Palocci, Dirceu e o poder real

A decisão da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), de soltar o ex-ministro José Dirceu, preso desde agosto de 2015 em Curitiba, como parte dos processos da Operação Lava Jato, proporciona uma aula prática sobre o modus operandi do núcleo duro do poder real no Brasil: o sistema financeiro, estreitamente apoiado pelas empresas de comunicação, em especial, as Organizações Globo.

Mais do que a uma disputa entre a força-tarefa de Curitiba e o STF, a soltura de Dirceu ocorreu no contexto da perspectiva de uma delação premiada do também ex-ministro Antonio Palocci, sugerida por ele em um depoimento ao juiz Sergio Moro, há duas semanas. Na ocasião, ele manifestou a intenção de tratar da “corrupção de empresas do sistema financeiro, como bancos, além de conglomerados que não integram grupos de empreiteiras (Folha de S. Paulo18/04/2017)”. Entre estes “conglomerados”, incluíam-se as empresas de comunicação, diretamente citadas no depoimento, que “tiveram sérios problemas nesse período [durante a sua gestão no Ministério da Fazenda], inclusive com algumas empresas declarando default nos seus compromissos externos”.

Segundo o jornalista Luiz Carlos Azenha, do sítio Viomundo (03/05/2017), era uma referência às Organizações Globo:

Pela época da qual tratava Palocci, pode se deduzir que ele falava da TV Globo, que enfrentou profunda crise quando o Brasil “quebrou” sob FHC, na passagem para o governo Lula. A Globo tinha imensa dívida em dólar e sofreu com a repentina desvalorização do real. Foi um dos motivos pelos quais a emissora fez uma armação nas ilhas Virgens Britânicas para não pagar impostos na compra dos direitos de transmissão da Copa do Mundo, esquema denunciado pela blogosfera que resultou em cobrança superior a R$ 615 milhões da Receita Federal à emissora. (…)

Um comentário da revista Época (do grupo Globo) reforça a avaliação, admitindo que “a delação de Palocci é a mais temida por petistas, banqueiros, deputados e outros grandes empresários (Época, 02/03/2017)”.

No entanto, a mesma nota informa que, após a decisão da soltura de Dirceu, os procuradores da força-tarefa da Lava Jato foram avisados de que Palocci suspendera a negociação para um acordo de delação premiada. Coincidência? Dificilmente.

Mais força e “eficiência” dos bancos

Outra demonstração desse centro de poder é o virtual sumiço do noticiário do escândalo envolvendo a compra de 40% do falido Banco Panamericano pela Caixa Econômica Federal (CEF), investigada pelo Ministério Público Federal (MPF), devido à ocultação de um rombo de cerca de R$ 4 bilhões no banco privado. Após as primeiras notícias divulgadas em meados de abril, pouco mais se ouviu a respeito, exceto que a direção da CEF está estudando a compra da fatia do banco BTG Pactual no banco que pertenceu ao Grupo Silvio Santos. Segundo fontes do mercado financeiro ouvidas pelo jornal O Estado de S. Paulo (27/04/2017), a compra seria feita com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) – o que, convenhamos, estaria um tanto afastado da função precípua do banco de fomento.

De forma emblemática, ao mesmo tempo em que Dirceu é solto e Palocci desiste da delação, os maiores bancos privados do País anunciam polpudos aumentos nos lucros trimestrais. O Itaú registrou 6,2% em relação ao trimestre anterior e 19,6% em relação ao mesmo trimestre do ano passado; o Bradesco, respectivamente, 6% e 13%; e o Santander, 14,7% e 37,3% (representando 26% dos lucros totais do banco em todo o mundo).

Nada mal, comparado ao índice de desemprego oficial de 13,7% e ao recuo de 1,8% da produção industrial, entre fevereiro e março.

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