervisada pela CIA e FBI dos EUA. O “BVS” pretende observar os “extremistas” da esquerda e da direita. Nesta missao infiltra agentes nos grupos extremistas. P.U. orginalmente era policia municipal em Berlim, antes de atuar como agente PROVOCADOR do BVS entre grupos de terroristas da extrema esquerda alema.O agente provocador da BVS, P.U. proveia as armas e os explosivos. Tambem para explodir uma bomba no Centro Comunitario Judio em Berlim em 1969. A bomba nao funcionou mas a BVS podia prender um dos terroristas. P.U. contiua como agente provocador da BVS ate 1992, quando suas atividades provocadoras ao fim ficaram evidentes. A CIA llevou P.U. com identidade nova como imigrante alemao a EUA. —- A BVS alema esteve nas noticias quasi permanentes na Alemanha em anos recentes devido ao caso NSU da “resistencia nacional-socialista” – um grupo de terroristas neo-nazi que tinham explodido bombas frente a lojas de imigrantes turcos nas epoca de 1990-2000+, e de assassinatos de turcos, um greco, e uma policia alema. A policia alema e o BVS e BKA (agencia anti-criminal federal) opinaram que os turcos eram vitimas numa guerra entre mafiosos de drogas – e quasi acusaram as familias dos assassinados. Mas os agentes infiltrados da BVS sabiam que os terroristas foram neo-nazis alemaes. Ao fim o Ministerio de Justicia teve de intervenir porque o publico tinha fornecida pistas contrarias da opiniao da BVS. O Ministerio de Justica demandou os arquivos dos casos do BVS: O BVS tritorou os arquivos sem entregar algo ao Ministerio de Justicia. Os dos terroristas suicidaram-se e incendiaram sua casa. A complice feminina deles segue na justicia mas nao fala…. Um dos testigos tem falecido num acidente automovilistico misterioso. A CIA e FBI quem tem redes na Alemana fora da vista dos alemaes – parecem que tinhan observado todo sem intervenir.

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