Villas-Bôas: “Temos a responsabilidade de ser os guardiões dos princípios da nacionalidade brasileira.”

Após a sua já célebre entrevista de fevereiro último ao jornal Valor Econômico (comentada neste sítio), o comandante do Exército, general Eduardo Villas-Bôas, voltou a se manifestar publicamente sobre certos aspectos da crise brasileira, em especial, quanto ao papel exercido pelas Forças Armadas, em geral, e o Exército, em particular. Na 15a edição do programa O Comandante Responde, uma entrevista regular divulgada pelo Centro de Comunicação Social do Exército, ele comenta uma variedade de assuntos referentes à força, como a reforma previdenciária, e fala sem rodeios e com humor sobre o drama pessoal imposto pela doença neurológica degenerativa que o acometeu e tem limitado a sua movimentação. Na parte final, depois de comentar a ativa participação recente dos militares em ações de segurança pública (as chamadas Operações de Garantia da Lei e da Ordem), bate na tecla das missões fundamentais das Forças Armadas. Em suas palavras:

O fundamento moderno da defesa é o de que as Forças Armadas, além de estarem prontas para defender a soberania e a integridade do País, devem estar também em condições de atender as demandas e as necessidades da população. Soldado não fica na prateleira, ele deve estar sempre sendo empregado ao serviço da nação e da sociedade a que ele serve. Mas, além disso, as F.As. e o Exército têm outras três funções importantes a cumprir. Primeiro, produzir um efeito de dissuasão, daí a importância dos grandes programas que nós desenvolvemos, como o dos blindados, artilharia antiaérea, os foguetes; a Marinha tem o seu programa de submarinos; a Aeronáutica tem o dos caças. Essa é a finalidade precípua das F.As.: dissuadir, muito mais do que ser empregadas. Então, a questão da dissuasão faz com que nós estejamos sempre nos adestrando, nos preparando, nos modernizando, para obter esse efeito da dissuasão. Sempre que uma força armada é empregada, é para solucionar alguma falha na sua capacidade de dissuasão.

O segundo aspecto que eu gostaria de destacar, que é importantíssimo para um país com as características do nosso, é o quanto a defesa e as F.As. contribuem para o desenvolvimento nacional, tanto na indução da economia direta, por intermédio de empresas e do desenvolvimento da ciência e da tecnologia, na participação na área social; o segundo diz respeito à capacidade que as F.As. têm de induzir o desenvolvimento. A defesa de um país será tão mais forte quanto mais for robusta a participação da área econômica, da área de ciência e tecnologia, da área acadêmica, por exemplo, na elaboração das concepções de defesa do país.

E um terceiro, e talvez o mais importante, é que as Forças Armadas guardam a essência da nacionalidade. A força armada faz parte da criação do processo de sentimento nacional. Elas pré-existem ao surgimento do país, à formação do Estado. Todo agrupamento humano tem na sua origem aquele grupo resultado ou encarregado do instinto de segurança coletiva. Na medida em que, no processo de evolução, vai incorporando novos elementos culturais, vai se tornando mais complexo, aí vai se formando o embrião da força armada. E, como eu disse, no momento em que se constitui o Estado e se forma o país, a força armada já existe. Então, vejam a íntima ligação que ela tem com o sentimento de nacionalidade, da essência da nacionalidade. Nós temos um processo histórico peculiar, mas vejam que em todos os países da América Latina, os Pais da Pátria eram generais. Então, não há como dissociar força armada de nacionalidade. Então, avançando: nós temos a responsabilidade de ser os guardiões dos princípios, dos valores e dos fundamentos da nacionalidade brasileira. Seguimos nos preparando para o futuro, tanto que, agora, quando comemorarmos o Dia do Exército [19 de abril], o nosso slogan será “pronto para o futuro” – evidenciando que tanto a força armada se baseia nas suas tradições ligadas à nacionalidade, mas elas têm que ter um dinamismo próprio, para se preparar para atender as demandas futuras que possam se apresentar. (…)

O vídeo completo com a entrevista do general Villas-Bôas, com cerca de 15 minutos, pode ser visto neste link. O trecho destacado tem início a partir de 12:30.

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