Até o FMI teme novos choques financeiros

Como sabem os leitores que nos acompanham, nunca tivemos grande simpatia pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). As suas políticas e condicionantes impostas aos tomadores de empréstimos têm enfraquecido enormemente as economias de muitos países, especialmente os que estão em desenvolvimento, mas não apenas eles. Não obstante, os seus relatórios mais recentes, o World Economic Outlook(Panorama econômico mundial) e o Global Financial Stability Report (Relatório sobre a estabilidade financeira global), são interessantes e merecem ser discutidos, pois ressaltam o surgimento de novos riscos sistêmicos e “os grandes desafios para a economia global, a fim de se evitar uma segunda Grande Depressão”.

O Fundo pergunta, em primeiro lugar, se “a nova arquitetura financeira” criada nesses últimos anos é suficiente e segura. Em seguida, lista “as nuvens que surgem no horizonte”: uma recuperação global desigual e desequilibrada; as tarifas e outras tensões comerciais; o preocupante crescimento do “sistema bancário paralelo”, especialmente nos EUA e na China, países onde já chega a 70 trilhões de dólares; o enfraquecimento do multilateralismo e o perigoso aumento das decisões unilaterais. Somam-se a isto a queda nos investimentos, a carência de capitais e a queda da produtividade nas diversas economias.

Ao mesmo tempo, no entanto, os mercados financeiros permaneceram “vivos” e estranhamente indiferentes aos riscos de um repentino aperto nas condições financeiras. De fato, o provisionamento progressivo da “flexibilização quantitativa” (leiam-se injeções de liquidez no sistema pelos bancos centrais), o aumento das taxas de juros da Reserva Federal dos EUA, o fortalecimento do dólar e as políticas tarifárias estão causando maiores pressões de mercado em muitas economias emergentes e gerando grandes fugas de capitais, que o próprio FMI estima que poderá ultrapassar os 100 bilhões de dólares a curto prazo.

As consequências já são visíveis: fortes desvalorizações de algumas moedas, dificuldades crescentes no financiamento de dívidas externas e uma profunda mudança na carteira de títulos de algumas economias emergentes. Em particular, são os casos da Argentina, do Brasil e da Turquia, que, nos últimos meses, experimentaram desvalorizações monetárias de dois dígitos. Para a Argentina, o Fundo já destinou 57 bilhões de dólares para evitar uma nova falência.

Até agora, o “forte apetite por riscos” tem mascarado os desafios que os mercados emergentes terão que enfrentar se as condições financeiras piorarem. Neste caso, diz o FMI, o perigo de contágio seria inevitável.

As políticas financeiras restritivas, inevitavelmente, colocam em questão o sistema global. Desde 2008, a dívida mundial, sem contar o setor bancário e financeiro, passou de 200% para 250% do PIB global. Os relatórios do FMI mostram que as bolsas de valores e os valores de certos ativos, como os imóveis e outros títulos, estão fortemente supervalorizados. Na recente reunião anual do FMI, realizada na ilha indonésia de Bali, a diretora-gerente Christine Lagarde quantificou essa dívida em 182 trilhões de dólares.

De acordo com os relatórios, a liquidez introduzida pela “facilitação quantitativa” de juros zero teria feito emergir “uma nova estrutura de mercado”, a qual, no entanto, ainda deve ser testada quanto à sua capacidade de absorver novos choques.

Apesar dos aumentos de capital e de outras medidas de garantia, o sistema bancário internacional permanece, portanto, exposto aos riscos representados pela elevada massa de dívidas contraídas pelos governos, empresas e famílias. Além disso, há muitos “ativos opacos e ilíquidos” no sistema, com um uso exagerado de fundos em moedas estrangeiras.

Portanto, de acordo com o FMI, ainda hoje, 85% das 24 economias envolvidas na crise bancária de 2008, das quais 18 no setor avançado, apresentam desvios negativos em relação à tendência anterior à crise. Em mais de 60% das 24 economias mencionadas, os níveis de produção ainda permanecem abaixo dos níveis pré-crise.

A Itália, infelizmente, é um desses países.

O Fundo faz um apelo para se revisarem globalmente as regras do sistema econômico-financeiro, resistindo às pressões em favor do cancelamento até mesmo daquelas poucas que foram concluídas até o momento. Algo meritório, sobretudo, se se considera que muitos instrumentos financeiros utilizados ​​para lidar com a crise de 2008-09 não estão mais disponíveis.

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