A “Bidenomics” e o fim da era de Milton Friedman

A edição de 1° de outubro da revista EU&Fim de Semana, encarte semanal do jornal Valor Econômico, traz uma oportuna discussão sobre a política econômica do presidente estadunidense Joe Biden, baseada em uma forte intervenção do governo federal em investimentos e coordenação estatal em várias áreas, uma tentativa de superar os danos causados por décadas de hegemonia dos mercados financeiros. Já rotulada como “Bidenomics”, a pretendida reorientação – que ainda precisa ser aprovada no Congresso – significa, nas palavras do próprio Biden, quando ainda era pré-candidato presidencial, “o fim da era de Milton Friedman”, o icônico economista da Escola de Chicago, tão caro aos neoliberais que têm dado as cartas nas formulações de políticas nas últimas décadas, inclusive no Brasil. Por suas repercussões globais de ameaça à hegemonia do sistema financeiro, está sendo amplamente debatida fora dos EUA e em outros países, entre eles o Brasil.

Um dos artigos da revista (“Joe Biden quer iniciar nova era na política econômica”, de Diego Viana) apresenta um panorama das repercussões do programa de Biden, na academia, mídia e think-tanks estadunidenses, do qual vale registrar duas observações relevantes.
Uma delas é a do comentarista econômico da agência Bloomberg, Noah Smith: “Todo novo presidente chega com uma lista de iniciativas, mas a cada três ou quatro décadas um deles traz uma filosofia nova. O teor, ritmo e escopo do plano de Biden sugerem que estamos entrando em um novo paradigma, como com Franklin Roosevelt, em 1933, e Ronald Reagan, em 1981.”

De fato, Roosevelt (1933-1945), com o seu New Deal, adotou o paradigma de um governo intervencionista em prol do Bem Comum, do “homem esquecido na base da pirâmide econômica”, como gostava de dizer. Sem o seu vasto programa de investimentos públicos em um amplo leque de atividades, que incluíam até mesmo a área cultural, os EUA teriam tido muito mais dificuldades para superar a Grande Depressão da década de 1930 e para converter a sua economia para a produção de guerra, após o início da II Guerra Mundial.

Quanto a Reagan (1981-1989), apesar de ter sido homenageado com a “Reaganomics”, não foi propriamente em seu governo que teve início a tsunami de desregulamentação e concentração financeira que ensejou a “globalização”, mas no de Richard Nixon (1969-1974), que, em 1971, desvinculou o dólar da cotação do ouro e de qualquer “âncora” física da economia real.

O segundo comentário é de Stephen Marglin, professor da Universidade de Harvard, para quem “a ambição [de Biden] de incorrer em déficits para financiar os programas é até maior do que a de Roosevelt, que apenas aceitava os déficits como preço necessário a pagar para obter a restauração da economia”. Para ele, “a ênfase atual nos objetivos a atingir, deixando a questão orçamentária em segundo plano, é uma virada enorme no contexto atual”.

Efetivamente, esta seria a essência fundamental da “Bidenomics”: ênfase em objetivos e metas, subordinando a eles as questões fiscais. Orientação bastante adequada para economias urgentemente necessitadas de reconstrução física, caso da estadunidense e da brasileira.

No Brasil, discussões com propostas semelhantes de reorientação das políticas econômicas têm sido travadas nos últimos anos e têm ganhado ênfase especial diante dos desastrosos efeitos da política do ministro da Economia Paulo Guedes – “estagflação”, desemprego e subemprego recordes, aprofundamento da desindustrialização, investimentos pífios em educação, pesquisa, desenvolvimento e infraestrutura e outros -, que já mobilizam contra ele até mesmo importantes setores empresariais. Agora, às voltas com um sério problema ético, com a revelação da sua empresa offshore em um paraíso fiscal, Guedes perde de vez o seu referencial, frente à nova orientação estadunidense.

No País, acaba de ser publicado o livro Bidenomics nos trópicos (Editora FGV). Organizado por André Roncaglia, professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), e o ex-ministro da Fazenda Nelson Barbosa, presquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ibre), o livro traz contribuições de outros 19 economistas sobre uma possível versão nacional de um programa de desenvolvimento de longo prazo.

O texto do jornalista Fabio Graner (“Política econômica de Biden reanima desenvolvimentismo”) observa que a linha mestra da obra é “a retomada do papel do Estado como agente essencial para a construção de uma economia desenvolvida e complexa”. Segundo ele, “boa parte dos textos traz ácidos comentários sobre as décadas de domínio do antigo ‘Consenso de Washington’, conjunto de medidas liberalizantes de certa forma retomadas no Brasil a partir do impeachment de Dilma Rousseff e que foram intensificadas com a dupla Bolsonaro/Guedes”.

Tratando-se do jornal de referência do big business do País, não poderia faltar um comentário crítico sobre o que o jornalista chama um “certo saudosismo não só com a ‘era de ouro do capitalismo’ (os 30 anos do pós-guerra em que o mundo agiu guiado pelo keynesianismo), mas também com políticas econômicas polêmicas praticadas nos anos de chumbo, como os PNDs [Planos Nacionais de Desenvolvimento] I e II, bem como da retomada do investimento público e o uso de empresas estatais na era PT”.

Não obstante, ele observa que os artigos do livro apontam “caminhos concretos de aplicação no Brasil”:

São apresentadas diversas possibilidades de estímulo ao crescimento sustentável de longo prazo com investimentos diretos e ações de coordenação estatal para ativação do setor privado em áreas como saúde e educação, mobilidade urbana (e seus impactos enormes sobre o bem-estar dos mais pobres e a “economia do cuidado”) e inovação. Também são mostrada das as oportunidades geradas pela “economia verde”, bem como os diferentes impactos de uma possível ampliação de programas de transferência de renda, que podem afetar o grau de complexidade da economia e ser instrumentos para recuperar plenamente a atividade produtiva brasileira após as sequelas do coronavírus.

Sobre as restrições fiscais em vigor, ele observa que, “ainda que o espaço para ações não tenda ao infinito, o consenso ali é que a restrição estaria longe de ser o que se vende pelo atual governo e, de certa forma, imposta pelo pensamento predominante no mercado financeiro”.

E conclui, afirmando: “(…) O trabalho é um convite para uma reflexão sobre como construir uma versão ‘tropical’ da ‘Bidenomics’. E, com as eleições se aproximando, toda discussão sobre como acelerar o desenvolvimento do Brasil é bem-vinda.”

Portanto, é muito bem-vinda a iniciativa do Valor de colocar em pauta esse debate inadiável, que esta Resenha seguirá acompanhando de perto.

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