A razia “verde” de Trump

O alerta máximo com que o aparato ambientalista aguardava a posse de Donald Trump se justificou antes mesmo de o novo presidente estadunidense ocupar o seu gabinete de trabalho na Casa Branca. Mal Trump encerrou o seu discurso de posse, na tradicional cerimônia ao ar livre que marca as passagens de poder em Washington, o sítio da Casa Branca foi atualizado para a retirada de todas as menções aos temas climáticos. A medida deu o tom da anunciada intenção de Trump de colocar rédeas no radicalismo “verde”, reiterada na reunião com representantes das maiores empresas automobilísticas estadunidenses, quando afirmou com todas as letras que “o ambientalismo está fora de controle” (Washington Post, 24/01/2017).

Posteriormente, a determinação foi estendida ao sítio da Agência de Proteção Ambiental (EPA), cujo enquadramento constitui uma das peças chave da estratégia do novo governo para aliviar o estrangulamento imposto pelo aparato ambientalista às atividades produtivas no país.

Enquanto isso, o novo chefe da agência, Scott Pruitt, suspendeu temporariamente todos os contratos e doações da agência até que seja feita uma reavaliação interna. Pruitt, um ex-procurador-geral de Oklahoma que se defrontou várias vezes com os excessos regulatórios da EPA, foi colocado no posto para acabar com o papel da agência como carro-chefe do ambientalismo no governo federal e reorientá-la para as funções precípuas de cuidar da qualidade da água e do ar.

Desde a sua criação, em 1971, a EPA tem atuado como uma importante correia transmissora de recursos federais para o aparato ambientalista, em especial, na forma de doações e verbas para pesquisas e trabalhos vinculados aos temas chave da agenda “verde”, tendo as questões climáticas recebido grande relevância, nas décadas recentes.

Sem dar aos “verdes” tempo para respirar, na terça-feira 24 de janeiro, Trump assinou duas ordens executivas autorizando a construção dos polêmicos oleodutos Keystone XL e Dakota Access, que havia sido bloqueada pelo governo de Barack Obama, em parte devido aos protestos dos ambientalistas.

E não parou por aí. Dois dias depois, o presidente assinou outra ordem executiva determinando uma redução geral de pelo menos 40% no financiamento estadunidense das organizações integrantes da Organização das Nações Unidas (ONU), o que deverá afetar, em particular, o comprometimento do governo anterior com o acordo climático de Paris, outra promessa de campanha de Trump. Sem o financiamento dos EUA, as perspectivas de que o acordo venha a ser plenamente implementado se tornam ínfimas.

Atordoados, os “verdes” mal conseguiram reagir. “Ele confirmou os nossos piores temores de que vai ser um presidente que equipara os lucros corporativos aos interesses públicos. E, ao mesmo tempo, está dobrando a aposta nessas tecnologias de energia suja do passado, que vão levar o nosso país exatamente na direção errada”, lamentou a diretora do Sierra Club, Lena Moffitt (NBC4, 24/01/2017).

Abigail Dillen, vice-presidente da Earthjustice, ameaçou com uma onda de processos judiciais: “Eu acho que esses ataques ao ar limpo, à água limpa e à proteção climática irão se mostrar muito impopulares, porque as pessoas podem reagir e elas vão reagir, e nós estaremos com ela nos tribunais.”

O Sierra Club, uma das mais antigas organizações ambientalistas do país e do mundo, já começou a organizar um dia nacional de protestos contra as iniciativas ambientais de Trump, em 29 de abril, véspera do dia em que ele completará os primeiros 100 dias no governo.

Será deveras interessante observar os desdobramentos da guinada ambiental do governo estadunidense sobre a agenda do aparato ambientalista internacional, com potencial para retirar desta última uma grande parte da sua indevida influência política nas políticas internas das nações de todo o mundo.

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