O perigoso jogo da “russofobia”

A ferocidade das campanhas de desinformação e propaganda voltadas contra a Rússia e seu presidente, nos EUA e na Europa, coloca à luz do dia a agenda dos setores mais radicais do Establishment oligárquico do eixo Washington-Nova York-Londres-Bruxelas, quanto à sabotagem de qualquer esforço de entendimento entre Moscou e as potências ocidentais, aí incluída a suspensão das sanções econômicas e políticas em vigor contra a Rússia.

Na Europa, as atenções estão concentradas nas eleições presidenciais de abril, tendo os dois candidatos que apoiam uma reaproximação com a Rússia, Marine Le Pen, da Frente Nacional, e François Fillon, do Partido Republicano, sido alvos de campanhas de desestabilização política, por acusações pífias de corrupção e apologia do terrorismo – caso de Le Pen, que postou em sua conta no Twitter fotos de execuções de prisioneiros do Estado Islâmico.

Não por acaso, em uma entrevista à rede CBS, Le Pen não fez rodeios diante do âncora Anderson Cooper, destacando os pontos principais da agenda dos poderes interessados em bloquear o seu caminho ao Palácio do Eliseu. Primeiro, ao afirmar que a ideia de que a Rússia representa uma ameaça à Europa não passa de “uma grande farsa”. Quando seu interlocutor tentou argumentar com o clássico pretexto da “invasão da Crimeia”, ela contestou: “Vou lhe dizer qual é o perigo para a Europa. É lançar uma Guerra Fria contra a Rússia e atirar a Rússia nos braços da China. Esta é a ameaça para a Europa.”

Voltando à carga, Cooper perguntou se ela não considerava o presidente Vladimir Putin como “uma ameaça”. Sua resposta: “Não, eu não acredito nisso. Nada que Vladimir Putin tem feito me leva a essa conclusão.”

Sobre a globalização financeira, o outro pilar da estratégia oligárquica e alvo frequente das suas investidas, Le Pen afirmou que ela “se transformou numa ideologia sem quaisquer limites”, o que está “reintroduzindo as nações [os Estados nacionais] de volta ao debate”.

“Nações com fronteiras que controlamos, com pessoas às quais ouvimos, com economias reais, não economias de Wall Street, mas com fábricas e agricultores. E isto vai contra essa globalização desregulada e selvagem… uma catástrofe para a maioria”, disparou (RT, 06/03/2017).

As preocupações do Establishment se mostram num artigo da celebrada jornalista estadunidense Anne Applebaum, do Washington Post, reproduzido no brasileiro O Globo de 7 de março:

(…) Mas, na verdade, apenas uma questão realmente importa: é possível vencer, num importante país ocidental, o coquetel de medo, nacionalismo, nostalgia, ressentimento, uma política externa pró-Rússia e grande participação do Estado na economia — uma filosofia descrita como “extrema-direita” ou “populista”, que toma uma forma on-line particularmente virulenta e influenciou vitórias eleitorais recentes nos EUA e no Reino Unido? E se a resposta for “sim”, como?

Com Le Pen e Fillon sob o fogo da artilharia do Establishment, este aposta as suas fichas em Emmanuel Macron, um economista, ex-banqueiro de investimento e ex-ministro da Economia (governo François Hollande) de 39 anos, que fundou o partido Em Marcha! no ano passado, para disputar as eleições. De forma sintomática, Macron já acusou o governo russo de divulgar informações falsas a seu respeito e promover ataques cibernéticos contra a sua campanha, à semelhança das acusações feitas nos EUA contra os onipresentes “hackers russos” (Sputnik Brasil, 07/03/2017).

No momento, as pesquisas eleitorais apontam Macron como o provável vencedor das eleições, derrotando Le Pen em um segundo turno, que será disputado em maio.

Curiosamente, na Alemanha, onde haverá eleições gerais em setembro, a chanceler Angela Merkel, no cargo desde 2005, se mostra mais aberta aos ventos de reaproximação com Moscou, como demonstrou na recente Conferência de Segurança de Munique (Resenha Estratégica, 01/03/2017).

Entretanto, do outro lado do Atlântico, a “russofobia” prossegue em alta, com novos ataques contra um integrante do governo do presidente Donald Trump, desta feita, o procurador-geral Jeff Sessions, também acusado de “conversar” com o embaixador russo em Washington, Sergei Kislyak, antes da posse do presidente Donald Trump, a mesma que causou a renúncia do conselheiro de Segurança Nacional, general Michael Flynn. Apesar de beirarem o ridículo, trazendo à memória a histeria macarthista da década de 1950, tais atitudes deixam manifesto o elemento de insanidade que impregna aqueles altos círculos washingtonianos, em especial, o complexo industrial-militar-inteligência-financeiro, que necessita da “ameaça russa” como uma razão existencial.

Tal fator de insanidade não passou despercebido pelo economista e ex-subsecretário do Tesouro Paul Craig Roberts (governo Reagan), hoje um dos mais veementes opositores dos belicistas de Washington, como registrou em um artigo divulgado em 7 de março:

“Ao orquestrar a russofobia no Ocidente, Washington coloca em risco toda a humanidade. Os russos têm observado as falsas acusações de Washington contra o Afeganistão, Iraque, Síria, Somália, Líbia, Iêmen, Paquistão, Irã e contra a própria Rússia – “invasão da Ucrânia”. No século 21, falsas acusações sempre têm sido o pretexto de Washington para selecionar o país alvo para invasão ou bombardeio.

“Essas provocações divulgadas diariamente pela idiótica mídia ocidental, os idióticos governos e os idióticos comentaristas ocidentais, têm preparado o terreno para um erro de cálculo que pode resultar numa guerra termonuclear e no fim da vida na Terra.”

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