O “fator Gene Kranz” e o desafio nuclear

Em abril de 1970, no terceiro dia de sua viagem à Lua, a espaçonave Apollo 13 sofreu uma explosão que avariou seriamente o seu sistema elétrico, que não apenas obrigou o controle de missão a abortar o pouso no satélite, como também colocava em risco o retorno seguro de seus três tripulantes à Terra. Em uma tensa reunião de avaliação da situação, no centro de controle da missão, em Houston, o diretor de Operações da Agência Nacional de Aeronáutica e Espaço (NASA), Christopher Kraft, diante da dimensão dos problemas, afirmou que poderia estar se configurando o pior desastre da história da agência. Ao seu lado, o chefe de missão Eugene “Gene” Kranz replicou: “Com todo o respeito, senhor, eu acredito que este vai ser o nosso melhor momento.”

Três dias depois, acompanhados por um mundo em suspense, os astronautas desceram em segurança no oceano Pacífico, graças a um extraordinário trabalho de equipe desenvolvido entre eles e os técnicos do controle da missão, que superou os problemas causados pela pane, entre eles a filtragem do dióxido de carbono produzido pela respiração dos tripulantes. O sucesso se deveu a uma preparação exaustiva, capacidade técnica e de improvisação e, sobretudo, uma grande determinação de superar as dificuldades – requisitos fundamentais para todas as grandes empreitadas humanas.

A atitude de Kranz e seus colegas diante da adversidade pode servir como inspiração para o setor nuclear, em um momento em que a energia nuclear volta a atrair as atenções mundiais com um enfoque negativo, devido ao acidente na usina japonesa de Fukushima Daiichi.

Na Alemanha, país em que as reações foram mais acentuadas, beirando a histeria, centenas de milhares de pessoas têm participado de manifestações antinucleares e nem mesmo a concessão “politicamente correta” da chanceler Angela Merkel, suspendendo a extensão da vida operacional das usinas nucleares alemãs, impediu a vitória do Partido Verde nas eleições no estado de Baden-Würtemberg, governado há quase seis décadas pela União Democrata Cristã (CDU) de Merkel. Evidentemente, tal desfecho apenas reforça a percepção dos problemas políticos ensejados pela percepção pública sobre o tema, com reflexos quase inevitáveis nos países que têm programas nucleares em estágios diversos. Ao mesmo tempo, como seria previsível, o movimento ambientalista internacional já se apressa em tirar proveito da situação, para promover uma nova investida contra a energia nuclear, visando abortar o “renascimento” experimentado pelo setor nos últimos anos.

Diante desses fatos, os profissionais da área estão sendo instados a repensar e renovar os esforços de comunicação com o público em geral, sendo imprescindível o estabelecimento de uma estratégia de longo alcance para apresentar a energia nuclear como um fator crucial para o progresso humano. No Brasil, será particularmente útil a experiência obtida pelo setor com o bem sucedido esforço empreendido desde a década de 1990, que conseguiu neutralizar na prática a insidiosa campanha antinuclear do aparato ambientalista, capitaneada pelo Greenpeace (que foi forçado a fechar o seu escritório no Rio de Janeiro, dedicado especificamente à campanha).

Em especial, será preciso dar atenção à juventude, em função da maneira intrinsecamente negativa como a energia nuclear é apresentada nos livros-texto escolares, ao contrário do que ocorria até as décadas de 1960-70, quando as perspectivas dos seus usos pacíficos recebiam grande destaque. Trabalhos especiais junto a professores de Ciências, jornalistas científicos, estudantes e formadores de opinião em geral, como já tem sido feito, precisarão ser reenfocados e reforçados. A publicação de cartilhas específicas e livros de divulgação, a edição de vídeos, programas e toda sorte de recursos oferecidos pelos meios eletrônicos, terão que integrar esse esforço.

E não se trata apenas de uma questão de propaganda setorial. A superação do pessimismo cultural prevalecente nas últimas décadas, em particular, quanto às perspectivas de universalização de níveis de vida permitidos pelo conhecimento científico-tecnológico atual (do qual se alimentam o ambientalismo e as ideologias correlatas), não pode prescindir dos efeitos multiplicadores positivos oferecidos pela exploração da energia nuclear. Como área de fronteira do conhecimento, talvez apenas a exploração espacial rivalize com a energia nuclear na capacidade de instilar em um grande número de pessoas um sentido de futuro positivo e uma visão universal das atividades humanas. Por isso, os próprios profissionais do setor se beneficiarão grandemente de uma mobilização do gênero.

Acima de tudo, mais importante que os meios será a atitude. Os desafios do setor nuclear na era pós-Fukushima precisarão ser encarados sem pessimismo, mas com a necessária determinação, própria das lideranças que se mostram imprescindíveis em tempos críticos. Da histérica Alemanha, vem a útil advertência de um veterano estadista, o ex-chanceler Helmut Kohl (1982-98), mentor de Merkel na CDU, que, em um artigo publicado em 25 de março no jornal Bild, instou seus compatriotas a não “perder a visão da realidade”, devido ao desastre no Japão.

Segundo ele, “a lição do Japão para nós não pode ser a de dar o proverbial passo para trás. Até o momento, a lição do Japão tem que ser a que aceitamos o fato de que o que aconteceu é aterrorizante, mas, falando francamente, é também parte da vida. E, uma vez que os riscos são uma inevitável parte da vida, a prioridade da Alemanha deve ser a de tomar medidas de precaução e minimizar os riscos”.

Kohl acrescentou que o recuo no uso da energia nuclear “não ajudaria ninguém” e, ainda, “faria do mundo um lugar mais perigoso”, porque a respeitada capacidade técnica alemã não seria mais empregada para aprimorar os usos da energia nuclear.

Em 2000, Gene Kranz publicou as suas memórias, às quais deu o nome “O fracasso não é uma opção”. Embora nunca tenha proferido tal frase, que foi colocada em sua boca pelo diretor Ron Howard, no filme de 1995 Apollo 13, ela reflete a atitude geral dos integrantes do Projeto Apolo diante dos desafios de sua grande empreitada. É com o mesmo espírito que se deve encarar o novo desafio nuclear.

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