O meio ambiente está no topo da agenda da futura embaixadora dos EUA em Brasília, Elizabeth Bagley. Como ela informou em sua sabatina no Senado, em 18 de maio: “Se confirmada, uma de minhas maiores prioridades será incentivar esforços para aumentar a ambição climática (sic), reduzir dramaticamente o desmatamento, proteger os defensores da floresta e punir crimes ambientais e atos de violência correlatos.”
Bagley, que desde janeiro aguardava a sabatina para a sua confirmação no posto, disse ainda que o governo do presidente Jair Bolsonaro não está trabalhando para atingir os compromissos de desmatamento anunciados na conferência climática COP-26, em Glasgow, no ano passado.
Durante a sabatina, dois outros temas receberam destaque. O senador Robert Menendez, presidente do Comitê de Relações Exteriores da casa, questionou Bagley sobre as críticas de Bolsonaro ao sistema eleitoral brasileiro e o que ela poderia fazer para que as eleições de outubro corram bem. Se a formulação da pergunta já indicava uma mentalidade de potência colonial, a resposta de Bagley demonstrou que ela não é uma diplomata de carreira qualquer, mas uma integrante dos altos círculos do poder estadunidense:
Bolsonaro disse várias coisas, mas o Brasil é uma democracia. Eu atuo no Instituto Nacional Democrata por mais de 30 anos. Eu já monitorei muitas eleições e sei que não será um momento fácil por causa de muitos dos comentários dele, mas apesar desses comentários, esta realidade histórica das instituições. Eu acho que o que vamos continuar a fazer é mostrar a nossa confiança e a nossa expectativa de que eles vão ter uma eleição livre e justa (G1, 18/05/2022).
O Instituto Nacional Democrata para Assuntos Internacionais (NDI, sigla em inglês) é um dos órgãos integrantes da Fundação Nacional para a Democracia (National Endowment for Democracy – NED), entidade criada em 1983 com o propósito declarado de “ajudar a reforçar instituições democráticas em todo o mundo”, o chamado “Projeto Democracia”. Na prática, uma fachada “legal” para um esporte favorito do Establishment estadunidense, antes prerrogativa da CIA (Agência Central de Inteligência): intervenções na política interna de países-alvo da agenda hegemônica de Washington.
A NED representa uma interface suprapartidária entre o Congresso, representado pelo NDI e o Instituto Republicano Internacional (IRI), e o governo, pelo Departamento de Estado, do qual provém a maior parte do seu orçamento (US$ 180 milhões em 2019), vinculado ao da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que também funciona com frequência como fachada para atividades da CIA.
A existência da NED veio à luz durante as investigações do chamado Escândalo Irã-Contras, em 1985, quando foi revelado que a entidade era usada pelos mentores da operação clandestina de venda de armas ao Irã (com quem os EUA haviam cortado relações diplomáticas desde 1979) e aos guerrilheiros Contras nicaraguenses que lutavam contra o regime sandinista da época. Outra de suas especialidades são as “revoluções coloridas” em países da antiga União Soviética, como a Geórgia, Ucrânia, Quirguistão e outros, inclusive com tentativas frustradas na própria Rússia, que baniu as operações da NED no país, juntamente com outras ONGs estadunidenses e europeias.
Atualmente, opera em mais de 100 países, com apêndices partidários, sindicais, empresariais e do “terceiro setor”, sempre com a mesma agenda: promover “quinta-colunas” locais que apoiem os interesses de Washington.
Bagley não é uma mera operadora desse aparato, mas membro do conselho de administração do NDI, cargo que também ocupa na Fundação Carnegie, outro órgão da elite oligárquica estadunidense. Além disso, já integrou o ultra-seleto Conselho de Relações Exteriores (CFR) de Nova York e, com seu falecido marido, Smith Bagley (um dos herdeiros da R.J. Reynolds Tobacco Company), foi uma das maiores financiadoras das campanhas presidenciais de Bill Clinton, Hillary Clinton, Barack Obama e Joe Biden, sendo ainda uma das principais arrecadadoras de fundos do Partido Democrata.
Formada em Direito, com especializações em comércio e Direito Internacional na França, Espanha e Áustria, Bagley tem uma longa carreira no Departamento de Estado, ocupando cargos de assessora sênior em três governos democratas – Jimmy Carter, Bill Clinton e Barack Obama, trabalhando diretamente com os secretários de Estado Madeleine Albright, Hillary Clinton e John Kerry. No governo Carter, seu mentor foi o empresário-diplomata Sol Linowitz, um dos mentores da criação do movimento ambientalista e cofundador do Clube de Roma.
Atualmente, é dona da empresa de telefonia Celular One, que opera no Arizona e no Novo México. Aos 69 anos, não parece que ela voltaria “à ativa” apenas pelo prêmio de uma embaixada de certo peso, como é praxe em Washington entre os grandes contribuintes das campanhas presidenciais vencedoras (ela mesma já foi embaixadora em Portugal, na década de 1990). Pelo seu currículo, o mais provável é que tenha sido “convocada” para uma missão especial no Brasil, país que tem se revelado problemático para a agenda estadunidense, desde que efetuou uma guinada diplomática para reaproximar-se da Rússia, no ano passado.
A influência da Rússia e da China no Brasil foi o outro tema de destaque na sabatina do Senado, para a qual Bagley disse pretender trabalhar para “reduzir essa presença”. Sobre o fornecimento de tecnologia 5G por empresas chinesas, ela disse que os EUA estão “encorajando” o governo brasileiro a analisar cuidadosamente os aspectos de privacidade, segurança nacional e sustentabilidade tecnológica.
Usualmente traduzido como “encorajar” ou “estimular”, o verto encourage usado por Bagley é um eufemismo corrente entre funcionários do governo estadunidense para qualificar as pressões de Washington sobre os países-alvo da sua estratégia hegemônica.
“Se eu for confirmada, irei trabalhar ainda mais para assegurar que eles [o Brasil] tenham múltiplos fornecedores”, disse ela (Poder360, 18/05/2022).
Em relação à posição brasileira sobre a guerra na Ucrânia, Bagley demonstrou ter feito o dever de casa, lembrando que o Brasil foi “o único país dos BRICS a apoiar os EUA nas posições sobre a Rússia” – só não disse que Brasília tem feito duras críticas às sanções impostas a Moscou.
“Mas continuarei a pressioná-los”, para adotarem mais medidas contra a Rússia, prometeu.
Igualmente, ela afirmou que pretende “ajudar” o Brasil a buscar novas fontes de fertilizantes, para reduzir as importações da Rússia.
A nomeação de uma embaixadora com tal agenda ocorre em paralelo com a igualmente provável aprovação pelo Congresso da Lei Amazon21, que estabelece um fundo de US$ 9 bilhões para o “combate ao desmatamento em países em desenvolvimento” e poderá vir a ser um insidioso instrumento de pressão política nas mãos experientes de Bagley (Alerta Científico e Ambiental, 12/05/2022).
E leve-se em conta que o quadro de intimidação internacional ao Brasil sobre a questão ambiental se mantém em alta, haja vista a declaração do diretor-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Petteri Taalas, no lançamento do novo relatório alarmista da entidade sobre o clima global: “Parar o desmatamento na Amazônia é um dos grandes desafios do mundo (UOL, 18/05/2022).”
É evidente que Washington pretende aumentar a pressão sobre o Brasil, em especial, explorando o calcanhar de Aquiles da política ambiental, agravado pela ilusória insistência de certas lideranças nacionais com a conversão da proteção da Amazônia em mecanismos de “pagamento por serviços ambientais” e pela vulnerabilidade maior das políticas econômicas nacionais, a subordinação a investimentos externos. Sem falar na irracional agenda da venda das empresas energéticas do Estado, num momento em que um número crescente de países reavalia a importância dos seus recursos naturais, frente à rápida emergência do novo sistema financeiro encabeçado pela Rússia e a China, que terá um forte componente de “lastro” em moedas e commodities selecionadas.
A indicação de uma experiente integrante do Deep State para Brasília é mais uma evidência de que o jogo está ficando pesado. Logo, o Brasil poderá ver-se diante de decisões drásticas para salvaguardar os seus interesses.

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