Macron, presidente virtual

O triunfo de Emmanuel Macron, no segundo turno das eleições presidenciais na França, tem sido estrondosamente saudado pelas forças do “globalismo” como uma vitória dos “valores europeus” sobre o retrógrado “populismo” de corte pró-fascista atribuído à sua adversária da Frente Nacional, Marine Le Pen. Como sintetizou a ex-candidata presidencial estadunidense, Hillary Clinton, em uma mensagem divulgada no Twitter, foi uma vitória “pela França, pela União Europeia e pelo mundo”.

Ou, na manchete do Financial Times londrino (09/05/2017), que deu o tom do alívio dos “globalistas” com a derrota de Le Pen: “Vitória de Macron proporciona à Europa uma prorrogação frente às forças do populismo.”

O simbolismo do significado da vitória do candidato do movimento Em Marcha! ficou evidenciado pela sua marcha triunfal, na esplanada do Louvre, ao som do hino oficial da União Europeia (UE). Apenas após o seu discurso da vitória, o presidente eleito Macron entoou o hino nacional, a Marselhesa, acompanhado pelos seus áulicos.

Entre parênteses, registre-se que o hino europeu é a Ode à alegria da Nona Sinfonia de Beethoven, oportunisticamente adotada pelos “eurocratas” de Bruxelas, já que o compositor era um fervoroso nacionalista alemão contrário ao absolutismo – hoje, alegoricamente representado nos ditames da agenda supranacional e tecnocrática da UE, cujo afastamento das aspirações e necessidades da maioria da população está na raiz dos crescentes questionamentos às políticas do bloco.

Talvez, ninguém tenha sintetizado melhor as expectativas colocadas em Macron pelos seus mentores do que a correspondente do jornal inglês The Guardian (08/05/2017), Natalie Nougayrède:

(…) Essa eleição foi, acima de tudo, o rechaço do que poderia ter sido – para a França, para a Europa e para o Ocidente em geral – um mergulho numa nova idade de trevas. (…) O discurso de vitória de Le Pen teria sido todo sobre o advento de uma “aliança europeia de nações livres e soberanas”, destinada a substituir a UE. E, logo em seguida, ela teria falado de uma retirada francesa das estruturas integradas da OTAN (que ela já havia chamado de “uma ameaça à independência nacional”), bem como uma reversão das sanções contra a Rússia.

A charge que acompanha o texto de Nougayrède (de Eva Bee, abaixo) é emblemática, transmitindo a impressão de que, no último domingo, os franceses elegeram o novo presidente da UE, e não do seu país.

Como observamos anteriormente neste sítio, longe de ser um “outsider” ou uma “novidade” alternativa à corrompida política partidária tradicional, Macron é um elemento cuidadosamente cultivado pelos altos círculos oligárquicos, em especial, a família Rothschild, para representar os seus interesses na arena política francesa e europeia, num momento em que as estruturas “globalistas” vêm sendo crescentemente questionadas no continente.

A campanha presidencial de Macron foi elaborada pela empresa de comunicação corporativa Steele & Holt, cujos principais clientes são a família Rothschild e a multinacional de seguros AXA. Esta última é presidida por Henri de La Croix, quinto duque de Castries e presidente do Grupo Bilderberg, do Instituto do Bósforo e do Instituto Montaigne, organizações que reúnem a nata do Establishment oligárquico transatlântico, turco e francês (Réseau Voltaire, 10/05/2017).

Como se sabe, Macron foi um dos sete representantes franceses que participou da reunião de 2014 do Grupo Bilderberg, quando ainda era secretário-geral adjunto da Presidência da República, no governo de François Hollande, cuja possibilidade de reeleição já era considerada nula. Logo depois, ele assumiria o Ministério da Economia, de onde saiu em 2016, para fundar o Em Marcha!.

Em essência, os franceses elegeram um presidente virtual, uma personalidade artificial criada pelo Establishment, que não esconde a sua inclinação favorável à agenda dos seus mentores e cujo triunfo foi construído, em grande medida, com o apoio de uma virulenta campanha de desmoralização dos seus dois principais adversários: o republicano François Fillon (cuja oposição às sanções contra a Rússia o tornavam indesejável aos olhos dos oligarcas) e Marine Le Pen, esta, alvo de uma campanha internacional de calúnias somente comparável à que tem como alvo o presidente russo Vladimir Putin.

Não obstante, pode ser que o alívio dos “globalistas” seja temporário.

Primeiro, a despeito da proporção aparentemente acachapante da votação de Macron, que amealhou 66% dos votos válidos contra 34% de Le Pen, o fato é que ele conquistou efetivamente menos de um quarto do eleitorado, considerando o índice de abstenções de 25% (o mais alto desde 1969), outros 10% de votos inválidos e os 43% de seus eleitores que afirmaram ter votado nele apenas para impedir uma vitória de Le Pen.

Ademais, o movimento – literalmente, virtual – de Macron não tem sequer um deputado para disputar as eleições parlamentares em junho, o que dificulta sobremaneira a perspectiva de que ele obtenha uma maioria para governar sem sobressaltos. Ao contrário, a Frente Nacional de Le Pen obteve a maior votação da sua história e deverá capitalizar este ganho, com uma já anunciada reconfiguração partidária que lhe possibilite se converter na principal força de oposição e afaste a imagem de radicalismo que tem acompanhado o partido. Por isso, o terceiro tempo das eleições deverá ser determinante para as possibilidades de governo de Macron.

Em síntese, pode ser que os problemas que o novo presidente deverá enfrentar já nos primeiros meses do seu mandato não sejam nada virtuais.

 

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