México: Trump e os Sentimentos da Nação

Editorial do jornal Página Iberoamericana de janeiro de 2017

A surpreendente vitória de Donald Trump na eleição presidencial dos EUA e sua conduta histriônica e destemperada contra o México e seus cidadãos abre, ironicamente, uma ampla possibilidade de mobilização econômica e de unidade nacional. Para começar, é preciso entender as causas do fenômeno.

Primeiro, tenhamos em mente que Trump não criou a crise global em que o mundo submerge; ao contrário, seu caminho foi pavimentado pela própria dinâmica da crise: os excessos da globalização, o “livre comércio”, o desemprego e a redução de salários e direitos dos trabalhadores; o embate moral que engloba a chamada ideologia de gênero e a imposição dos valores multiculturais e do mal denominado casamento homossexual, do feminismo desorientado e da promoção do aborto; as falácias do “politicamente correto” e a ameaça de catástrofes ambientais convertidas em uma espécie de messianismo misantrópico radical de cunho malthusiano, dirigido contra populações e nações, com o generoso apoio da grande mídia de massas.

Igualmente, o eleitorado estadunidense demonstrou uma fadiga com as três décadas de guerras contínuas travadas pelo seu país, em especial, no Oriente Médio, que, em última instância, resultaram no surgimento do Estado Islâmico e na indução deliberada de migrações de massas, em um cenário digno de uma nova era de trevas.

Este é o dramático panorama que, definitivamente, marca o final de uma época da civilização. Não se trata apenas do fim da “Nova Ordem Mundial” implementada após a queda do Muro de Berlim, em 1989, nem tampouco de uma segunda Guerra Fria sem linhas de contenção mútua específicas entre as potências em conflito. As mudanças vão muito além disso. O que está em pauta é o declínio de uma potência hegemônica – os EUA – impossível de ser substituída, como ela própria substituiu o Império Britânico, à frente de um eixo de poder anglo-americano. E isto nos conduz ao cerne do problema: o fim inelutável de um período histórico definido pelo maniqueísmo calvinista, a predestinação e o “excepcionalismo”, características da era colonial iniciada no século XVII.

Ressalte-se que Trump é criatura da crise global, mas dista muito de ser uma solução viável para ela. O que pretende é reverter o declínio estadunidense com certas propostas econômicas relevantes e uma retórica agressiva, absolutamente insuficientes para retomar a grandeza do país, pelo menos na forma concebida por ele e os líderes pentecostais que o apoiam. A crise não será revertida sem a construção de um mundo cooperativo e multipolar, o que, todavia, requer personagens de maior estatura dignos de uma nova época histórica.

Em relação ao México, Trump não apresenta grandes novidades. O polêmico muro já existe em um terço da fronteira e, quanto à expulsão de imigrantes, resta ver se conseguirá superar seu antecessor Barack Obama, até agora o campeão de deportações. O que tem causado indignação entre os mexicanos é que, ao seu estilo truculento, ele está mostrando as grades do cativeiro ao qual o México tem se submetido nos últimos 23 anos, desde que o governo de Carlos Salinas de Gortari (1988-1994) pactuou o ingresso do país no famigerado Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA). Agora, o país se descobre indefeso e carente de um sistema financeiro e monetário nacional, ou seja, de um Estado sem o domínio dos instrumentos para o pleno exercício da sua soberania. E, ainda mais grave, descobre uma elite governante sem criatividade e credibilidade para encabeçar a força de convocação de uma imprescindível unidade nacional.

Por tudo isso, para o México, em sua própria especificidade histórica, abre-se uma nova época, à qual somente conseguirá arribar se corrigir os equívocos dos últimos 23 anos de um ilusionismo delirante, com suas promessas de acesso direto ao paraíso terrenal do Primeiro Mundo, bastando para isto que nos desfizéssemos dos nossos princípios nacionalistas e nos abríssemos às supostas maravilhas da globalização financeira. Igualmente, não basta querer recriar o sistema político emanado da Revolução de 1917 e da Reforma do século XIX. É preciso endireitar o tronco e replantar as raízes do nosso nascimento como nação independente, a partir dos Sentimentos da Nação, o documento fundador do México independente. Com tais valores, nos situamos, no cenário global, ao lado das demais nações ibero-americanas que compartilham as nossas raízes herdadas pela evangelização e a mestiçagem.

O México precisa reorientar-se para a Ibero-América, que, por sua vez, terá que organizar-se como um bloco minimamente coeso para intervir na reestruturação da ordem mundial. De outra forma, nenhum Estado nacional da região terá condições de enfrentar sozinho os desafios dessa missão histórica, assim como o México não terá a capacidade de defender-se dos embates do Norte, que se originam no repúdio aos nossos valores culturais e espirituais. De fato, trata-se de um repúdio ancestral por parte do “excepcionalismo” estadunidense, que reviveu no século passado com o insidioso ideólogo geopolítico Samuel Huntington, que dedicou a fase final de sua vida a alertar sobre os efeitos “contagiosos” da herança religiosa e cultural dos imigrantes hispânicos, especialmente, os mexicanos. Com a sua irada verborragia antimexicana, Trump não faz outra coisa senão render culto às ideias de Huntington.

Para tanto, é preciso restabelecer urgentemente os sistemas creditício e bancário nacionais, sem o que qualquer esforço de mobilização econômica não passará de um fútil voluntarismo patrioteiro. Nesta edição de Página Iberoamericana, nossos leitores encontrarão conceitos chave para cimentar um novo projeto nacional compatível com os nossos valores humanistas.

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