Brasil: “reprimarização” se acelera

A manchete principal do jornal Valor Econômico de 13 de outubro sintetiza o drama do desastroso processo de desindustrialização acelerada que afeta o Brasil: “Commodities respondem por 70% das exportações.”

A reportagem apresenta os dados do Indicador de Comércio Exterior (Icomex), calculado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ibre). Nos nove primeiros meses do ano, os produtos primários representaram 69,7% das exportações nacionais, contra 67,5% em 2020 e 60,6% em 2019 – ou seja, uma alta de nove pontos percentuais em dois anos, ainda que motivada por uma alta nos preços. Os números são os mais altos da série iniciada pelo FGV-Ibre em 1998.

O processo de reprimarização se mostra até mesmo dentro das próprias exportações de commodities, cada vez mais concentradas no minério de ferro, soja e petróleo, cuja fatia no total de exportações subiu de 28,3% em 2020 para 43,7% em 2021. Em 2001, estes itens representavam menos de 12% das exportações.

Segundo a pesquisadora Lia Valls, do FGV-Ibre, a participação de produtos da indústria de transformação na exportação de commodities caiu de 36,9%, no período janeiro-setembro de 2020, para 32,8%, no mesmo período deste ano, o que indica a primarização da pauta exportadora mesmo dentro das commodities.

O estrategista de comércio exterior do Banco Ourinvest, Welber Barral, oberva que os produtos semimanufaturados, como ferro gusa, suco de laranja e açúcar, que embutem algum processamento industrial, perderam espaço na pauta exportadora. Segundo ele, isto ocorre em paralelo com a desindustrialização em curso, influenciada por problemas de competitividade, como questões logística, tributárias e outras.

A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), que acaba de divulgar o relatório “Estado da dependência de commodities 2021”, considera uma economia dependente de commodities quando elas compreendem mais de 60% da sua pauta de exportações, limite que o Brasil já superou há algum tempo e só tende a afastar-se dele.

Seria de todo conveniente que as lideranças brasileiras de todos os setores prestassem atenção às iniciativas de reconstrução econômica que ocorrem no Hemisfério Norte.

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