Jovens brasileiros podem cair num “limbo irreversível”

A juventude brasileira corre o grave risco de um futuro sombrio, de trabalho informal, pobreza e falta de condições para mudar a realidade, diante dos desafios tecnológicos e sociais do século XXI.

A advertência, feita sem rodeios, é do economista Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, em uma entrevista ao jornal Valor Econômico de 16 de agosto, uma das mais importantes já publicadas na imprensa brasileira.

Segundo ele,

a fronteira de conhecimento da sociedade está avançando e estamos aquém dessa velocidade, e ainda com tamanha desigualdade, que faz com que fiquemos em uma situação de limbo. Nós já perdemos o bônus demográfico, temos um padrão de desigualdade gigantesco, o mundo está avançando em velocidade alta. A projeção para a juventude, em 2030, 2050, pode ser uma posição de limbo.

Esse limbo, afirma,

seria estrutural, talvez não reversível. Uma juventude fadada a estar no setor informal o tempo todo, salário baixo, sem capacidade de se inserir no mundo do trabalho futuro. Sabemos que o mundo do trabalho está em uma velocidade de se reprogramar muito alta e precisaremos de adultos capazes de se adaptar às múltiplas configurações que teremos nessa sociedade.

Para Henriques, o Brasil naturalizou a relação com a desigualdade social, desenhada na história do País desde o período da escravidão, e por isso reage muito pouco diante dos claros sintomas de uma “doença civilizatória”, como o que chama o “extermínio” da juventude, refletido nos 318 mil jovens assassinados entre 2005 e 2015, dos quais 71% negros.

“O Brasil tem extermínios em massa comparáveis a situações de guerra, em um Estado democrático. O fato de isso não gerar uma indignação radical na sociedade é muito forte. Tal qual é muito forte não se gerar uma indignação radical com os desempenhos que a gente tem nas avaliações educacionais. É uma sociedade que diz que a educação é importante, mas de forma objetiva, não é uma sociedade que reconhece o valor da educação, inclusive a elite não reconhece – a elite econômica, a elite do poder, não reconhece o valor da educação. É a visão da política social como acessória”, enfatiza.

Para ele, a reversão de tal quadro irá requerer uma equiparação das políticas econômicas e sociais e, acima de tudo, um projeto de Nação:

Não há política social transformadora sem uma política econômica comprometida com isso. Qual o sentido do ajuste fiscal? Arrumar a casa para viabilizar o projeto de sociedade que se quer construir no futuro. Mas em comparação a outros países, enunciar isso em 2017 no Brasil traz um desafio muito maior, porque criamos um padrão de desigualdade tão estrutural e naturalizamos a relação com essa desigualdade, que para projetar um futuro de uma sociedade produtiva com equidade e inclusão eu preciso de um modelo muito forte, com algumas rupturas. Mas se eu não fizer esse acordo e houver o ‘grupo da educação’ e o ‘grupo do fiscal’, achando que são distintos e que há uma nobreza no grupo do fiscal maior que no da educação, a gente não muda esse processo.”

Henriques também fulminou os cortes orçamentários lineares feitos pelo governo: “Cortar tudo por igual sem visão estratégica é um erro estrutural do ajuste, não sinaliza qual o projeto que há para o País.”

Na verdade, sinaliza sim – para a perpetuação do projeto rentista.

Comentários

comments

x

Check Also

A lição amarga da dívida pública grega

Sete anos após o início dos resgates financeiros, a Grécia parece estar pior do que ...