Não é só a carne que é fraca

A bombástica entrevista na qual um grupo de delegados da Polícia Federal (PF) anunciou os resultados da Operação Carne Fraca, em 17 de março, é indicativa de algo que vai além da propensão ao estardalhaço midiático, que tem caracterizado as campanhas contra a corrupção política e empresarial no País, nos últimos anos. A maneira alarmista e inconsequente como foi anunciada, sem qualquer preocupação com os mais que previsíveis impactos negativos para o setor, em que o Brasil é líder mundial, deixa no ar algumas interrogantes relevantes.

Em primeiro lugar, ficou manifesta uma das múltiplas linhas de fratura existentes na caótica estrutura institucional, que tem vários dos seus braços atuando com agendas próprias, num grande afã de protagonismo e sem a liderança proporcionada por um governo forte e comprometido com os interesses maiores da nação. Em qualquer estrutura governamental sólida, de modo algum, funcionários de escalão intermediário, como os delegados da PF, tomariam tal iniciativa ou seriam autorizados a falar publicamente sobre uma operação de tamanho impacto potencial, sem o conhecimento prévio da cúpula hierárquica. Neste particular, o fato de não terem sofrido quaisquer sanções é sugestivo da entropia que caracteriza o atual governo.

Quaisquer que tenham sido as suas motivações, e sem prejuízo para as investigações e procedimentos legais necessários, o fato é que as desastrosas consequências da ação favorecem interesses comerciais dos EUA e de países europeus incomodados com a desenvoltura brasileira no setor. Ademais, qualquer abalo de monta na confiabilidade da produção nacional será bastante prejudicial para uma participação mais significativa no processo de integração econômico-física eurasiática, encabeçada pela China e, em menor escala, pela Rússia.

Nesse contexto, a ação da PF se assemelha à dos setores do Poder Judiciário e do Ministério Público que, nas últimas décadas, têm demonstrado uma questionável inclinação para atuar como forças auxiliares da agenda das estruturas de “governo mundial” que têm manipulado as questões ambientais e indígenas contra os interesses maiores da sociedade brasileira.

Uma forma de ação característica é o patrocínio de cursos e seminários sobre os temas relevantes da agenda, tanto no Brasil como no exterior, aos quais são encaminhados os candidatos mais promissores e receptíveis à temática proposta. Como se depreende da enorme quantidade de intervenções judiciais favoráveis às ações do aparato ambientalista-indigenista, nas últimas duas décadas, o investimento feito tem sido amplamente compensado.

Por outro lado, são incalculáveis os prejuízos, em termos de projetos de infraestrutura desnecessariamente retardados e encarecidos ou, simplesmente, cancelados, oportunidades econômicas não realizadas, encarecimento da produção e da logística, criminalização artificial de atividades produtivas e outros efeitos deletérios.

Em paralelo, os governos e fundações privadas dos EUA, Canadá, Reino Unido, Alemanha, Holanda, Noruega e outros países, têm aportado vultosos recursos a fundo perdido em ações governamentais e privadas vinculadas às políticas ambiental e indígena, sempre muito bem recebidos. Um exemplo característico é o conhecido Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais (PPG-7), pelo qual, entre 1992 e 2009, o Brasil recebeu 463 milhões de dólares para programas de conservação florestal, tendo sido um dos principais fatores de enquadramento do País na agenda “verde-indígena”.

Todo esse processo está atingindo um paroxismo, com a devastadora sequência de abalos desfechados contra setores estratégicos da economia nacional – engenharia, indústria de petróleo e gás, construção naval, indústria de defesa e, agora, a pecuária –, sem reação palpável por parte da cúpula do Estado e permitindo-se que sejam dilapidadas capacidades que levaram décadas para ser construídas, por conta de um combate à corrupção que se exime de separar pessoas físicas corruptas de pessoas jurídicas que representam os esforços conjuntos de milhões de brasileiros ao longo de décadas.

Voltando à Operação Carne Fraca, não estamos sozinhos na suspeita de “foul play”. Em uma dura nota divulgada em 20 de março, o presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino, depois de observar que as exportações agrícolas são controladas pelos grandes carteis multinacionais, assim se manifestou:

(…) No caso das proteínas animais, toda a cadeia produtiva, e também a formação de preços, é comandada por brasileiros, que chegam a controlar grandes plantas frigoríficas aqui e nos EUA, Austrália e Argentina. Isso dá aos grupos brasileiros invejável posição no comércio internacional, com marcas reconhecidas nacional e internacionalmente, relações comerciais de décadas e práticas, inclusive no abate, adequadas aos diversos mercados e até aos preceitos religiosos mais peculiares.
Por tudo isso, a operação desencadeada pela Polícia Federal na última sexta-feira, cujas fragilidades na apuração dos fatos começaram a surgir já no fim de semana, não pode ser qualificada apenas como temerária e irresponsável. Está claro que o ataque a grupos como JBS e BRF, nossos principais exportadores de carnes, não é acidental.
Insere-se na lógica do desmonte da Petrobrás e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e da fragilização das empresas de engenharia brasileiras, processo que, se não for revertido, nos levará de volta aos tempos de colônia. Pior que isso, contribuem para aumentar o contingente de quase 20 milhões de desempregados no país.

A reação do aparato ambientalista-indigenista, manifestada por intermédio do Greenpeace Brasil, foi bastante emblemática, tratando-se de um ativo integrante da agenda antinacional. Em 22 de março, a ONG divulgou uma nota na qual acusa o setor de produção de carne industrial nacional de ser “perigosamente falho”, sendo “rotineiramente envolvido com trabalho análogo ao escravo, desmatamento, uso intensivo de agrotóxicos, poluição do solo e da água, além de violentos conflitos com comunidades locais – ameaçando tanto a saúde das pessoas quanto do planeta”.

A diatribe afirma, ainda: “Muitas vezes, a atividade agropecuária acaba expandindo suas fronteiras para áreas de floresta e de Cerrado ainda preservadas. A produção de gado em escala industrial também gera uma enorme quantidade de resíduos e emissões de gases do efeito estufa que agravam o aquecimento global.”

Em síntese, os indícios sugerem que não é apenas a delinquência de alguns empresários e políticos a ela inclinados, que precisa ser devidamente investigada. Para que o País possa superar a grave crise em que foi mergulhado, será preciso uma decidida ação profilática contra essa agenda de ingerências externas, que tantos prejuízos tem causado aos brasileiros e suas expectativas de construção de uma Nação decente e compatível com as suas enormes potencialidades.

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