O esgotamento do “excepcionalismo” que perdeu o encanto

Editorial do jornal “Solidariedade Ibero-americana”.

Nenhum país jamais chegou perto do atual poder militar dos EUA, com mais de 800 bases em mais de 70 países e frotas navais que operam em todos os oceanos do planeta. Em comparação, o Reino Unido, a França e a Rússia, juntos, têm 30 bases no exterior; a China, apenas uma.

Esse poderio é apoiado por uma estrutura de inteligência sem paralelo, com capacidade de interceptar de 80-90% das comunicações eletrônicas em todo o mundo, além de lançar ataques cibernéticos contra quase qualquer sistema de computadores ligado à Internet.

O custo de tal aparato bélico, que extrapola em muito quaisquer necessidades concebíveis de defesa nacional, supera os orçamentos militares de todos os demais países do mundo combinados.

Embora essa estrutura colossal tenha emergido após a II Guerra Mundial, com a consolidação do chamado complexo industrial-militar (ou de “segurança nacional”, como preferem alguns), o fato é que dos seus 239 anos de existência como nação independente, os EUA estiveram em guerras em nada menos que 222 deles, ou 93% do tempo. Provavelmente, nenhuma outra nação esteve envolvida em conflitos durante uma proporção tão grande da sua história.

Essa belicosidade extremada, que poucas vezes foi justificada por ataques externos reais, se explica pela persistência do “excepcionalismo” como ideologia de grande parte das suas elites dirigentes – a crença na superioridade intrínseca do homem anglo-saxão-protestante sobre os demais povos do planeta, motivada pelo determinismo calvinista trazido por muitos dos pioneiros da construção do país, posteriormente acrescido de uma interpretação radical do missionarismo pentecostalista. Correndo o risco da simplificação, a ideia pessoal de que o valor do indivíduo perante Deus é medido pelas suas conquistas materiais é extrapolada para as ações nacionais no grande palco mundial. Daí, a convicção de que a nação “no topo da colina” teria o direito e a responsabilidade de incutir nas demais os seus valores e impor-lhes os interesses dos seus grupos dirigentes.

A presente luta intestina no âmbito do Establishment oligárquico estadunidense, refletida no fustigamento contínuo do presidente Donald Trump, se trava entre facções que divergem apenas na forma de sustentar o impulso “excepcionalista”, diante do visível esgotamento da hegemonia desfrutada pelos EUA no período pós-Guerra Fria.

Apesar de não ser um insider do sistema de poder e de ter vencido a candidata preferencial deste, Hillary Clinton, Trump tem ao seu lado um grupo mais pragmático, mais interessado em negócios do que em guerras e favorável a um entendimento razoável com potências como a Rússia, China, Irã e outras – mas que não hesita em usar o poder militar, quando considera necessário. Aparentemente, esse grupo visa a uma transmutação da hegemonia estadunidense, de forma comparável à implementada pelas elites dirigentes britânicas, no início do século XX, diante das já visíveis limitações estruturais do Império Britânico, movimento que resultou na cooptação das suas contrapartes estadunidenses para a formação do Establishment anglo-americano, que adquiriria a sua forma atual após a II Guerra Mundial.

Já a facção mais radical e belicista, que inclui os notórios “neoconservadores”, tem na hegemonia imposta por meios militares a linha central da sua agenda e contempla apenas dois tipos de relações com outras nações: vassalagem ou confrontação.

Poucas vezes, essa visão do mundo foi tão bem sintetizada como no célebre questionamento da secretária de Estado Madeleine Albright, em 1990, ao então chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, general Colin Powell, diante das ponderações deste sobre as inconveniências de uma intervenção direta no conflito na Bósnia: “De que adianta ter essa soberba força militar de que você está sempre falando, se não podemos usá-la?”

No momento, o alvo principal da facção é a Rússia de Vladimir Putin, cada vez mais assertiva na defesa de seus interesses e aliados e, em parceria com a China, empenhada na construção de um novo espaço de cooperação internacional para o desenvolvimento compartilhado, com a integração físico-econômica da Eurásia. Não por acaso, Putin é um severo crítico do “excepcionalismo”, como explicitou no histórico artigo publicado no jornal New York Times, em 11 de setembro de 2013, no qual advertiu: “É extremamente perigoso incentivar as pessoas a se verem como excepcionais, independentemente da motivação. Existem países grandes e pequenos, ricos e pobres, uns com longas tradições democráticas e outros ainda buscando o seu caminho para a democracia. As suas políticas também diferem. Somos todos diferentes, mas quando pedimos as bênçãos de Deus, não devemos esquecer de que Deus nos criou iguais.”

Ultimamente, em relação à escalada rumo a um confronto generalizado, como o que os “falcões” estadunidenses parecem estar contemplando no Oriente Médio, Putin tem reiterado as advertências de que o único desfecho possível de uma tal conflagração seria catastrófico  para todos os envolvidos.

Nesse quadro, a Europa poderá dar uma contribuição decisiva para a virada da página “excepcionalista”. Para tanto, as suas elites dirigentes precisam admitir as consequências negativas do atrelamento à agenda hegemônica transatlântica, que esgota o seu impulso histórico com conflitos permanentes, migrações indesejáveis, baixo desempenho econômico, inquietações sociais e outras manifestações de inviabilidade política e civilizatória. E, por conseguinte, aceitar que o futuro da humanidade será melhor servido por uma nova orientação cooperativa e construtiva para o desenvolvimento conjunto, em termos como os ensaiados pela parceria eurasiática.

Como a História tem demonstrado que não é determinista, parece evidente que o mundo do século XXI não tem mais espaço para hegemonias, sejam quais forem as ideologias que as motivem. Por mais encantador que o “excepcionalismo” tenha sido para os adeptos dos valores estadunidenses, a dinâmica histórica não tem marcha-à-ré. Para os EUA e seus aliados, é hora de aceitar essa realidade – e que o mundo vive uma mudança de época, na qual a força bruta só encanta os bárbaros e os brutos.

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