Kirill: “Temos que construir nova civilização global sobre consenso moral”

Francisco-e-Kirill-foto-CNS-Paul-Haring

A dimensão civilizatória da presente crise global, com ênfase nas provações por que passam as comunidades cristãs, especialmente no Oriente Médio, foi o fio condutor do histórico encontro entre o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, Kirill I (Cirilo), e o papa Francisco, ocorrida em Havana, Cuba, na sexta-feira 12 de fevereiro.

A reunião vinha sendo articulada desde o pontificado de Bento XVI, como esta Resenha noticiou em várias ocasiões (ver, por exemplo, as edições de 4/11/2009, 28/05/2010, 29/08/2012 e 18/12/2013). Em agosto de 2012, Kirill, cujo título oficial é o de patriarca de Moscou e de todas as Rússias, já havia protagonizado outro encontro histórico, ao reunir-se com o arcebispo Józef Michalik, presidente da Conferência Episcopal Polonesa, em Varsóvia, evento que, embora tenha passado quase despercebido pela mídia, se inseria no contexto da reaproximação entre as duas igrejas cristãs.

Apesar da renúncia de Joseph Ratzinger ao trono de Pedro, os entendimentos receberam um importante impulso com seu sucessor, o qual contou ainda com uma importante contribuição de bastidores do presidente russo Vladimir Putin, com quem Francisco já se reuniu pessoalmente e tem desenvolvido uma fundamental parceria estratégica implícita, no tocante aos conflitos no Oriente Médio. Por isso, o encontro de Havana significou importantes pontos políticos para o líder do Kremlin, em seu empenho para ajudar a apagar alguns dos incêndios que ameaçam o planeta.

Por conseguinte, o seu significado transcende em muito o fato de ter sido a primeira do gênero desde o cisma que separou as duas igrejas cristãs, em 1054, pois indica um estreitamento das posições de ambas em torno da defesa dos valores culturais ameaçados pela crise civilizatória global e das violentas perseguições que as populações cristãs têm sofrido em países islâmicos, como o Iraque, Síria e Egito, agravadas com a emergência do Estado Islâmico (EI).

De fato, a declaração conjunta dos dois líderes eclesiásticos, divulgada após a reunião, afirma, no seu item 7:

Determinados a realizar tudo o que seja necessário para superar as divergências históricas que herdámos, queremos unir os nossos esforços para testemunhar o Evangelho de Cristo e o património comum da Igreja do primeiro milénio, respondendo em conjunto aos desafios do mundo contemporâneo. Ortodoxos e católicos devem aprender a dar um testemunho concorde da verdade, em áreas onde isso seja possível e necessário. A civilização humana entrou num período de mudança epocal. A nossa consciência cristã e a nossa responsabilidade pastoral não nos permitem ficar inertes perante os desafios que requerem uma resposta comum.

Após o encontro, em uma igualmente inusitada entrevista à rede RT, Kirill reforçou esse entendimento, ao afirmar que a reunião com Francisco ajudará na reconstrução da civilização e na superação do terrorismo.

“Juntos, temos que tentar construir uma nova civilização global com base em um consenso moral. Creio que é possível e, neste sentido, minha reunião com o papa Francisco foi muito importante”, disse ele.

A propósito do terrorismo, o patriarca afirmou:

O terrorismo é, em primeiro lugar, um desafio filosófico. Devemos entender o que acontece com as pessoas que pegam em armas para ‘lutar por Deus’. Estou profundamente convencido de que o desdobramento da civilização humana, que, desgraçadamente, hoje em dia inclui a renúncia a Deus, à lei divina, à moral, é a força que provoca o surgimento do terrorismo.

Kirill disse ter estudado a forma de recrutamento de terroristas e está convencido de que

se utilizam umas ideias muito nobres. A motivação se dá assim: o mundo está submergido no mal, a civilização ocidental moderna é um mal, nela expulsam a Deus, o mundo se faz ímpio, satânico e só com a tua façanha podes contribuir para a vitória sobre o mal, e é teu dever religioso.

Na conversa com o jornalista Ed Schultz, o patriarca moscovita advertiu para o clima de confrontação entre os EUA e a Rússia, que, segundo ele, pode resultar em uma grande guerra, com potencial para devastar “o mundo inteiro”. Por isso, pediu um imediato melhoramento das relações entre as duas superpotências.

“Uma guerra em grande escala deve ser evitada a todo custo. Esta deve ser a prioridade número um para os estadunidenses, os russos e outros povos com uma perspectiva sensível sobre o que está acontecendo”, enfatizou (RT, 15/02/1016).

Para Kirill, a maioria dos estadunidenses “são cristãos que compartilham os mesmos valores e pertencem à mesma família cristã global” que os russos. Por isso, insistiu, as duas nações devem usar essa afinidade cultural “para construir pontes, em lugar de aprofundar as divisões”.

Como exemplo, ele recordou episódios do período da Guerra Fria, quando cristãos estadunidenses e soviéticos trabalhavam juntos “para um futuro melhor”. “Nós tivemos intensos contatos com a comunidade cristã dos EUA, inclusive visitas de delegações e conferências, em um esforço para trabalhar uma abordagem cristã concertada para os assuntos que dividiam os EUA e a União Soviética”. Hoje, disse, as comunidades cristãs dos dois países devem continuar tais esforços.

Falando sobre a crise no Oriente Médio, ele pediu que todos os países busquem por um fim nas guerras na Síria e no Iraque, bem como derrotar os grupos terroristas que infestam estes países. Segundo ele, a atual situação na região requer uma ação conjunta de todas as partes envolvidas, inclusive “a Rússia, os EUA, a Europa Ocidental e alguns países árabes). Quanto aos terroristas, enfatizou que eles deveriam ser derrotados por meios militares, já que “não se pode lidar com terroristas apenas com diálogo e exortações”.

Da mesma forma, Kirill enfatizou a importância de se proporcionar aos sírios e iraquianos “uma oportunidade de escolherem livremente o seu futuro, de modo que esses países possam viver em paz e que todos os grupos religiosos, cristãos e muçulmanos, possam viver lado a lado em paz”.

Antes mesmo de Bento XVI, o papa João Paulo II já dizia que as igrejas Católica e Ortodoxa representavam os pulmões ocidental e oriental do cristianismo. Sem dúvida, o encontro dos seus líderes, após uma separação de quase um milênio, tem potencial para se constituir em um ponto de inflexão na recomposição do debilitado organismo da civilização mundial.

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