Brasil: quando neoliberalismo e marxismo se juntam

O momento do governo do presidente Jair Bolsonaro é preocupante. Enquanto o ministro da Economia Paulo Guedes pisa fundo na ortodoxia inspirada no liberalismo britânico do século XIX, a tradicional política externa independente do País é atropelada em favor da adesão automática à agenda dos “neoconservadores” de Washington, empenhados em afastar o Brasil (e a Ibero-América) de um posicionamento internacional favorável à opção de desenvolvimento compartilhado gestada pela integração eurasiática encabeçada pela aliança China-Rússia.

No campo econômico, nem o superministro nem sua equipe desconhecem as consequências da aplicação da agenda ultraliberal, as quais se mostram cotidianamente na mídia nacional. Voltada para os interesses do mercado financeiro, ela não oferece condições mínimas para o enfrentamento a sério da profunda depressão em que o País se encontra atolado desde 2015, como denota a queda livre dos prognósticos do próprio mercado para o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), de cerca de 2,5%, no início do ano, para os atuais 0,8%.

Um indicador de que este número pode ser ainda bastante “otimista” é o recuo da taxa de investimentos (ou formação bruta de capital fixo), que inclui os investimentos em máquinas, equipamentos, construção civil e inovação, ao nível mais baixo em mais de meio século, 15,5% do PIB, bem abaixo dos cerca de 25% necessários a uma economia próxima da plena capacidade produtiva.

Ainda mais sintomática é a queda dos investimentos públicos a pífios 2,43% do PIB (depois dos 1,85%  de 2017, o nível mais baixo registrado no País), menos da metade dos 5-6% requeridos para um relançamento firme e sustentável da economia. Como apontam os registros históricos brasileiros e de outras nações, não há como sair de uma depressão prolongada sem maciços investimentos públicos em atividades multiplicadoras de valores, como infraestrutura física, que sinalizam aos setores privados a criação da demanda necessária aos seus próprios investimentos.

Não por acaso, o conjunto da indústria trabalha com capacidade ociosa superior a 25% e o estado de São Paulo registrou o fechamento de mais de 2.300 empresas industriais nos cinco primeiros meses do ano, índice mais alto em uma década.

Em troca, Guedes & cia. se aferram ao discurso das reformas, privatizações e concessões, como supostos catalisadores dos investimentos privados aos quais, em tese, caberão a retomada do crescimento. Para piorar, além da incapacidade de produzir tal resultado, a agenda do superministro implica no desmantelamento final da estrutura do Estado nacional brasileiro, desprovendo-o de instrumentos estratégicos imprescindíveis, como se mostra no esquartejamento da Petrobras, a futura venda da Eletrobras, o esvaziamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e outras medidas destinadas a petrificar o modelo “balcão de negócios” pró-rentista, hegemônico desde a década de 1990. Como proclamou Guedes em Nova York, em março, “estamos vendendo tudo”.

Em essência, trata-se de uma política propensa a criar condições para a deflagração de convulsões sociais sérias e, no extremo, insuflar o tipo de luta de classes que os ideólogos do governo se esmeram em combater.

A propósito, é bastante conveniente que se retire do armário o Foro de São Paulo, bicho-papão de parte do governo e de seus seguidores, para aprisionar as consciências em uma nova batalha ideológica tendente a reviver a dialética da Guerra Fria, agora em uma fase pós-moderna.

Vale recordar que o Foro, uma coligação de partidos políticos e organizações de esquerda criada em 1990, pelo Partido dos Trabalhadores (PT) brasileiro e o Partido Comunista Cubano, somente encontrou condições favoráveis à sua atuação, na esteira das políticas neoliberais aplicadas ao longo daquela década por governos como os de Salinas de Gortari, no México, Carlos Menem, na Argentina, Fernando Henrique Cardoso, no Brasil, e outros adeptos do chamado “Consenso de Washington”, trabalhado nos conclaves do Diálogo Interamericano, Wilson Center e outras organizações do Establishment oligárquico estadunidense.

Curiosamente, não foram poucas as ocasiões em que o Diálogo Interamericano apoiou iniciativas do Foro, uma vez que ambos tinham na mira as instituições dos Estados nacionais soberanos, em especial, as Forças Armadas. E, na área econômica, nenhum dos representantes do Foro que chegaram ao poder se atreveu a contestar essencialmente as políticas neoliberais dos seus antecessores.

Essas idiossincrasias do Foro foram denunciadas pelo Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIa) já na década de 1990, o que ensejou um processo judicial movido pelo PT, em 1994 (considerado improcedente), quando poucos, inclusive no próprio partido, conheciam a existência da entidade. Por isso, não deixa de ser curioso presenciar, hoje, as tentativas de alguns de se apresentarem como os “pioneiros” das críticas ao Foro.

Igualmente, é relevante observar que a investida contra os Estados nacionais ibero-americanos incluiu alguns extremos de alinhamento automático com os EUA, como ocorreu no governo Menem. Em particular, as Forças Armadas argentinas, que já experimentavam as consequências políticas da devastação socioeconômica da política do ministro da Economia José Alfredo Martínez de Hoz (1976-1981), como a desastrosa Guerra das Malvinas de 1982, viram os seus orçamentos e projetos tecnológicos sucateados, no altar do que o então chanceler Guido di Tella chamava “relações carnais” com Washington.

No Brasil de 2019, é crucial que as lideranças responsáveis atentem para a perigosíssima encruzilhada para a qual caminha o País, empenhando-se em influenciar uma mudança de rumo no governo, enquanto é tempo.

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