Não há limites ao crescimento

Schellnhuber-AFP

A recém divulgada encíclica do papa Francisco, Laudato si’ – sobre o cuidado da casa comum, apresenta diversas considerações relevantes sobre a crise verdadeiramente civilizatória enfrentada pela humanidade. Entre elas, quanto aos necessários cuidados com o meio ambiente, seu tema central, a noção da “necessidade imperiosa do humanismo, que faz apelo aos distintos saberes, incluindo o econômico, para uma visão mais integral e integradora. Hoje, a análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos, e da relação de cada pessoa consigo mesma, que gera um modo específico de se relacionar com os outros e com o meio ambiente (LS, 141)”.

Para tanto, evoluindo sobre o conceito de “ecologia humana” proposto por João Paulo II, propõe uma reflexão “sobre os diferentes elementos duma ecologia integral, que inclua claramente as dimensões humanas e sociais (LS, 137)”.

Em outra passagem, vincula corretamente a ideia ao Princípio do Bem Comum, inspirado na constituição pastoral Gaudium et Spes, promulgada em 1965, durante o Concílio Vaticano II: “A ecologia humana é inseparável da noção de bem comum, princípio este que desempenha um papel central e unificador na ética social. É ‘o conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição’ (LS, 156).”

Ademais, como já havia feito brilhantemente na exortação apostólica Evangelii Gaudium, publicada no ano passado, o Pontífice volta a colocar o dedo no centro da infecção anticivilizatória global, a financeirização descontrolada da economia: “A política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia. Pensando no bem comum, hoje precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente ao serviço da vida, especialmente da vida humana. A salvação dos bancos a todo o custo, fazendo pagar o preço à população, sem a firme decisão de rever e reformar o sistema inteiro, reafirma um domínio absoluto da finança que não tem futuro e só poderá gerar novas crises depois duma longa, custosa e aparente cura (LS, 189).”

Em essência, sugere que vivemos uma crise ensejada pela falta de grandes metas, valores e “uma compreensão humanista e rica de significado, capazes de conferir a cada sociedade uma orientação nobre e generosa (LS, 181)”.

Não é preciso ser católico, cristão ou crente para se concordar com tais afirmativas e propostas, as quais podem ser endossadas por quaisquer habitantes do planeta que procurem orientar as suas vidas por princípios éticos e estejam minimamente atentos aos desdobramentos da História recente.

As raízes da crise atual remontam à hegemonia política, econômica e cultural amealhada pelo sistema colonialista implementado, a partir do final do século XVII, por grupos oligárquicos anglo-holandeses, fundamentado na matriz religiosa da predestinação calvinista, origem do “excepcionalismo” adotado pelas oligarquias estadunidenses que herdariam tal impulso hegemônico, no século XX. No centro desse conjunto de valores, encontra-se um insidioso conceito de “limites” às possibilidades humanas, o qual se traduz na questionável ideia da escassez de recursos naturais e artificiais (como o dinheiro, que não passa de um meio de troca) necessários à obtenção de níveis de vida decentes por toda a população mundial. Toda a teoria econômica favorecida por essa corrente colonialista, difundida por centros como a Escola de Haileybury da Companhia Britânica das Índias Orientais, se baseia no conceito de escassez de recursos, a serem alocados da forma mais “eficiente” pelos agentes econômicos mais capazes. Não por acaso, um dos primeiros professores de Haileybury foi Thomas Malthus, com sua tese sobre o descompasso entre o crescimento populacional e a disponibilidade de recursos naturais.

Apesar de desqualificada pelos avanços científico-tecnológicos e a melhoria generalizada dos níveis de vida da população mundial, a ideologia malthusiana continua viva nos conceitos fundamentais do ambientalismo atual, como a chamada “capacidade de suporte” do planeta, que, supostamente, não suportaria a extensão dos níveis de vida médios das sociedades industrializadas do Hemisfério Norte a toda a população mundial. Para os ambientalistas, a solução para tal impasse seria obtida por uma redução das expectativas de desenvolvimento das nações menos desenvolvidas, do tamanho da população do planeta ou, melhor ainda, de ambos.

Todo o corpo doutrinário da Igreja Católica, desenvolvido a partir da encíclica Rerum Novarum, do papa Leão XIII (1891), tem embutido uma decidida oposição ao malthusianismo. Por isso, foi uma surpresa a constatação de que a nova encíclica de Francisco faz alguns perigosos acenos aos proponentes de tais teses, como as propostas de aceleração da “descarbonização” da matriz energética mundial, de um “decréscimo de consumo nalgumas partes do mundo” e até mesmo da imposição de “certos limites” ao desenvolvimento.

Ainda mais surpreendente foi a presença, no lançamento oficial da encíclica, ao lado do cardeal Peter Turkson, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz, do físico alemão Hans-Joachim Schellnhuber, um arquimalthusiano que é também um dos principais promotores da fraudulenta hipótese do aquecimento global supostamente causado pelo uso de combustíveis fósseis. Membro titular do Clube de Roma, o centro malthusiano por excelência, Schellnhuber já defendeu em público a tese de que a população máxima do planeta não deveria ultrapassar um bilhão de pessoas (nível atingido no início do século XIX). Além disso, é um ardente adepto de um “governo mundial”, com propostas para a criação de uma “Constituição da Terra”, um “Conselho Global” e um “Tribunal Planetário”, para enfrentar adequadamente o que considera a “ameaça” do aquecimento global.

Como se sabe, o Clube de Roma é uma das principais organizações oligárquicas encarregadas da disseminação do credo malthusiano e sua variante ambientalista, tendo sido o formulador da versão contemporânea da insidiosa mensagem dos “limites ao crescimento”, divulgada em uma série de relatórios publicados desde o início da década de 1970.

De forma sintomática, o boletim de imprensa do Clube de Roma sobre a encíclica afirmou: “O papa faz colocações que são indistinguíveis das que o Clube de Roma tem feito durante anos.”

Em realidade, a visão do mundo de tais elites oligárquicas, que considera tanto os seres humanos como a própria natureza meros objetos para a sua predação, é o que constitui a maior ameaça ao futuro da humanidade civilizada. Os avanços da ciência e da tecnologia, associados a ordenações políticas minimamente comprometidas com o bem comum, permitiram que a população mundial passasse de 1,6 bilhão, no início do século XX, para os atuais 7,3 bilhões de pessoas, ao mesmo tempo em que a expectativa de vida aumentava de 40 para 75 anos, e as condições materiais melhoravam significativamente em todo o mundo. Não há limites físicos para que todos os povos do planeta possam vir a desfrutar, em menos de duas gerações, de níveis de vida médios comparáveis aos dos atuais habitantes dos países industrializados. Os limites existem apenas nas mentes distorcidas dos seguidores do malthusianismo e em suas influências na formulação das políticas públicas, em um grande número de países.

É fundamental entender que o bem-estar geral da população está indissoluvelmente associado ao princípio de que não existem tais limites, exceto aqueles que a injustiça ou a ideologia associada a ela pretendem impor. O homem, como imagem viva de Deus, e a sociedade organizada em torno desta poderosa ideia-força judaico-cristã, têm a responsabilidade de cultivar os avanços e descobertas das leis do universo físico que possibilitem, por meio de uma economia solidária e justa, distribuir os seus benefícios à população em geral. Para citar o grande economista estadunidense Henry C. Carey (1793-1879), a grande tarefa do nosso tempo é “substituir o detestável sistema conhecido como malthusiano pelo verdadeiro cristianismo”.

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