A Síria e a conversão “transgênero geopolítica” de Donald Trump

O presidente Donald Trump protagonizou a mais rápida reviravolta da história das relações exteriores dos EUA. Menos de uma semana depois de o seu governo anunciar que, no conflito na Síria, a prioridade estadunidense era a derrota do Estado Islâmico e que o destino do presidente Bashar al-Assad seria decidido pelo povo sírio, sem pedir autorização ao Congresso ou ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e pisando em todas as normas do Direito Internacional, ele ordenou um ataque com mísseis de cruzeiro à base aérea síria de al-Shayrat, de onde, alegadamente, teriam saído os aviões que desfecharam o ataque com armas químicas em Khan Sheikhoun, na província de Idlib, em 4 de abril (quase certamente, uma operação “bandeira falsa” desfechada para justificar o ataque subsequente). Embora os danos materiais não tenham sido grandes (apenas alguns poucos aviões e instalações foram destruídos e a base voltou a operar 12 horas depois), o ataque causou algumas mortes de militares e civis e, além de golpear duramente as relações estadunidenses com a Rússia, espalhou ondas de choque por todo o mundo.

Ao agir assim, em resposta às fortes pressões internas que vem sofrendo dos setores mais radicais do Establishment, para sabotar a sua pretendida aproximação com a Rússia (Resenha Estratégica, 05/04/2017), Trump personificou uma inusitada conversão “transgênero geopolítica”, incorporando a agenda belicista da sua ex-concorrente presidencial, Hillary Clinton, candidata favorita daqueles piromaníacos, em especial, os chamados “neoconservadores”. Previsivelmente, o júbilo destes círculos foi estrondoso.

Em um artigo publicado no tradicional porta-voz “neocon”, a revista The Weekly Standard (07/04/2017), um dos líderes do grupo, o ex-diplomata Elliott Abrams, participante ativo das operações clandestinas desse aparato desde o escândalo Irã-Contras da década de 1980, expôs sem rodeios o triunfalismo “excepcionalista” que impregna a sua casta:

(…) Pode-se dizer, verdadeiramente, que o governo Trump só começou agora. O presidente tem sido o executivo-chefe desde 20 de janeiro, mas, esta semana, ele agiu como comandante-em-chefe. E mais: finalmente, ele aceitou o papel de Líder do Mundo Livre. (…) De agora em diante, quando ele falar sobre as condições e exigências, interesses e desejos estadunidenses, se prestará mais atenção. Desde 8 de novembro, cada funcionário de cada governo estrangeiro tem tentado entendê-lo. Esta semana, ele lhes deu muita coisa para pensar. Ele assumiu o comando e emitiu ordens. (…)

Na rede CNN, até então uma das mais acirradas críticas de Trump na mídia estadunidense, o apresentador estrela Fareed Zakaria, que já o havia chamado de “artista de bobagens” (bullshit artist, no original), percutiu o mesmo bumbo: “Pela primeira vez, realmente, como presidente, ele falou sobre normas internacionais, regras internacionais, sobre o papel dos EUA em aplicar justiça no mundo (sic). Foi o tipo de retórica que esperamos dos presidentes estadunidenses desde Harry Truman (Infowars, 07/07/2017).”

A menção a Truman é emblemática do fato de ter sido o seu governo (1945-1953) que ensejou a formação da estrutura de “governo mundial”, centrada nas relações entre o aparelho de inteligência, o complexo industrial-militar, os carteis de matérias-primas e o sistema financeiro de Wall Street. Estrutura, hoje, colocada em xeque pela sua crescente disfuncionalidade e pela emergência do eixo eurasiático como novo centro de gravidade geoeconômico mundial, motivos que a levam a lutar desesperadamente para preservar a sua hegemonia.

Em Moscou, as lideranças russas identificaram prontamente a motivação do ataque. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Maria Zakharova, transmitiu a linha de que a agressão “não teve nada a ver com as tentativas de se estabelecer a verdade sobre o uso de armas químicas”. Segundo ela, “isso é, sem dúvida, parte da luta política interna das elites políticas, dos grupos político-militares que agora, de fato, lutam entre si até a morte” (RT, 08/04/2017).

Zakharova afirmou, também, que, na visita a Moscou marcada para 11-12 de abril, o secretário de Estado Rex Tillerson, o governo russo pretende “ressaltar, de forma absolutamente clara, que ações similares a essa são inadmissíveis para nós”.

O problema maior, disse ela, reside tanto na “ausência de uma estratégia de Washington no Oriente Médio e, concretamente, na Síria”, como na “ausência do próprio conceito de uma política exterior no novo governo”, devido ao fato de que “o Establishment político já leva seis meses lutando e não deixando agir a equipe de Trump”.

O comentário foi uma referência às ruidosas demissões dos dois principais indicados por Trump para o Conselho de Segurança Nacional, o general Michael Flynn, obrigado a renunciar com apenas três semanas na chefia do órgão, acusado de manter contatos com diplomatas russos, e o polêmico estrategista-chefe da campanha presidencial, Steve Bannon, cuja saída foi anunciada na véspera do ataque à Síria.

O Ministério da Defesa, por intermédio do major-general Igor Konashenkov, complementou a exposição do ataque, afirmando que ele fora planejado antes do incidente em Idlib:

É evidente que os ataques de mísseis de cruzeiro estadunidenses contra uma base aérea síria foram preparados muito antes dos acontecimentos de hoje. Para se preparar um ataque desses é preciso um enorme sistema de medidas de reconhecimento, planejamento, tarefas de preparação de voo e colocação dos mísseis em prontidão de lançamento (Sputniknews, 07/07/2017).

Nas palavras do oficial, “os governos dos EUA estão mudando, mas os métodos de deflagrar guerras têm sido os mesmos desde a Iugoslávia, o Iraque e a Líbia. E, novamente, o pretexto da agressão não é uma investigação objetiva, mas alegações, manipulação de fatos, balançar fotos e pseudotubos em organizações internacionais”.

Konashenkov se referia ao patético desempenho da embaixadora estadunidense nas Nações Unidas, Nikki Haley, que exibiu fotografias ampliadas de crianças vitimadas pelo ataque em Idlib, e à célebre performance do então secretário de Estado Colin Powell, no mesmo local, em 2003, balançando um frasco contendo uma suposta amostra de uma arma bacteriológica iraquiana, que depois se revelou ser apenas talco (oportunamente recordada pelo embaixador boliviano Sergio Sacha Llorenti, que mostrou aos colegas a célebre foto de Powell).

Em uma entrevista coletiva realizada após a sua reunião com seu colega italiano Sergio Mattarella, em Moscou, na terça-feira 11 de abril, o presidente Vladimir Putin não apenas confirmou que o ataque em Idlib foi uma operação forjada, como afirmou que Moscou espera outras ações semelhantes, com o objetivo de justificar uma escalada contra o governo de Bashar al-Assad: “Nós temos informações de diferentes fontes de que essas provocações – não posso chama-las de outra maneira – estão sendo preparadas em outras regiões da Síria, inclusive nos subúrbios do sul de Damasco, onde existem planos para se atirar alguma substância e acusar as autoridades oficiais sírias (Tass, 11/04/2017).”

As acusações russas foram confirmadas por jornalistas investigativos, ex-oficiais militares e de inteligência estadunidenses, vocalizando informações fornecidas por oficiais da ativa que discordam do furor belicista predominante em Washington.

No blog Sic Semper Tyrannis (07/04/2017), o bem informado coronel W. Patrick Lang, veterano do Vietnã e ex-oficial da inteligência e das forças especiais do Exército, resumiu assim o ocorrido:

1) Os russos informaram os EUA sobre o alvo proposto. Este é um processo que começou há mais de dois meses. Há uma linha telefônica exclusiva que está sendo usada para coordenar e desconflitar (isto é, evitar ativos aéreos estadunidenses e russos de atirar uns contra os outros) a operação planejada.

2) Os EUA foram plenamente informados do fato de que havia um alvo em Idlib, que os russos acreditavam ser um depósito de armas/explosivos dos rebeldes islâmicos.

3) A Força Aérea Síria atingiu o alvo com explosivos convencionais. Todos os envolvidos esperavam ver uma maciça explosão secundária. Isto não aconteceu. Em vez dela, fumaça, fumaça química, começou a sair do local. Ocorre que os rebeldes islâmicos usavam aquele local para armazenar produtos químicos, não sarin, que eram mortais. Os produtos incluíam fosfatos orgânicos e cloro e foram liberados com o vento e mataram civis.

4) Naquele dia, soprava um vento forte e a nuvem foi levada a um vilarejo próximo, causando baixas.

5) Nós sabemos que não era sarin. Como? Muito simples. Os assim chamados “primeiros respondentes” seguravam as vítimas sem luvas. Se fosse sarin, eles teriam morrido. Sarin na pele, mata. Como sei disto? Eu fiz o treinamento de “Agente Vivo” [Live Agent, no original] em Fort McClellan, no Alabama.

O relato de Lang, corroborado pelo ex-analista da CIA Ray McGovern (RT, 10/04/2017), o jornalista investigativo Robert Parry (Consortiumnews.com, 07/07/2017), entre outros, deixa em aberto a possibilidade de um vazamento deliberado de dentro do comando militar estadunidense, que poderia ter chegado por meios indiretos aos jihadistas de Khan Sheikhoun, dando-lhes condições de preparar a armadilha – trama que estaria longe de ser inusitada, no ambiente pós-11 de setembro de 2001.

Em qualquer circunstância, o novo cenário é extremamente perigoso, em grande medida, devido à personalidade imprevisível de Trump e sua mentalidade de jogador de cassino, tendo sido o blefe, os logros e a insensibilidade para com os demais jogadores (aí incluídos sócios, acionistas, clientes etc.), características recorrentes ao longo de toda a sua longa carreira empresarial, da qual a conquista da Casa Branca parece ter sido apenas a satisfação de uma ambição pessoal.

Ao ceder às pressões dos piromaníacos do Establishment, renegando as suas promessas de campanha, além de demonstrar que o “governo mundial” está no comando em Washington, Trump enterra as expectativas despertadas pela sua vitória sobre Hillary Clinton sobre a possibilidade de colocar os EUA no curso de uma política externa menos belicosa e confrontacionista. Não admira, pois, o grande desapontamento dos seus apoiadores (The Federalist, 11/04/2017).

Na edição anterior, divulgada apenas horas antes do ataque estadunidense, esta Resenha afirmou que as semanas seguintes poderiam ser bastante tensas e perigosas. Ao se transcorporificar na sua ex-rival, Trump alterou tanto o calendário como o tempo verbal: os dias e semanas seguintes serão muito tensos e perigosos.

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