A política monetária da estagnação

Por André Araújo

N. dos E. – Este artigo foi escrito antes da reunião do Conselho de Política Monetária do Banco Central (Copom), mas as suas conclusões se mantêm.

Na próxima quarta-feira, haverá reunião do Copom. Nenhuma surpresa. Ou vão manter a taxa ou vão reduzir alguns centésimos. Todos os indicadores da economia são péssimos. A baixa atividade industrial e o desemprego altíssimo permanecem. Jamais, na história econômica brasileira dos últimos cem anos, um grupo tão medíocre de figuras pequenas dirigiu a política econômica, nenhum brilho, nenhum pensamento mais avançado, nenhuma visão de futuro para o País. São medíocres por formação e convicção, conduzem um País parado, estagnado e acham que estão certos. O crescimento, segundo eles, virá do mercado, dos investimentos numa economia estagnada; uma contradição em termos, investir para quê, se não há renda, não há demanda?

Política monetária é instrumento para algum movimento para frente, não é para ficar parado. Cinco anos de paralisia não bastam?

Está na hora de uma política econômica expansionista como motor do crescimento, se houver alguma inflação, se corrige depois, mas é possível calibrar uma expansão de gastos com investimento em obras públicas como locomotiva do crescimento. Qual o problema? Por que não se faz?

O Banco Central Europeu fez, o Banco do Japão fez, o Federal Reserve fez, é o “quantitative easing”, jogar dinheiro na economia, por que é tão difícil fazer aqui? É um movimento lógico, racional, moeda é instrumento para um bem, não é uma estátua para se adorar, para investir na renda fixa, moeda é sangue para fazer a economia viver e dar condições de sobrevivência aos milhões de pessoas que hoje vivem na estagnação permanente, a miséria estável.

O Estado brasileiro tem quatro grandes instrumentos para puxar o crescimento: o Ministério de Infraestrutura, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica e o BNDES. Investir em obras públicas é o caminho mais rápido para fazer a economia crescer, não há novidade, Keynes ensinou há 80 anos.

Os três bancos públicos não só não fazem nada para o crescimento, como os gênios da equipe econômica só pensam em acabar com eles, vender os bancos para os conglomerados financeiros privados, que já concentram absurdamente o mercado bancário e têm aqui os maiores lucros bancários do planeta.

Investir dinheiro público em infraestrutura, nem pensar, mas por quê?

Inflação muito abaixo da meta é um mau sinal, não é coisa boa, indica estabilidade de cemitério.

Os procônsules da equipe Paulo Guedes, todos homens do mercado financeiro, só falam em privatizar tudo. Ora, nenhum país do mundo está privatizando portos, estatais de petróleo, bancos públicos, grandes companhias geradoras de energia, aeroportos, a era das privatizações acabou, só continua no Brasil.

Nos EUA, matriz do capitalismo, é tudo estatal: portos, aeroportos, metrôs, ônibus nas grandes metrópoles, hidroelétricas, crédito agrícola, seguro agrícola, água e esgoto, são 8.670 entidades estatais de serviços públicos; não se chamam de companhias, são “authorities”, mas são o mesmo que as estatais daqui.

Das 20 maiores empresas de petróleo do mundo, 13 são estatais, elas detém 91% das reservas mundiais de petróleo, nenhuma está à venda.

Por que estão vendendo a retalho toda a Petrobras, perdendo um instrumento estratégico de desenvolvimento? Quem descobriu o pré-sal foi a Petrobras estatal, não foram empresas privadas, só uma estatal poderia desenvolver um projeto tão arriscado como o pré-sal.

É uma gente semilouca, fanática, sem visão de País. Tratam o Brasil como uma plataforma de mercado onde vivem 30 milhões de pessoas bem de vida, esquecendo que há 180 milhões de pobres sem renda decente, sem saúde, com péssima educação, péssimos serviços públicos, que dependem como única proteção do Estado que eles querem desmontar. Onde essa gente está com a cabeça?

Reformas de todo tipo não trarão o crescimento, istol é um grande engodo, uma cenoura para o burro continuar andando. Podem fazer reformas de tudo, mas só isso não trará crescimento, este não virá do mercado financeiro, mas da ação do Estado, como nos EUA, onde o Estado é imenso e decisivo.

As reformas dividem melhor a riqueza antiga, que já existe, mas é preciso criar riqueza nova, que só vem com o crescimento do PIB.

Venho escrevendo desde 2013, que essa política monetária não iria trazer nenhum crescimento, é uma política de uma só perna, fazer a inflação atingir a meta, é só isso, uma perna só, não é suficiente, é muito pouco e só ajuda a quem já tem dinheiro aplicado.

Para quem não tem nada, essa política vai mantê-los na miséria com inflação baixa, para quem não tem renda nada significa.

A crise do Brasil pode ser toda resumida na crise do crescimento, mãe de todas as demais crises, sem crescimento nada se resolve.

política monetária é a chave do crescimento, mas os iluminados do Banco Central jogaram a chave fora e nem estão procurando mais.

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