Branko Milanovic: maior ameaça à democracia é a plutocracia

O economista sérvio-estadunidense Branko Milanovic é um dos maiores especialistas mundiais em estudos sobre a desigualdade socioeconômica. Ex-economista-chefe do Departamento de Pesquisa do Banco Mundial e atual professor visitante na City University em Nova York, durante anos, ele tem alertado para os problemas causados pelo aumento da desigualdade em escala global e a consequente percepção de que os sistemas políticos são dominados por plutocracias, o que considera uma ameaça maior para as democracias do que os chamados populismos.

Em entrevista de página inteira ao jornal O Globo de 3 de novembro, Milanovic bateu na tecla de que o capitalismo é um sistema sem concorrentes atuais, mas observa que há muito descontentamento com os efeitos negativos da globalização, em especial, entre as classes médias dos países ricos, além de países como o Chile. A propósito do país sul-americano, afirmou:

O Chile tem uma desigualdade de renda muito elevada para um país não tão grande, que não tem um histórico escravagista como o Brasil. O Chile tem ainda uma extrema concentração de riqueza. Tem um grande número de bilionários, alguns com muitos bilhões. E passou por uma privatização e “commoditização” total de serviços públicos. Além de tudo isso, um sistema privado de aposentadoria. Vários desses elementos contribuíram para que as pessoas mais pobres se sentissem esmagadas por todos os lados. (…) Tudo isso combinado levou a essa explosão, que não havia sido prevista por ninguém. (…) Se eles forem sensatos, vão tentar promover ajustes.

Perguntado sobre o sucesso econômico chileno, respondeu:

Se você tem apenas crescimetno, como é o caso do Chile, sem olhar para a distribuição, equidade ou oportunidade, você tem um monte de chilenos abandonados. Aí, e claro, você vai ter uma explosão como agora. Logo, o crescimento sozinho não é suficiente. Isso é bem conhecido. Se você olha os partidos social-democratas nos anos 1950 ou depois, eles não falavam apenas sobre crescimento, mas também sobre justiça e redistribuição.

Milanovic se diz refratário ao termo “populismo”, “porque parece que apenas pessoas que são de centro são razoáveis e responsáveis”, lembrando que o termo é usado para rotular políticos em lados opostos do espectro, como o presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, e a francesa Marine Le Pen.

Em seu novo livro, Capitalism, Alone (Capitalismo, sozinho), que será lançado no Brasil em 2020 pela editora Todavia, Milanovic se refere com frequência à plutocracia e seus problemas. Para ele:

Acho que ela representa uma maior ameaça, um risco objetivo maior, para a democracia do que o chamado populismo. Porque, de qualqeur maneira, populismo pressupõe que as opiniões das pessoas sejam levadas em consideração. Independentemente de não mostrar quais são os interesses envolvidos e as reais questões em jogo, todo populista precisa trabalhar dentro de limites que satisfaçam uma parte grande do eleitorado. Mas a plutocracia não precisda disso. Ela pode olhar apenas para as pessoas que estão no topo da pirâmide de riqueza.

Sobre o Brasil, o economista se mostrou surpreso com a enorme desigualdade da riqueza no País, medido pelo Coeficiente de Gini (que varia de 0 a 1, sendo quanto mais próximo de 1, maior a concentração de riqueza, considerada como diferente da concentração de renda):

Eu fiquei surpreso porque é raro ver esse número, 0,00. Mas, independentemente se é 0,99 ou 0,95, o fato é que é mais de 0,9. Isso significa que o Brasil tem uma concentração extremamente alta de renda de capital e de riqueza. E, em todos os estudos, ninguém questiona o fato de a desigualdade de riqueza no Brasil ser ainda maior que a desigualdade de renda. Se você olha para a desigualdade de renda, ela está em torno de 0,50, 0,57, mas é muito menor que a desigualdade de riqueza.

Talvez, Milanovic ficasse ainda mais surpreso se tomasse conhecimento dos números citados pelo relatório Global Wealth 2019 do banco Crédit Suisse, segundo o qual o número de milionários brasileiros aumentou quase em um quinto, no último ano, mesmo em meio à maior depressão econômica da história nacional.

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