Venezuela: Igreja pede que Forças Armadas defendam o país

Depois de o presidente Nicolás Maduro ter desprezado as tentativas diplomáticas empreendidas pelo Vaticano em favor de uma solução razoável para a crise que assola o país há meses, a Igreja da Venezuela lançou um apelo para que os vários setores representativos da nação se unam, para pôr fim ao que passou a qualificar como uma ditadura do governo, responsabilizando-o pela violência e as ruinosas condições enfrentadas pela população.

Em junho, a Conferência Episcopal Venezuelana (CEV) solicitou ao papa Francisco uma reunião de emergência, para discutir o recrudescimento da violência governamental. No dia 8, uma delegação de alto nível da CEV foi recebida em audiência pelo Pontífice, para atualizá-lo sobre os acontecimentos no país, ato que marcou definitivamente o rompimento da Igreja com o regime de Maduro.

Na conclusão de sua assembleia plenária ordinária, realizada em Caracas, entre 7 e 12 de julho, os bispos venezuelanos divulgaram uma “Mensagem urgente aos católicos e pessoas de boa vontade na Venezuela”.

“Em nosso país, se percebe de maneira muito clara como a violência adquiriu um caráter estrutural”, diz o documento, que acrescenta: “Existe um menosprezo da dignidade humana, que se expressa na violação e negação contínua dos direitos humanos por parte das autoridades.”

Sobre a iniciativa do governo, de convocar uma Assembleia Nacional Constituinte, “questionada e rechaçada pela maioria da população”, os signatários consideram que “tudo deixa entrever que o que se busca é instaurar um Estado socialista, marxista e militar, com a desaparição da autonomia dos poderes, especialmente, o Legislativo”.

A mensagem faz um apelo ao governo, às lideranças políticas, educacionais e culturais, além das Forças Armadas, para assumirem as responsabilidades exigidas pelo momento crítico. A menção às Forças Armadas, para que se ponham ao lado da população, é bastante significativa, no contexto de que os militares podem assumir um papel moderador determinante, frente à intransigência de Maduro e seu governo.

Diz o texto:

À Força Armada Nacional Bolivariana: que, segundo o que assinala a Constituição Nacional, cumpra o seu dever de estar ao serviço de todo o povo, no respeito e garantia da ordem constitucional, e não simplesmente de um regime, partido ou governante. ‘As pessoas que prestam seu serviço nas Forças Armadas têm o dever específico de defender o bem, a verdade e a justiça… Os militares são plenamente responsáveis pelos atos que realizam, quando violam os direitos das pessoas e dos povos (Compêndio de Doutrina Social da Igreja, 502 e 503).’ Apelamos à consciência de todos os seus membros: não se esqueçam de que também fazem parte do povo e que deverão prestar contas de seus atos perante à Justiça humana e divina.

É evidente que a crise do país tem fortes repercussões no estamento militar e em suas famílias, e que o descontentamento e o inconformismo se espalham, tanto nos comandos intermediários como na cúpula militar.

Em 19 de junho, ao mesmo tempo em que efetuava mudanças na cúpula militar, um visivelmente desesperado Maduro anunciava que seu governo se resguardará com o uso da força. Em cadeia nacional, Maduro informou que “serão incorporados 40 mil jovens para a segurança cidadã, quadrantes de paz, a proteção do povo, alinhados com as necessidades do país”. A metade dos incorporados será destinada à Polícia Nacional Bolivariana e a outra, à Guarda Nacional Bolivariana, esta última, responsabilizada pela brutal repressão aos protestos contra o governo.

No domingo 16 de julho, outro fato grave marcou uma nova fase do conflito, deixando para trás a de um embate entre uma força opositora limitada e o governo, para outra em que os antagonistas são uma maioria da população e o governo escudado no uso da força.

Nesse dia, segundo a agência católica Zenit e vários outros órgãos midiáticos, entre eles a Rádio Vaticano, o cardeal Jorge Urosa Savino, arcebispo de Caracas e autoridade máxima da Igreja no país, foi sequestrado de fato pelos “coletivos de Maduro”, juntamente com um grupo de fieis, dentro de uma igreja da capital. Na ação, que durou algumas horas, uma mulher foi morta.

“Quando terminou a missa, vieram uns coletivos e dispararam, causando vários feridos, nas pessoas que se encontravam dentro da igreja”, disse o purpurado.

O evento ocorreu enquanto, em Roma, o papa Francisco dirigia “uma saudação especial à comunidade venezuelana na Itália, renovando a oração pelo vosso amado país”.

Ao mesmo tempo, realizava-se na Venezuela um plebiscito informal que apontou a insatisfação generalizada contra o governo de Maduro, no qual participaram mais de 7 milhões de pessoas, pouco mais da metade dos eleitores registrados pela Justiça Eleitoral. O resultado mostrou uma clara rejeição à tentativa de Maduro de convocar uma Assembleia Constituinte, para modificar a Carta Magna do país e eternizar-se no poder.

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