O governo Temer e a Nova República acabaram. Hora de preparar um projeto nacional de desenvolvimento e evolução civilizatória

N. dos E. – A propósito dos acontecimentos em curso no País, reproduzimos os dois primeiros parágrafos da Introdução e os dois primeiros do capítulo 7 do livro Uma nação desarmada (Capax Dei Editora, 2016), no qual oferecemos elementos para as discussões sobre a reconstrução nacional.

A eleição presidencial de outubro de 2014, que consagrou a vitória da presidente Dilma Rousseff para um segundo mandato, deflagrou uma das maiores crises políticas da história brasileira e, certamente, assinala o fim de uma era política no País, a chamada Nova República. De fato, não se trata tão-somente de uma crise do governo do Partido dos Trabalhadores (PT), mas de todo o arranjo político surgido após o fim do regime militar (1964-1985) e consolidado com a Constituição de 1988. Já em junho de 2013, as multitudinárias manifestações populares que sacudiram o País evidenciavam um sistema político prostrado e desenganado em uma UTI, resultante do abismo existente entre a classe política e a nação, a sociedade e a História. Independentemente das variadas motivações dos seus participantes, as manifestações que se seguiram a elas têm as mesmas causas.

Em uma imagem contundente, os escândalos de corrupção investigados na Operação Lava Jato expuseram as entranhas putrefatas do sistema político, metástase de um processo que vem de décadas, antecedendo os governos do PT. Em geral, trata-se de uma forma sofisticada e sistemática de lavagem de dinheiro por meio de aplicações nas campanhas eleitorais. Com ele, salvo honrosas exceções, as disputas políticas se converteram em um meio de assalto ao poder e preservação do mesmo a qualquer custo, à margem de qualquer ideal, princípio moral ou compromisso com o Bem Comum. Neste contexto, a expressão “governabilidade democrática” passou a significar uma repartição de fatias do Estado entre os vencedores dos pleitos eleitorais – um mero sinônimo de corrupção. Por isso, o que a nação enfrenta não é simplesmente o fracasso de um governo específico, mas um colapso da práxis política prevalecente. Em tal cenário, pouco importa quem seja o titular da Presidência da República, uma vez que o problema continuará existindo, enquanto não houver uma drástica mudança na moldura institucional, capaz de criar condições efetivas para o discernimento dos mecanismos do poder real pela cidadania e tornem imperativo o exercício do Bem Comum nas políticas públicas.

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É visível aos olhos de todos que o Brasil chegou a outra encruzilhada histórica, um ponto de inflexão que será determinante para o rumo do País nas próximas décadas – uma inflexão potencialmente análoga à experimentada na Independência, em 1822, na Abolição, em 1888, e na Revolução de 1930. Desta vez, porém, os brasileiros dispõem de condições que, apesar de longe das ideais, são incomparavelmente melhores que as vigentes naqueles momentos históricos, para deslanchar de vez um projeto de (re)construção nacional, capaz de elevar o País aos níveis civilizatórios permitidos pelo estágio atual de evolução da humanidade: abastecimento de alimentos e energia próximo da autossuficiência; população majoritariamente urbanizada; base econômica relativamente diversificada e sofisticada; força de trabalho capacitada para operá-la; “massa crítica” de profissionais e instituições (centros de pesquisa, empresas etc.) aptos a gerar os fluxos de inovações físicas e institucionais necessárias a uma economia do século XXI, crescentemente complexa e interdependente com o exterior.

Em outras palavras, é chegado o momento de os brasileiros decidirem, de uma vez por todas, o embate que se arrasta desde o século XIX, entre os que veem o Brasil apenas como um grande “balcão de negócios” e os que pretendem constituí-lo em uma Nação plenamente soberana, produtiva, socialmente justa, inclusiva e solidária, capaz de refletir institucionalmente os melhores aspectos do seu povo e, hoje, de aportar uma contribuição relevante para a construção de uma civilização global à altura das potencialidades do século XXI.

 

 

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