Perigosa escalada militar na Síria

O conflito na Síria aproxima-se de um momento decisivo, com grande perigo de uma escalada que provoque uma confrontação aberta entre as forças militares sírias e seus aliados e a coalizão internacional encabeçada pelos EUA, que, alegadamente, opera contra o Estado Islâmico (EI) a partir do Iraque e do Mediterrâneo.

A situação tem raízes no acirramento das disputas intestinas do Establishmentestadunidense, cuja facção mais belicista e incendiária está firmemente empenhada em bloquear qualquer avenida de entendimento entre o presidente Donald Trump e a Rússia. Assim, a atuação do secretário de Estado Rex Tillerson se assemelha aos movimentos erráticos de uma biruta de aeroporto, com posicionamentos que, ora parecem sinalizar uma convergência de posições com Moscou, ora sugerem a linha de confrontação favorecida pelos piromaníacos de Washington.

Por outro lado, Trump se empenha em uma pífia tentativa de acomodação com os “falcões”, recorrendo a manifestações duras e agressivas contra o Irã, a exemplo da provocativa declaração de Tillerson, de que a política para o país contempla uma “mudança de regime pacífica” em Teerã.

Nesse cenário belicoso, não se pode descartar a possibilidade de que o atentado a tiros perpetrado contra congressistas republicanos, em Alexandria, Virgínia, em 14 de junho, tenha sido uma “advertência” dirigida a Trump, para que se enquadre de vez na pauta dos piromaníacos do Deep State. O ataque, que resultou em ferimentos em seis pessoas (o deputado Steve Scalise foi ferido com gravidade e ainda encontra-se hospitalizado), foi perpetrado por James Hodgkinson, um raivoso fanático antirrepublicano de 66 anos, que morreu no tiroteio com agentes de segurança. Desde março, Hodgkinson, que tinha um histórico de problemas com a polícia e destilava o seu ódio contra Trump e o Partido Republicano em redes sociais, deixou sua esposa e sua casa em Illinois, a mais de 1.300 quilômetros de distância, e vinha vivendo em sua van, na Virgínia, sem atividade profissional conhecida. Conhecendo-se a tradição do núcleo radical do Establishment, de empregar tais elementos desajustados em atentados contra alvos políticos, não seria surpresa se este fosse mais um da longa lista de providenciais “loucos solitários” que têm marcado a história estadunidense.

Fazendo a sua parte no jogo, o Senado acaba de aprovar novas sanções contra cidadãos e empresas russos e iranianos (ironicamente, enquanto a Rússia mantém a venda de motores de foguetes e urânio enriquecido aos EUA e a Boeing fecha uma bilionária venda de aviões para o Irã).

Entrementes, no campo de batalha, os recentes sucessos do Exército Árabe Sírio (EAS; seu nome oficial) e seus aliados parecem estar levando o comando estadunidense da coalizão à beira de um ataque de nervos. As consequências são ações cada vez mais provocativas, as quais deixam claro que o seu objetivo na região não é combater o EI, mas debilitar o governo do presidente Bashar al-Assad e retalhar o território sírio, com a criação de um enclave curdo na fronteira com a Turquia e, eventualmente, manter áreas “liberadas” sob controle de certos grupos jihadistas que têm o beneplácito de Washington.

Em 9 de junho, uma força conjunta do EAS, Guarda Revolucionária Iraniana, milícias sírias e afegãs e o Hizbollah libanês, protagonizou uma façanha militar de primeira ordem, atravessando mais de 180 quilômetros de deserto em um único dia e atingindo a fronteira com o Iraque, pela primeira vez desde 2015, entre o rio Eufrates e a cidade de al-Tanf, convertida em praça forte das milícias curdas apoiadas pelos EUA. De forma significativa, o movimento foi coordenado com a milícia iraquiana Unidades de Mobilização Popular (UMP), que chegou simultaneamente à fronteira pelo lado iraquiano. A posição é estratégica, não só por cortar o acesso das milícias apoiadas pelos EUA ao Eufrates, como também por assegurar o controle da vital rodovia Bagdá-Damasco, facilitando o abastecimento das forças iranianas na Síria e do Hizbollah pelo Irã, que apoia o grupo libanês.

A contrariedade do comando estadunidense com a proximidade das forças sírias na área já havia sido agressivamente demonstrada em maio, quando um avião estadunidense atacou uma coluna que se aproximou do “perímetro de redução de conflito” em torno da cidadela, ilegalmente determinado pela coalizão, e no início de junho, com a derrubada de um drone iraniano.

Os ataques motivaram uma dura cobrança do chanceler russo Sergei Lavrov a Tillerson, mas, aparentemente, o Pentágono ignorou as conversas diplomáticas, pois, no domingo 18 de junho, um caça da Marinha derrubou um avião sírio Su-22, engajado em operações contra forças do EI na área (o piloto conseguiu ejetar-se em segurança, mas foi capturado pela milícia curda local).

Desta vez, a resposta russa não se limitou à diplomacia. Na segunda-feira 19, o Ministério da Defesa anunciou a suspensão do acordo de comunicações mútuas com o comando da coalizão internacional, estabelecido, precisamente, para evitar incidentes entre as duas forças, e advertiu que, a partir de agora, qualquer aeronave que penetre sem autorização no espaço aéreo sírio a oeste do rio Eufrates será considerada uma “ameaça” e tratada como tal. Como as Forças Aeroespaciais Russas operam na Síria com equipamentos no estado da arte, como os mísseis antiaéreos de longo alcance S-400 e caças Su-35, isso equivale ao estabelecimento de uma zona de exclusão aérea sobre grande parte do território sírio.

Por via das dúvidas, a coalizão reduziu bastante as operações aéreas e a US Navy relocou o grupo de ataque do porta-aviões George H.W. Bush, de onde partiu o caça que derrubou o Su-22 sírio, para o litoral da aliada Turquia. Resta ver se Ankara, que anda bastante irritada com a intenção estadunidense de estabelecer um enclave curdo no outro lado da sua fronteira com a Síria, irá facilitar os planos de Washington.

Em paralelo, também no dia 18, o Irã também fez um arrojado lance no tabuleiro do embate, ao disparar seis mísseis de longo alcance contra um posto de comando e controle do EI situado nas proximidades de Deir ez-Zor, cidade que resiste há dois anos ao cerco dos jihadistas. Os mísseis, disparados de bases no Irã, sobrevoaram o território do Iraque e demonstraram uma grande precisão ao atingir o alvo a quase 700 quilômetros de distância, causando dezenas de baixas e a destruição de várias instalações dos jihadistas, como observado por um drone. Segundo Teerã, o ataque, coordenado com o centro conjunto de operações russo-sírio-iraquiano-iraniano-libanês em Bagdá, foi uma retaliação pelos ataques terroristas assumidos pelo EI na capital iraniana, em 7 de junho, que deixaram 13 mortos e 43 feridos.

Entretanto, é evidente que a ação foi também um recado aos EUA, a Israel e à Arábia Saudita, deixando claro que todas as bases estadunidenses na região e os territórios israelense e saudita estão ao alcance direto das novas armas iranianas. Embora Teerã também disponha dos mísseis da série Shahab, com alcance superior a 1.000 km (mas cuja precisão é questionada por especialistas ocidentais), desde a guerra com o Iraque (1980-88), nunca havia empregado seus mísseis em combate real e a tais distâncias dos pontos de lançamento.

Em Israel, o premier Benjamin Netanyahu acusou o golpe e passou recibo imediato, afirmando: “Eu tenho uma mensagem para o Irã: não ameacem Israel (Times of Israel19/06/2017).”

De fato, os integrantes da coalizão anti-Irã têm motivos de contrariedade, pois o ataque demonstrou o nível de excelência da tecnologia de mísseis iraniana, reforçando consideravelmente a capacidade de Teerã de contra-arrestar as agressivas agendas dos seus opositores. Na ação, foram usados mísseis balísticos Zolfaqar e mísseis de cruzeiro Qiyam. O primeiro utiliza combustível sólido, tem um alcance de 700-750 km e uma ogiva com submunições que se espalham sobre o alvo, para ampliar o impacto. O segundo, de combustível líquido, atinge até 800 km e, como o anterior, tem uma precisão de impacto da ordem de 5-10 metros. Ambos podem ser disparados de caminhões, o que lhes confere uma grande mobilidade e facilidade de ocultação.

Como um adendo positivo, o Ministério da Defesa russo informou que um ataque aéreo realizado em 28 de maio, em uma localidade ao sul de Raqqa, eliminou dezenas de comandantes do EI, inclusive o autoproclamado “califa” al-Baghdadi, que desde então não deu qualquer sinal de vida.

Em suma, com todas essas peças no tabuleiro, às quais se acrescentam o imbróglio no Catar e a brutal guerra saudita contra o Iêmen, já no terceiro ano, os próximos dias e semanas prometem ser bastante tensos em todo o Oriente Médio.

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