A mídia e a economia dos bem pensantes

André Araújo

Um famoso comentarista de rádio, no seu programa da Jovem Pan do último dia 6, repetiu o bordão dos comentaristas econômicos bem pensantes que predominam em toda a mídia tradicional. Repetiu o discurso falado à exaustão pelos Sardenbergs da grande imprensa, como ventríloquos da equipe econômica Meirelles and Friends: só há uma política econômica e esta, depois de implantada, fará os “investidores” correrem para aplicar no Brasil e aqui criarem milhões de empregos.

Repetiu também uma segunda tolice, “ah se vocês não aceitam o corte de gastos, então, vocês querem a política da Dilma?”. São pensamentos pedestres, destes que se jogam fora numa mesa de bar no happy hour, rasos, de elaboração e de atualização no pensamento econômico moderno:

1) O ajuste fiscal, do qual a PEC do corte de gastos é uma parte, por si só, não trará investimentos de volta. Aliás, de quais investimentos se fala? O que interessa ao Brasil é o investimento produtivo para gerar novos empregos, oportunidades e negócios e não o investimento puramente financeiro tipo “carry trade”, onde o investidor toma dólar a 1% ao ano em Nova York e aplica a juros reais de 7% ao ano em títulos da dívida pública brasileira. Isto requer análise da capacidade de pagamento do Tesouro emissor dos títulos da dívida. A operação é uma aposta de que o aplicador possa sair com seu lucro de diferença de taxas de juros, correndo o risco cambial e de solvência do Estado brasileiro. Esse é o premiado da política de ajuste e austeridade.

Já a análise das empresas produtivas tem outras bases, depende da capacidade de compra de seus bens e serviços pelo consumidor, o que não tem ligação direta com as finanças públicas e pode conviver com altos e baixos da situação fiscal.

Os dois maiores ciclos de novas multinacionais produtivas no Brasil foram os governos JK e Geisel, quando havia déficit fiscal e inflação alta. O Brasil sequer tinha reservas cambiais importantes, como tem hoje.

Então, o argumento do investimento estrangeiro ser atraído porque as finanças públicas estão ajustadas é falho. O investimento vem por outras razões, especialmente, em busca de mercados em crescimento.

Nenhuma grande multinacional produtora de bens e serviços investe em um país só porque este fez ajuste fiscal. O que puxa o investimento é a existência de procura para os bens e serviços que a empresa produz e este não tem vinculação direta com ajuste fiscal. Aliás, da forma como se pretende fazer no Brasil, o ajuste fiscal vai produzir mais recessão, menos renda e menos mercado em crescimento.

Multinacionais importantes chegaram ao Brasil, mesmo em tempos de crise cambial, quando havia dificuldade de remessa de lucros. Mas elas toleram essas restrições porque sua visão é de longo prazo.

Ao contrário do investidor financeiro, que é o grupo que Meirelles e Goldfajn querem agradar, que tem uma visão absolutamente míope do conjunto da economia.

2) Não há, em economia, essa dicotomia. Ou é gastança ou é recessão. Entre as duas situações, há um imenso campo de políticas inteligentes, onde se procura racionalizar os gastos públicos e há muito a racionalizar em terrenos que ninguém toca por medo de encontrar resistência, como os super-salários, as mordomias de todos os poderes, as triplas ou quádruplas aposentadorias, o absurdo seguro saúde do Congresso, que permite gastos ilimitados para deputados e seus parentes, os jatinhos da FAB para ministros voltarem para casa, quando deveriam ter a obrigação de morar em Brasília, com deslocamentos familiares por sua conta.

A “austeridade do exemplo”, a primeira coisa que se faz nos países ricos, no Brasil nem se pensa. Sem falar nisso, a PEC de corte de gastos é ficção, vai ser o corte do esparadrapo no ambulatório.

Podem-se racionalizar os gastos, mas também diminuir a taxa básica, controlar os juros dos bancos na ponta do tomador, porque temos um sistema bancário oligopolizado, não há concorrência. Pode-se combater a recessão na ponta do emprego, com grandes investimentos públicos em setores que ocupam muita mão de obra, como moradia e saneamento. Não há dinheiro? Claro que há, corte-se a Selic pela metade e aí já se têm R$ 300 bilhões de despesas de juros a menos para jogar na economia.

Existem fórmulas de combinações de medidas econômicas, que não se resumem à gastança da Dilma e à austeridade crua de Meirelles. A mídia econômica tradicional, toda ela, não faz esse debate, todos falam igualzinho, cópias carbono do Sardenberg, onde só há uma fórmula e nenhuma mais. Se assim fosse, Keynes não teria existido. Quando Lady Astor admoestou Keynes – “Mas o senhor sempre defendeu a santidade da moeda e hoje prega imprimir dinheiro para empregar milhões, nem que seja para carregar pedras de um lado para outro da estrada. Como o senhor renega o que pregava? O senhor mudou muito.” -, ele respondeu: “Minha senhora, eu não mudo, o que mudam são as circunstâncias.”

Economista que tem sempre a mesma receita é medíocre ou burro. A política econômica deve ser aquela que produz o menor sofrimento e custa menos à sociedade, não há virtude em ser austero porque só o sofrimento purga. Numa recessão, não interessa o combate à inflação, ao contrário, a inflação é uma das formas de sair da recessão.

O mesmo cronista no programa de sexta-feira, dia 7, falou outro equívoco: Hitler não foi eleito porque “a inflação estava nos cornos da lua”. A hiperinflação alemã, de 1923, foi completamente revertida em 1924, pelo Plano Schacht, do qual nosso Plano Real é cópia. Hitler foi eleito pela deflação, depressão e desemprego gestado na crise mundial de 1929 e aprofundada na Alemanha a partir de 1930, pelas políticas recessionistas do chanceler Heinrich Brüning, um economista ortodoxo, políticas essas que levaram o desemprego a 40%, foi isso que deu votos ao Partido Nazista, nada a ver com a inflação de 1923.

Portanto o mesmo comentarista, que costuma se informar bem quando fala de legislação e Direito, errou na sua pregação econômica. A fórmula de combater a recessão com mais recessão serve apenas para a turminha da Globonews. Para quem quiser saber o que pensam hoje os melhores economistas do mundo sobre política econômica pós crise de 2008, sugiro o excelente site do Instituto para o Novo Pensamento Econômico de Nova York, celeiro de Prêmios Nobel e de economistas top do planeta. Nesse instituto, Goldfajn e Meirelles não passam da porta, lá eles combatem exatamente essas receitas-padrão que pretendem punir pela recessão povos vistos pelo mercado como pouco virtuosos.

A doença da recessão se combate com estímulos e não com dieta da fome. Essa fórmula já era velha ao tempo de Keynes, hoje é como tratar pneumonia com sanguessuga, é o cumulo da estupidez.

O que cura a recessão é ocupar a capacidade ociosa na economia. Hoje, em alguns setores no Brasil, como cimento, há 65% de ociosidade e o Plano Meirelles-Goldfajn pretende aumentar a ociosidade para combater a inflação que já está baixa.

Inflação zero é a morte da economia na paz dos cemitérios!

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