Síria: manobras para deter cooperação Rússia-EUA

N. dos E. – Esta nota foi publicada no boletim eletrônico Resenha Estratégica em 6 de abril de 2017, antes do ataque de mísseis contra a Síria ordenado pelo presidente Donald Trump.

Em diversas ocasiões, esta Resenha tem avaliado o conflito na Síria como um dos campos de batalha onde está sendo decidido o destino da “Nova Ordem Mundial” pós-1989, em especial, quanto à agenda geopolítica baseada na supremacia militar dos EUA e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e na manipulação do radicalismo islâmico e das “mudanças de regime” na desestabilização de países e governos considerados obstáculos a tais planos hegemônicos. Os acontecimentos das últimas semanas, envolvendo o país árabe, expõem com toda a clareza e crueza as maquinações dessa estrutura de poder global e as ferozes disputas intestinas travadas pelas suas diversas facções, em torno do melhor posicionamento em face das rápidas transformações em curso no cenário mundial.

O cerne do imbróglio é a possibilidade de uma cooperação efetiva entre os EUA e a Rússia, para colocar um fim no conflito de seis anos e neutralizar a ameaça representada pelo Estado Islâmico (EI) e os demais grupos jihadistas que têm incendiado o Oriente Médio e o Norte da África. Em março, o governo do presidente Donald Trump deu passos importantes para fazer avançar essa perspectiva.

Primeiro, com a inédita reunião do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Joseph Dunford Jr., com seus colegas da Rússia e da Turquia, em Antalya, Turquia, na qual, aparentemente, os chefes militares dos três países acertaram profissionalmente os ponteiros para evitar mal entendidos nas operações que as suas forças realizam na Síria (Resenha Estratégica, 09/03/2017).

Na realidade, um entendimento informal já vinha ocorrendo entre os comandos operacionais russo e estadunidense, desde que a aviação russa começou a operar na Síria, em 2015, tendo sido, aparentemente, ampliado após a chegada de Trump à Casa Branca. Uma evidência disto foi a participação da aviação estadunidense na ofensiva que culminou com a retomada da cidade histórica de Palmira, no início de março, por forças conjuntas do Exército Sírio, do Hizbollah libanês, aviação e comandos russos e milícias curdas (Washington Post, 02/03/2017).

Na esfera política, o sinal relevante foi a drástica mudança de posição quanto ao destino do presidente Bashar al-Assad, cuja saída do poder vinha sendo exigida por Washington e seus aliados desde o início do conflito, no início de 2011. Na semana passada, para surpresa dos seus aliados da OTAN, tanto o secretário de Estado Rex Tillerson, em visita à Turquia, como a embaixadora nas Nações Unidas, Nikki Haley, declararam que a prioridade estadunidense é a derrota do EI e que o futuro de Assad “será decidido pelo povo sírio” (CNN, 31/03/2017).

Em função dos significativos sucessos obtidos pelas forças militares sírias em todas as frentes, o entendimento entre as principais potências engajadas no conflito e a reorientação estadunidense sobre o destino de Assad passaram a oferecer, pela primeira vez em anos, uma perspectiva real para o fim dos combates.

A virada do mês, no entanto, traria uma amarga surpresa – ou melhor, duas.

Na segunda-feira 3 de abril, um homem-bomba se explodiu dentro de um trem do metrô de São Petersburgo, a segunda maior cidade russa, matando 13 pessoas e ferindo outras 49, muitas delas gravemente. O ataque, perpetrado quando o presidente Vladimir Putin estava na cidade, foi atribuído a um cidadão russo de 22 anos nascido no Quirguistão, Akbarzhou Dzhalilov, oriundo de uma família muçulmana laica e sem quaisquer antecedentes de violência, criminais ou de comportamento antissocial. Embora as investigações a seu respeito estejam no início, as suspeitas de que ele fosse algo mais que um “lobo solitário”, autorradicalizado e até então não detectado pelos serviços de segurança, não podem ser descartadas. Em uma irritada resposta sobre as interpretações da mídia ocidental quanto à possibilidade de o ataque ter sido uma resposta às ações russas na Síria, o chanceler Sergei Lavrov sugeriu algo diferente: “É tão cínico e vil de partes da mídia, sugerir que esse ataque terrorista foi uma vingança pelas ações da Rússia na Síria. Infelizmente, não é só a mídia que faz isso. No governo [do presidente Barack] Obama, nós ouvimos ideias similares de funcionários estadunidenses, dizendo que a Rússia deveria esperar pelos seus soldados com caixões novos, se ajudássemos Assad (Russia-Insider, 04/04/2017).”

Para bom entendedor, pingo é letra. Não seria a primeira nem a última vez que um ato de terrorismo dentro da Federação Russa teria os cordéis ocultos de uma ou mais agências de inteligência externas usando elementos locais.

Enquanto o mundo ainda acompanhava os desdobramentos do atentado, no dia seguinte, as atenções se voltaram para a notícia de um suposto ataque químico na cidade síria de Khan Sheikhoun, na província de Idlib, noroeste do país, com a morte de cerca de 80 pessoas e ferimentos em outras 200. Como a cidade é dominada por forças jihadistas da Frente Jabhat al-Sham (a antiga Frente al-Nusra), a responsabilidade foi imediatamente atribuída às forças sírias, com duros pronunciamentos da União Europeia e de vários governos, inclusive a Turquia e os EUA.

O próprio Trump afirmou que o ataque “não podia ser tolerado pelo mundo civilizado” e o atribuiu diretamente a Damasco e à indecisão de seu antecessor. “Essas ações hediondas do regime de Bashar al-Assad são uma consequência da fraqueza e da indecisão da administração anterior”, disse ele (Sputniknews, 05/04/2017).

Em outra declaração, ele afirmou que havia mudado de opinião sobre Assad, que, segundo ele, “cruzou várias linhas vermelhas”. Entretanto, não antecipou qual será a resposta de Washington (NPR, 05/04/2017).

Na ONU, a embaixadora Haley foi além, dividindo as responsabilidades com a Rússia e o Irã, embora sem elaborar os motivos. “A verdade é que a Rússia, o Irã e Assad não têm interesse na paz”, disparou ela. Além disto, ameaçou com uma ação unilateral dos EUA, caso o Conselho de Segurança das Nações Unidas não se decida a condenar o governo sírio, na reunião de emergência convocada pelos EUA, Reino Unido e França: “Quando as Nações Unidas falham, consistentemente, no seu dever de atuar coletivamente, há momentos na vida dos Estados em que somos compelidos a agir por conta própria (RT, 05/05/2017).”

Na mesma sessão, o representante russo, Vladimir Safronkov, criticou o projeto de resolução contra a Síria elaborado por aquelas potências, afirmando que ele “foi escrito às pressas e adotá-lo seria irresponsável”. O diplomata também criticou a falta de disposição de seus colegas no Conselho para investigar devidamente o caso, lembrando ocasiões anteriores em que o uso de armas químicas foi comprovadamente atribuído aos insurgentes.

Anteriormente, o Conselho recebeu um informe do Alto Representante para Assuntos de Desarmamento da ONU, Kim Won-soo, que admitiu que a organização não tinha qualquer evidência independente sobre o alegado ataque químico.

Tanto a Rússia como a China já ameaçaram vetar a resolução, se ela não for precedida por uma investigação criteriosa dos fatos.

Na pressa para a condenação de Damasco, três questões cruciais estão sendo deixadas de lado.

Primeiro, e mais importante: o que Assad ganharia com tal ataque, cujos maiores beneficiários em termos de propaganda seriam os jihadistas, principalmente, quando o governo sírio está ganhando a guerra, tanto no campo militar como no diplomático? Seria preciso uma estupidez superlativa para imaginar que um ataque do tipo contra civis proporcionaria algum ganho militar, e essa não é uma qualidade pela qual Assad seja conhecido. Ademais, é impensável que uma tal decisão pudesse ter sido ser tomada por um comandante local sem a aprovação da cúpula do governo.

Segundo, a Síria desativou todo o seu arsenal químico e o entregou à Organização para a Proscrição de Armas Químicas (OPAQ) das Nações Unidas, no período 2014-2016, em um acordo internacional intermediado pela Rússia, sintomaticamente, depois que Damasco foi acusada de lançar um ataque químico contra uma área controlada pelos rebeldes, em Ghouta, nos arredores da capital, em agosto de 2013. Na ocasião, os EUA já estavam preparados para desfechar ataques militares contra as forças sírias, recuando apenas depois que Damasco aceitou renunciar ao seu arsenal químico.

Vale registrar que o boletim de imprensa da OPAQ sobre o alegado ataque foi extremamente cauteloso, eximindo-se de responsabilizar quaisquer das partes (OPCW, 04/04/2017).

Terceiro, tanto em Ghouta como em vários outros casos, ficou comprovado que os ataques foram desfechados por jihadistas, que têm acesso aos materiais e equipamentos necessários para fabricar e disparar ogivas carregadas com gases tóxicos como o sarin. Em maio de 2013, três meses antes do ataque em Ghouta, a chefe da missão da ONU que investigava violações de direitos humanos na Síria, Carla del Ponte, afirmou ter evidências de que grupos insurgentes estavam fazendo uso de sarin. Em dezembro daquele ano, o jornalista investigativo Seymour Hersh publicou um artigo no London Review of Books, no qual revelou que a autora do ataque fora a Frente al-Nusra, grupo jihadista oriundo da rede Al-Qaida – e atual ocupante de Khan Sheikhoun.

Nesse contexto, não surpreende que as notícias do ataque em Idlib tenham sido transmitidas pelo Observatório Sírio de Direitos Humanos (SOHR, na sigla em inglês) e pelos White Helmets (Capacetes Brancos), ONGs vinculadas à oposição síria e com um notório currículo de manipulações de informações, sempre no sentido de responsabilizar as forças governamentais por quaisquer das incontáveis atrocidades ocorridas durante o conflito. Curiosamente, ambas são financiadas pelos governos dos EUA, Reino Unido e outros países europeus.

O SOHR, sediado em Coventry, Inglaterra, é aparentemente uma operação de um homem só, Abdul Rahman (também conhecido como Rami Abdulrahman ou Osama Suleiman), um exilado sírio que foi condenado três vezes em seu país por vários delitos e se gaba de ter uma “rede” de informantes na Síria. No sítio Signs of the Times, o editor Beau Christensen demonstra que Rahman/Abdulrahman/Suleiman é um agente a soldo da inteligência britânica (Sott.net, 23/09/2016).

Por sua vez, os White Helmets, apesar da sua cuidadosamente construída imagem de uma intimorata organização de socorristas (reforçada pelo documentário da Netflix que venceu o Oscar de 2017 da categoria), também não passa de uma frente da inteligência anglo-americana. Criada em 2014 por um ex-oficial do Exército britânico, a entidade tem um orçamento anual de 100 milhões de dólares, totalmente coberto por doações dos governos dos EUA, Reino Unido, Alemanha, Holanda, Dinamarca, Canadá, Japão e Nova Zelândia (todos integrantes da OTAN, com exceção do Japão e da Nova Zelândia).

A jornalista investigativa inglesa Vanessa Beeley, uma das poucas profissionais ocidentais que tem percorrido toda a Síria durante o conflito, não mede palavras para afirmar que os White Helmets não têm nada de organização humanitária. Em uma entrevista à rede RT, ela afirmou:

Essa organização é uma construção fraudulenta de ‘Estado das sombras’ criada pela OTAN, simplesmente, para propagar a propaganda que demoniza o governo de Assad e também a intervenção legal russa na Síria. Por todas as informações que temos recebido, eles atuam como um grupo de apoio aos terroristas, no sentido de trazer equipamentos, armas e até mesmo recursos financeiros para [os insurgentes na] a Síria. Eles dizem ser uma ONG imparcial e neutra. De fato, eles são multimilionários financiados pelos EUA, o Foreign Office britânico, Japão, Dinamarca, Alemanha, Holanda e França (RT, 25/10/2016).

Em uma entrevista coletiva, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, criticou o afã condenatório contra Damasco e o fato de que as únicas fontes de informações eram as duas ONGs. “Nem os White Helmets nem o SOHR são confiáveis. Eles têm repetidamente prejudicado a confiança, com filmagens falsas e informações que depois são negadas por todas as partes”, disse ela (Sputniknews, 04/04/2017).

Segundo Zakharova, em versão também divulgada pelo Ministério da Defesa russo, a explosão em Khan Sheikhoun teria resultado do ataque de um avião sírio a um depósito de armas químicas em poder dos insurgentes.

Outra possibilidade é a de um tradicional ataque “bandeira falsa” (false flag, no jargão de inteligência), que, desde os ataques de 11 de setembro de 2001, têm sido uma das táticas favoritas dos serviços de inteligência anglo-americanos, para justificar a sua agenda belicista, em especial, com a utilização de bodes expiatórios jihadistas.

As manifestações de indignação pelo alegado ataque denotam o grau de cinismo e hipocrisia dos governos e da mídia ocidentais, quando contrastadas com os escassos comentários dedicados ao ataque aéreo em Mossul, no Iraque, em 17 de março, que matou mais de 100 civis na cidade ocupada pelo EI, considerada pelo commando estadunidense como “um acidente de Guerra não intencional” (BBC, 28/03/2017). Para essas pobres “baixas colaterais” iraquianas, não houve discursos inflamados nem manifestações no Conselho de Segurança da ONU.

De qualquer maneira, o fato é que os setores mais empedernidos do “governo mundial” estão manobrando ardilosamente para reverter a situação na Síria, que parecia estar se desdobrando de forma desfavorável aos seus planos. O que significa que as próximas semanas poderão ser bastante tensas – e perigosas.

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