A cúpula dos BRICS na África do Sul: alguém na Europa prestou atenção?

A África do Sul sediou a décima cúpula dos BRICS, em Joanesburgo, em 25-27 de julho. Infelizmente, o evento foi totalmente ignorado na Europa, tanto pelas instituições políticas mais elevadas como pelos meios de comunicação de massa, atitude míope que revela toda a impotência política da União Europeia (UE) em face das grandes mudanças geopolíticas determinantes da História.

Ninguém imagina que as alianças tradicionais devam ser rompidas ou que novas estratégias aventurosas sejam imaginadas. Simplesmente, o que se pede é que não se fechem os olhos para a realidade cambiante e a sua contínua evolução. É como se a Europa devesse permanecer permanentemente acorrentada ao período inicial da Comunidade do Carvão e do Aço (CECA), enquanto o mundo “caminhava” para o petróleo, a energia nuclear e, em seguida, a fusão nuclear e as tecnologias mais sofisticadas de energias renováveis.

A atitude da UE e dos governos europeus frente ao BRICS parece cada vez mais aferrada ao documento 2011/2111 (INI) de 2012, intitulado “Proposta de resolução do Parlamento Europeu sobre as políticas nacionais da UE referentes aos BRICS e outras potências emergentes: objetivos e estratégias”. Texto que afirma: “Tendo em conta as grandes diferenças com os BRICS, com respeito às suas políticas, sistemas econômicos, tendências demográficas e sociais e políticas externas, a Europa adota uma política externa diferenciada, envolvendo parcerias e acordos separados para construir sinergias com os países individuais do BRICS e outros países emergentes, e desestimular a consolidação de grupos alternativos de Estados potencialmente convergentes em termos de política externa.”

A Europa, portanto, prefere ignorar os BRICS como um grupo, subestimando o fato de que eles representam 23% do PIB mundial e 18% do comércio global. O objetivo é manter apenas relações bilaterais com os seus membros individuais.

No entanto, a declaração final da cúpula de Joanesburgo, entre os diversos temas abordados, enfatiza a importância de se tentarem alternativas virtuosos às políticas desestabilizadoras como as guerras comerciais perseguidas pelos EUA de Donald Trump. A todas as luzes, seria altamente significativo e certamente incisivo se a voz da Europa se fizesse ouvir a respeito.

Neste momento, infelizmente, muitos gostariam de explodir e não reformar os diversos tratados internacionais de cooperação, como o da Organização Mundial do Comércio (OMC). Os BRICS, por outro lado, defendem corretamente a adesão aos princípios da Carta das Nações Unidas e renovam o compromisso com uma ordem mundial multipolar e com o fortalecimento das instituições multilaterais de governança global. No plano económico, identificam com precisão os grandes desafios, “nos crescentes conflitos comerciais, nos riscos geopolíticos, na volatilidade dos preços das commodities, no elevado endividamento público e privado e no crescimento desigual e não suficientemente abrangente”.

Ao nosso ver, as deliberações do grupo avançam na direção certa para o estabelecimento das bases para uma possível nova ordem monetária mundial. Para este fim, fazem uso do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e do Acordo Contingente de Reservas (ACR), um acordo financeiro para apoiar os países em dificuldades orçamentárias. Ao mesmo tempo, entrou em vigor o Fundo de Títulos em Moeda Local, para a emissão de obrigações nas moedas locais dos BRICS, com o objetivo de promover investimentos em infraestrutura e na modernização das suas economias, extensivo a outros países emergentes.

Recorde-se que, nos últimos meses, os dois líderes do grupo, a China e a Rússia, têm dado sequência a um ativo processo de diversificação das suas reservas monetárias e “desdolarização” progressiva das respectivas economias.

Na Rússia, por exemplo, a quota de ouro nas reservas aumentou dez vezes na última década, enquanto os investimentos em títulos do Tesouro dos EUA caíram ao mínimo, para apenas 15 bilhões de dólares, contra 176 bilhões, em 2010. As reservas de ouro do país estão entre as cinco maiores do mundo, atingindo cerca de 2 mil toneladas, segundo algumas estimativas, equivalentes a 18% das reservas mundiais do metal. Um processos semelhante está ocorrendo na China, que nos últimos quatro anos adquiriu 800 toneladas de ouro e, embora de forma mais cuidadosa, está diminuindo o estoque de títulos da dívida dos EUA, caindo do pico de 1,6 trilhão de dólares, em 2014, para cerca de 1,2 trilhão.

Ocorrida em paralelo com as comemorações do centésimo aniversário do nascimento de Nelson Mandela, a cúpula de Joanesburgo colocou uma grande ênfase na criação de infraestruturas e investimentos em todo o continente africano.

A despeito do seu posicionamento precoce sobre os BRICS, o interesse europeu deveria ser mais atento, participativo e eficaz. Além disso, em Bruxelas e em outras capitais europeias, o tema principal e politicamente complexo é a gestão dos fluxos migratórios provenientes do continente africano. Por conseguinte, o desenvolvimento e qualquer política de apoio eficaz ao desenvolvimento econômico e democrático dos países africanos deveria interessar a toda a Europa, sobretudo, o nosso país.

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