A "conexão Hezbollah-PCC"

A primeira página da edição dominical do jornal O Globo, em 9 de novembro, ostentava uma manchete bombástica: “PF aponta elo entre facção brasileira e Hezbollah.” Na abertura da ampla reportagem, publicada nas páginas 3 e 4, os leitores foram informados de que os serviços de inteligência brasileiros “reuniram uma série de indícios de que traficantes de origem libanesa ligados ao Hezbollah, o ‘Partido de Deus’, se aventuraram numa associação com criminosos brasileiros” vinculados ao PCC (Primeiro Comando da Capital), organização que controla boa parte dos presídios nacionais, principalmente, em São Paulo.

Não obstante, apesar de ocupar mais de página e meia do jornal, a reportagem não apresenta uma única evidência factual que justifique o alegado vínculo entre a organização criminosa brasileira e a organização política libanesa, apenas, uma suposta troca de favores entre traficantes de drogas libaneses que operam na área da Tríplice Fronteira Argentina-Brasil-Paraguai e traficantes brasileiros. Quanto ao Hezbollah, apenas as velhas, requentadas e jamais comprovadas denúncias de autoridades dos EUA sobre o envio de recursos financeiros ao grupo, a partir de Foz do Iguaçu (PR) e Ciudad del Leste, no Paraguai, que vêm sendo repetidas desde os ataques de 11 de setembro de 2001.

As investigações da Polícia Federal (PF) descritas na reportagem, que remontam a 2008, apontam várias articulações entre as duas organizações criminosas. Os libaneses teriam facilitado o contrabando de armas e explosivos destinados ao PCC, que, por sua vez, se comprometiam a dar proteção aos libaneses já detidos no Brasil. Sobre o Hezbollah, nada além de suposições. Um documento confidencial da PF, parcialmente reproduzido no jornal, afirma:

Durante a execução da Operação Spectro (conduzida pela DPF/FIG;PR e deflagrada em 12 de dezembro de 2008), chegaram ao conhecimento deste O.I. diversos dados obtidos através de contato pessoal com fonte humana de confiabilidade não avaliada, relacionada ao envolvimento de cidadãos estrangeiros, a maioria de nacionalidade libanesa, presos nas penitenciárias de [apagado] e [apagado], com atividades relacionadas ao tráfico internacional de entorpecentes além de suposto envolvimento com o Hezbollah (“Partido de Deus”) [sic] e aproximação com o [apagado] [grifos nossos]. (…)

Aparentemente, segundo a reportagem do jornalista Francisco Leali, da sucursal de Brasília do jornal, a origem das informações que vinculariam os traficantes libaneses ao Hezbollah seriam dois órgãos estadunidenses, o Departamento do Tesouro e a agência antidrogas Drug Enforcement Agency (DEA). Entretanto, até hoje, nenhuma prova real de tais ligações foi apresentada, tanto que o governo brasileiro não reconhece a ocorrência de atividades pró-terroristas na Tríplice Fronteira, assim como não reconhece o Hezbollah como organização terrorista (o único país sul-americano que usa tal classificação é a Argentina).

Na sequência da reportagem, publicada na edição de 10 de novembro, o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Alcides da Costa Vaz, foi cauteloso:

O Hezbollah tem atuação política. O grupo brasileiro é uma facção criminosa. Estas dimensões podem estar presentes num mesmo indivíduo, mas só as investigações da PF e da ABIN [Agência Brasileira de Inteligência] podem mostrar se há nexos entre as organizações para além dos indivíduos (O Globo, 10/11/2014).

Cautela que, visivelmente, faltou ao Globo, para fazerem semelhante alarde com uma vinculação da qual em momento algum se apresentam fatos comprobatórios, apenas vagas suposições. Ademais, o jornalista peca por não esclarecer adequadamente os leitores sobre a natureza do Hezbollah, bem mais complexa que o estereótipo de “organização terrorista”, que lhe é atribuída por não mais que cinco países (os indefectíveis EUA e Israel, além da Argentina, Canadá e Holanda).


Como qualquer pessoa com acesso à internet pode levantar em poucos minutos, o Hezbollah é um grupo político xiita criado em 1982, inicialmente como uma milícia organizada para combater a invasão israelense do Líbano (hoje uma das mais eficientes do mundo), que também tem uma ala partidária representada no Parlamento (12 deputados) e no governo libaneses (dois ministros), além de desenvolver um ativo serviço social, operando escolas, creches, hospitais e serviços de apoio a agricultores.

Assim, fica no ar a suspeita de que a “revelação” pode ter outras motivações, que não apenas fornecer uma boa primeira página para uma morna edição de domingo – talvez, as respostas devam ser procuradas em alguma das embaixadas dos países para os quais o Hezbollah tem sido mais que uma pedra no sapato.

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