Brasil poderá ser “atropelado” pela Quarta Revolução Industrial, diz pesquisador

Da ONU Brasil (23/09/2018)

Sem investimentos em educação e infraestrutura, o Brasil “vai ser atropelado” pela revolução digital ou Quarta Revolução Industrial, avalia o especialista em robótica Edson Prestes. O brasileiro integra o Painel de Alto Nível da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Cooperação Digital, que se reuniu pela primeira vez em 24 de setembro, em Nova York. Em entrevista ao Centro de Informação da ONU para o Brasil (UNIC Rio), o pesquisador defende que países em desenvolvimento precisam ter mão de obra qualificada para lidar com a crescente automação do setor produtivo.

O painel foi convocado em julho pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, que reconheceu o potencial socioeconômico das ferramentas digitais e suas contribuições para o desenvolvimento sustentável. Composto por 20 experts e autoridades em tecnologia, o organismo foi encarregado de elaborar recomendações para ampliar parcerias entre governos, setor privado, academia, sociedade civil e a comunidade técnica.

“Para trabalhar em áreas de alta tecnologia, é preciso ter uma formação adequada. Fora do país, (existem) inúmeras mobilizações para que sejam incentivados cursos na área de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (conhecidas pela sigla STEM)”, ressalta Prestes, que é doutor em Computação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

No Brasil, o aprendizado de competências para esses setores críticos apresenta lacunas desde o ensino fundamental. O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) 2015, realizado em 72 nações com estudantes de 15 anos, mostra o País em 63º lugar no exame de Ciências e 65º, em Matemática. As médias dos alunos brasileiros – 401 e 377, respectivamente – ficam bem abaixo de nações como Cingapura ou Canadá, ambos com notas acima de 500 nas duas disciplinas. O desempenho do Brasil também é bem inferior à média dos Estados membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – 493 em Ciências e 490 em Matemática.

Conhecimentos básicos nessas matérias e em tecnologia serão fundamentais para integrar os trabalhadores em novos sistemas produtivos, com robôs e softwares de otimização. “A automatização vai atravessar todas as áreas, em diferentes níveis. Sistemas de inteligência artificial vão permear o nosso dia a dia”, afirma o pesquisador brasileiro. O acadêmico também integra a Sociedade de Robótica e Automação do Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos (IEEE), dos Estados Unidos.

Um levantamento divulgado no ano passado pelo Instituto Global McKinsey estima que, nos próximos 13 anos, até 30% de todas as horas trabalhadas no mundo poderão ser suprimidas por métodos automatizados de produção. A consultoria também prevê que, até 2030, cerca de 800 milhões de postos de trabalho poderão sumir por causa da adoção acelerada da automação. Num cenário menos favorável à aplicação dessas tecnologias, o número cairia para ainda consideráveis 400 milhões.

O pesquisador brasileiro, porém, desmitifica a ideia de que os robôs e computadores irão tirar os empregos dos trabalhadores: “Não vai ter uma substituição direta de humanos por máquinas, a não ser em trabalhos puramente braçais.”

Nesses casos, segundo ele, será necessário investir na qualificação da mão de obra deslocada, a fim de garantir sua absorção pelo mercado: “Quando se fala em automação, uma das soluções é recapacitar pessoas para essa realidade.”

Outro horizonte para a inserção laboral é o ramo de TI. De acordo com o relatório do McKinsey, o consumo de tecnologia poderá aumentar em 50% até 2030 – metade desse crescimento estaria associado a serviços de TI. A expansão do setor poderia criar de 20 a 50 milhões de novas vagas em todo o mundo.

Porém, para participar dessa revolução digital na produção e no consumo, o Brasil e outros países em desenvolvimento precisarão superar lacunas não apenas na educação e na qualificação de mão de obra, como também em infraestrutura. “Quantas comunidades espalhadas pelo Brasil têm acesso à internet de qualidade e confiável?” – questiona Prestes.

Segundo dados do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), em 2016, 46% dos domicílios brasileiros não possuíam nenhum tipo de conexão com a internet. Nos centros urbanos, o índice era um pouco menor (41%), mas em zonas rurais, a taxa subia para os 74%.

Estimativas da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) mostram que, na região, o número de famílias com acesso à rede mundial de computadores mais que dobrou desde 2010, passando de 22,4% para 45,5% em 2016. Quando considerada a parcela da população que está conectada, inclusive por outros meios sem ser assinaturas domésticas, o índice sobe para 56%.

Nas economias ricas, o índice de acesso à internet é de 81%, segundo a União Internacional de Telecomunicações (UIT).

Também existem diferenças na velocidade média de transmissão de dados. A CEPAL estima que a velocidade da conexão de banda larga fixa na América Latina esteja entre 5 e 6 Mbps, ao passo que entre os países da OCDE, a taxa chega a quase 16 Mbps.

No Brasil, o CGI.br calculou uma velocidade nacional nos serviços de internet em torno dos 10 Mbps para 2016, mas com oscilações entre regiões – no Sudeste, o índice atingia os 10,6 Mbps, enquanto o Norte registrava uma média próxima dos 7 Mbps. O comitê aponta que a qualidade do acesso é um fator fundamental para a efetiva digitalização da economia do país.

“Nós estamos muito atrasados”, afirma Prestes, que planeja levar para os debates do painel de alto nível as disparidades entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.

Se o docente defende que o Brasil e seus parceiros do Sul global não fiquem para trás nas transformações do século XXI, é por acreditar que a tecnologia é capaz de “melhorar a qualidade de vida das pessoas”. Prestes lembra que máquinas autônomas podem realizar atividades de alto risco no lugar dos seres humanos ou aprimorar serviços de educação e saúde.

“Nós podemos, por exemplo, aplicar a robótica na área de monitoramento ambiental para tentar mapear a extensão de um determinado desastre e, a partir daí, tentar encontrar rotas de fuga. Ou utilizar veículos não tripulados para fazer monitoramento de fronteiras e combater o tráfico.”

Atualmente, já existem robôs que detectam e desarmam minas terrestres sozinhos.

Máquinas e inteligência artificial também podem ser utilizadas em diagnósticos e processos de decisão médicos, bem como em tratamentos para doenças mentais, como depressão e transtorno de ansiedade. Ferramentas digitais podem ainda ampliar o alcance e a qualidade da educação à distância.

“A tecnologia tem potencial realmente de transformar a sociedade em uma sociedade mais igualitária, mais justa. É nisso que eu acredito”, completa Prestes.

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