A Avaaz e o ativi$mo cibernético

N. dos E. – A propósito de uma petição que pede o impeachment da presidente Dilma Rousseff, postada no sítio da ONG Avaaz, republicamos a nota que escrevemos sobre esta organização, originalmente publicada em outubro de 2012. Nos parece um contrassenso que cidadãos brasileiros recorram a uma entidade supranacional, com uma agenda mais que questionável, para veicular as suas frustrações com os resultados do recente processo eleitoral.

No dia 1° de junho de 2006, entrou em atividade uma organização não-governamental (ONG) virtual, que, desde então, tem se apresentado como um instrumento para “mobilizar pessoas de todos os países, para construir uma ponte entre o mundo em que vivemos e o mundo que a maioria das pessoas querem”. Com a proposta de mobilizar a opinião pública internacional para pressionar governos nacionais, em diversos temas de grande apelo sentimental, desde salvar crianças doentes em estado terminal até proteger a Floresta Amazônica, a Avaaz (palavra que significa “voz” em diversos idiomas) tem se especializado em pedir dinheiro a pessoas bem intencionadas de todo o mundo, para custear as suas campanhas salvacionistas (Avaaz.org). Todavia, surgem denúncias sérias que apontam que as reais finalidades de tal projeto são bem menos nobres.

A Avaaz faz uma série de pedidos de doações via e-mail a pessoas de todo o mundo, sempre com base em textos apelativos que exploram qualquer tema que esteja em destaque. Dentre as suas campanhas, de interesse direto para o Brasil, destacou-se uma petição contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará.

Desde a sua fundação, de acordo com a prestação de contas da Avaaz à Justiça dos EUA, disponíveis no seu sítio, a entidade conseguiu arrecadar a expressiva cifra de 18 milhões de dólares, até 2010. Segundo os registros, a receita provém de doadores de todo o mundo, que realizam as suas contribuições por meio de depósitos via cartões de crédito internacionais. O valor das doações varia de R$ 15,00 a R$ 150,00 (em reais no próprio sítio, para facilitar a tarefa dos doadores brasileiros), as quais são remetidas para uma conta no exterior. Além disto, todas as mensagens da ONG são enviadas de um computador com registro em Nova York (IP: 69.60.9.158).

Segundo as informações do sítio, a Avaaz é presidida por Ricken Patel, também fundador das ONGs virtuais MoveOn.org, Res Publica e FaithInPublicLife.org, que se baseiam na mesma estratégia: mobilizar pessoas de todo o mundo para fazer doações, por meio de campanhas e petições sobre assuntos em destaque. É significativo que Patel, de nacionalidade canadense, tenha um pedigree atestado como operativo do aparato de ONGs do Establishment anglo-americano. De acordo com o seu currículo apresentado no sítio da Res Publica (www.therespublica.org), ele é mestre em Políticas Públicas pela Escola de Governo John F. Kennedy da Universidade de Harvard, tem um bacharelado pela Universidade de Oxford e passagens pelo International Crisis Group, Fundação Rockefeller, Fundação Gates, CARE International e International Center for Transitional Justice.

O cv informa, também, que ele foi o primeiro de uma turma de 350 alunos em Oxford. Talvez, por se considerar um diferenciado, Patel tenha decidido iniciar uma carreira solo no mundo da militância internacionalista nas causas determinadas pelo Establishment oligárquico. Como presidente da Avaaz, no segundo semestre de 2008, Patel se atribuiu vencimentos de 126 mil dólares, equivalentes a um salário mensal de R$ 40 mil. Nada mal para um trabalho que consiste em enviar e-mails para os quatro cantos do planeta, para o que não parece precisar de muita ajuda, pois a ONG só conta com cinco funcionários, segundo a última prestação de contas, de 2010. O site Avaaz.org está registrado em Paris, em nome de Matt Holland, embora a organização esteja sediada em Nova York. Curiosamente, o nome de Holland sequer consta dentre os membros listados nas prestações de contas da ONG.

No Brasil, país no qual se jactava de ter o poder de “persuadir” o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Avaaz já realizou campanhas de assinaturas eletrônicas contra o Código Florestal, a construção de Belo Monte, a remoção da comunidade quilombola Rio dos Macacos das proximidades da Base Naval de Aratu (BA) e outras iniciativas, sempre vinculadas a temas de interesse da agenda intervencionista do Establishment.

Não por acaso, têm surgido na Internet questionamentos à integridade da organização, acusando-a de lucrar indevidamente com as informações pessoais que lhe são passadas pelos que assinam as suas petições eletrônicas. Uma dessas denúncias foi publicada por Adam Beecher, no site irlandês Verbo.se (14/06/2007), que afirmou que passou a receber spams no seu e-mail que havia criado exclusivamente para se inscrever na Avaaz. Beecher relata que chegou a entrar em contato com a ONG para relatar o problema, que, por sua vez, lhe respondeu que investigaria sobre o ocorrido, mas nunca mais emitiu qualquer informação sobre tais investigações. Com isso, deixou patente uma grave falha no manuseio das informações pessoais de quem resolve aderir às suas petições.

Como seria de se esperar, nada disso é relevante para a grande mídia, que tem dado uma significativa cobertura às campanhas eletrônicas da Avaaz, inclusive, no Brasil – como esta do jornal O Globo de 24 de maio de 2012: “ONG entrega 1,9 milhão de assinaturas contra Código Florestal.”

A Avaaz parece ser uma inovação no mundo das ONGs internacionalistas, combinando o ativismo engajado com um claro propósito de obtenção de polpudos ganhos pessoais por seu criador, Ricken Patel. Não obstante, os “ruídos” que tem o potencial de causar não são menores que os produzidos pelas ONGs tradicionais do aparato intervencionista do Establishment anglo-americano. Por isso, não se devem subestimar as suas ações.

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