O esquartejamento do conhecimento brasileiro

Se ainda havia alguma dúvida sobre o nível de descaso do atual Governo com quaisquer consequências das suas ações, após o término do seu mandato, o novo corte no orçamento do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC) a dissipa totalmente.

Pelo orçamento aprovado pelo Congresso Nacional em 13 de dezembro, em 2018, foram destinados ao MCTIC algo em torno de R$ 4,7 bilhões, 25% a menos que o orçamento aprovado para este ano, que, por sua vez, sofreu um “contingenciamento” (eufemismo para corte adicional) de 44%. Na prática, isto significa que o orçamento efetivo para 2018 será de apenas 42% do de 2017, isto se os tecnocratas fazendários pró-rentistas que dominam a política econômica do Governo em favor do sistema financeiro não promoverem novos “contingenciamentos”, algo quase inevitável.

Com propriedade, entidades representativas da área, entre elas a Academia Brasileira de Ciências, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e outras, consideram a decisão como uma tragédia anunciada, somente possível em um País em que a sociedade parece encontrar-se anestesiada e incapaz de reagir de forma efetiva à dilapidação do aparelho do Estado e da capacidade de geração de conhecimento construída com tantas dificuldades, ao longo de décadas.

Para tornar ainda mais amargo o quadro, em 21 de dezembro, a imprensa estadunidense anunciou que a Boeing está em negociações para adquirir o controle acionário da Embraer. Apesar de ser uma empresa privada, o Governo detém uma ação estratégica (golden share), que lhe dá poder de veto sobre uma transferência de controle, e já se manifestou contrariamente à venda, embora não a uma associação estratégica entre as duas empresas. Resta aguardar os desdobramentos.

Uma vez mais, como vem demonstrando desde 1822, a casta dirigente do Brasil explicita a sua mentalidade colonizada e subalterna, incapaz de ver no País algo mais que um vasto “balcão de negócios”. Como se o quinto maior país do mundo em território e uma população (também a quinta do mundo) que têm demonstrado repetidamente a sua capacidade para grandes desafios do conhecimento – aproveitamento agrícola do Cerrado, exploração de petróleo em águas profundas, ciclo completo da energia nuclear, a própria Embraer e outros – tivesse que contentar-se em produzir soja em grãos e minério de ferro para exportação, importando todo o restante elenco de produtos e bens com conhecimento mais complexo agregado.

No Brasil deste triste final de 2017, nunca foi tão oportuna a observação de que a maior ameaça não é constituída pelos bárbaros às portas da cidade, mas pela presença dos bárbaros na cúpula do Estado.

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