O “custo verde” do apagão

O apagão de 19 de janeiro, que afetou onze estados e o Distrito Federal, tem sido explicado pelo governo como resultado de uma série de falhas técnicas na rede elétrica, levando à suspensão no fornecimento por até três horas, em alguns estados. 

O blecaute afetou as regiões Sul, Sudeste, Norte e Centro-Oeste, atingindo quase 4 milhões de residências, empresas e órgãos públicos, segundo a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee). Somente em São Paulo, a AES Eletropaulo fez um corte de 10% na distribuição de eletricidade na Região Metropolitana. Na zona rural de Cesário Lange (SP), a interrupção durou três horas, causando uma série de transtornos, inclusive a morte de 12 mil frangos, por falta de ventilação.

Em alguns lugares, a energia só retornou por volta das 18h00, mas a primeira explicação do Ministério de Minas e Energia só foi divulgada às 21h00. Entre as razões alegadas, uma falha em uma linha de transmissão que transporta energia do Norte e Nordeste para o Sudeste, além da elevação do consumo no horário de pico, provocando a queda da frequência elétrica, dos 60 Hz habituais para 59 Hz. O comunicado minimizou o impacto do aumento do consumo, na escaldante tarde de segunda-feira, mas informou que o sistema deverá receber um reforço de 1500 megawatts na geração, parte dos quais virá de uma termelétrica da Petrobras (Globo.com, 20/01/2015).

Posteriormente, anunciou-se a importação de eletricidade da Argentina e do Paraguai (via Itaipu), para ajudar a mitigar a emergência (O Globo, 21/01/2015).

O Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico (Ilumina) divulgou uma nota, questionando o tratamento do problema dado pelo governo e citando cinco aspectos que considera altamente preocupantes, que não foram explicitados até agora pelas autoridades responsáveis pelo sistema elétrico:

1. A capacidade de atendimento à ponta está comprometida pelo deplecionamento [esvaziamento] dos reservatórios. A diminuição da pressão sobre as turbinas fazem com que os geradores elétricos percam eficiência.

2. Essa situação faz com que a dependência de importação do norte se eleve na hora da ponta.

3. A situação dos reservatórios é função da crise hídrica e da trajetória da reserva adotada nos anos passados.

4. A queda de frequência é um aviso do sistema que não consegue manter a rotação dos geradores. É como um automóvel que não consegue subir uma ladeira e vai reduzindo a velocidade até parar.

5. Não há um plano seletivo de corte de carga. Os cortes realizados foram feitos em serviços essenciais, como o transporte público.

A nota afirma, ainda, que há um efetivo problema estrutural no sistema elétrico, caracterizado pelo déficit de suprimento do sistema. E observou que “não reconhecer as deficiências só piora a situação (Ilumina, 20/01/2015)”.

Em um gráfico reproduzido no jornal O Estado de S. Paulo de 22 de janeiro (ver abaixo), os especialistas do instituto mostram a extensão da vulnerabilidade do sistema elétrico nacional à seca que afeta o Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, demonstrando que, se não chover nada nas próximas semanas, a quantidade de água armazenada nos reservatórios das usinas hidrelétricas só daria para um mês de consumo.

Todo esse cenário – que, dificilmente, deixará de resultar em um novo racionamento de energia – carrega uma enorme contribuição do radicalismo ambientalista-indigenista que foi imposto ao País, nas últimas décadas, bem conhecido dos leitores do Alerta Científico e Ambiental. Evidentemente, o setor elétrico tem outros problemas estruturais, mas o seu visível subdimensionamento e a vulnerabilidade aos fenômenos climáticos não teriam a dimensão atual se sucessivos governos não tivessem se curvado às pressões do aparato ambientalista-indigenista internacional, em sua insidiosa campanha contra o desenvolvimento da infraestrutura física do País, que se assemelha a uma virtual guerra econômica permanente.

No setor energético, esse aparato intervencionista é diretamente responsável por: 1) atrasos, encarecimentos e até mesmo cancelamentos de numerosos projetos, principalmente, de usinas hidrelétricas; e 2) uma reorientação nos critérios de projeto das usinas hidrelétricas, reduzindo drasticamente os seus reservatórios, para privilegiar os chamados empreendimentos “a fio d’água” – com a consequente redução da capacidade de armazenamento de água, para fazer frente a secas prolongadas.

Os efeitos combinados desses dois fatores somente podem ser descritos como calamitosos – se não genuinamente criminosos.

A palavra “criminosos” não é aqui utilizada de forma meramente retórica. Em vários casos, tais redes apelaram para a sabotagem aberta de determinados projetos, com ações de vandalismo, como ocorreu nos canteiros de obras das hidrelétricas de Jirau, Belo Monte e São Domingos, entre outros.

Um caso emblemático é o da usina de Belo Monte, no rio Xingu (PA), que já deveria começar a produzir 233 MW este ano, em seis das suas 24 unidades geradoras, mas o início da operação foi adiado para fevereiro de 2016 (O Globo, 19/01/2015).

Segundo a operadora Norte Energia, as obras no sítio Pimental, onde fica a barragem que formará o maior reservatório da usina, com 370 km², cujo enchimento deveria ter início na próxima virada de ano, estão atrasadas em 441 dias. Além disto, foram perdidos 124 dias de trabalho, no sítio Belo Monte, em razão de invasões e bloqueios de grupos indígenas e organizações não-governamentais associadas aos canteiros de obras (AlertaCientífico e Ambiental, 7/08/2014).

A usina de Jirau, no rio Madeira (RO), tem atrasos que variam de seis meses a dois anos e 38 unidades já deveriam estar gerando energia, mas somente 22 estão em operação. A empresa Energia Sustentável do Brasil informa que os atrasos são consequência de motins e incêndios criminosos, que devastaram o canteiro de obras, em duas ocasiões, em 2011 e 2012.

Além das usinas, as linhas de transmissão também têm sido alvos dos radicais “verdes” e “defensores dos povos indígenas”. O comitê que acompanha a evolução do setor elétrico pediu urgência para a construção de duas linhas, a de Belo Monte e a de Teles Pires (divisa de Mato Grosso e Pará). Este último caso é exemplar, pois, embora a usina esteja com as suas obras dentro do cronograma e deve entrar em operação em abril, a linha de transmissão só deverá ficar pronta três meses depois (Globo.com, 19/01/2015).

Outro projeto com atraso é o Linhão Tucuruí-Manaus-Macapá, que deverá por fim ao “isolamento elétrico” da Região Norte, mas teve a interligação plena adiada, pois ainda não foram concluídas as obras nos receptores das capitais do Amazonas e do Amapá. No caso de Manaus, a previsão é para março deste ano, mas a previsão original era para o ano passado. Tanto a empresa Matrinchã Transmissora de Energia, responsável pela Teles Pires, como a Eletrobrás Amazonas Energia, controladora da Tucuruí-Manaus-Macapá, atribuem os atrasos às complexas – e desproporcionalmente dispendiosas – exigências do licenciamento ambiental.

O próprio Ministério de Minas e Energia reconhece os impactos negativos da legislação ambiental brasileira no andamento das obras de importância crucial para o setor elétrico, ao motivar interrupções determinadas pela Jstiça e pela demora na concessão de licenciamentos. “A legislação brasileira ela tem superposições nas diversas esferas do pacto federativo que muitas vezes dificultam o cumprimento dos prazos contratuais. Portanto, está em estudo nesse momento por parte do ministério, juntamente com o Palácio do Planalto, algumas propostas para que nós possamos otimizar isso”, afirma o ministro Eduardo Braga (Globo.com, 19/01/2015).

Segundo o especialista Adriano Pires, sem esses atrasos o quadro do setor energético brasileiro seria muito diferente: “Se tivesse as obras todas em dia e a hora, hoje, você teria uma situação mais confortável hoje. Se as usinas de Belo Monte, Teles Pires e Jirau estivessem funcionando a pleno vapor, certamente a questão da oferta ia aumentar e você teria o problema reduzido. O setor elétrico brasileiro passa pela maior crise da sua história. Qualquer atraso de obra, que significa aumentar a oferta de energia, compromete a tarifa. A tarifa vai ficar mais cara.”

Aí está, em sua plenitude, o custo da submissão nacional aos ditames do ambientalismo-indigenismo.

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