Brasil: tudo dominado

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Se alguém ainda tinha dúvidas sobre o domínio absoluto das forças pró-rentismo na formulação das políticas públicas no Brasil, os últimos números sobre os indicadores econômicos e financeiros as sepultam de vez.

Neste momento, a economia brasileira vive o pior dos mundos: retração das atividades em quase todos os setores produtivos, com exceção da agropecuária; inflação em alta, principalmente, por conta das tarifas de energia e água e dos alimentos; desemprego em alta, em especial, entre os jovens; investimentos públicos e privados em queda; pessimismo nos setores produtivos ligados à indústria e aos serviços; e escassas perspectivas de que tal cenário possa ser revertido antes dos próximos dois a três anos, apesar dos prognósticos pouco convincentes das autoridades.

Diante desse quadro, o Comitê de Política Monetária do Banco Central, o Copom, se prepara para elevar mais uma vez os juros básicos dos títulos da dívida pública, a chamada taxa Selic, na sua reunião desta semana. Apesar de já se encontrar no nível recordista mundial de 13,25% anuais, como o “deus mercado” já sinalizou que espera uma nova elevação de meio ponto percentual, a Selic deverá disparar para a proximidade dos estratosféricos 14%. A justificativa é a de sempre, o “combate à inflação”, apesar da evidência contraditória de que a maior parcela de contribuição para a alta inflacionária, nos últimos meses, ter vindo da escalada das tarifas de energia e de outras tarifas “administradas”, que têm reajustes contratuais previstos por lei.

Ah, sim, mas o “mercado” celebra o superávit primário (economia de gastos públicos para pagar os juros da dívida pública) de R$ 13,45 bilhões em abril, já como resultado do draconiano pacote de ajuste fiscal pilotado pelo ministro da Fazenda Joaquim Levy, uma vez que, em março, o valor foi de apenas R$ 239 milhões. Um graduado sacerdote da igreja rentista, o ministro é um engenheiro naval que parece ter esquecido de vez o que é uma economia real baseada na produção de bens e serviços, e sua orientação conta com o entusiasmado apoio de uma mídia quase totalmente seduzida pelos jogos financeiros. Como seu colega do Planejamento, Nelson Barbosa, já anunciou que o esforço de ajuste fiscal deverá durar pelo menos dois anos, os brasileiros podem esquecer qualquer perspectiva de que o cenário atual possa ser revertido neste prazo.

Não por acaso, o setor bancário voltou a liderar os lucros no primeiro trimestre do ano, seguido pelo setor elétrico. Quanto ao restante da sociedade, aí incluído o empresariado, que insiste em produzir os bens necessários à sustentação da economia e da sociedade (que não se alimenta, se veste, se abriga ou se transporta com papeis financeiros), é salve-se quem puder.

P.S.: Para se entender o real motivo de os juros serem tão altos no País, recomendamos a leitura do esclarecedor artigo da ex-auditora da Receita Federal Maria Lucia Fattorelli, “Por que os juros são tão elevados no Brasil”, republicado neste sítio.

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