José Bonifácio e o projeto nacional brasileiro (Parte 2)

Parte 2: Os anos de formação

José Bonifácio de Andrada e Silva nasceu em 13 de junho de 1763, em Santos (SP), então, uma vila com 2 mil habitantes, treze ruas e um porto pouco frequentado. Foi o segundo dos nove filhos do português Bonifácio José de Andrada e da brasileira Maria Bárbara da Silva. O terceiro, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva (1773-1845), e o quarto, Martim Francisco Ribeiro de Andrada (1775-1844), viriam a compor com ele um trio decisivo para a história brasileira.

Comerciante e cobrador de impostos, Bonifácio José era um dos homens mais ricos da cidade e, como havia acontecido com os seus próprios irmãos, tratou de preparar os filhos mais velhos para o destino tradicional dos rebentos da elite brasileira da época, a Universidade de Coimbra (ao contrário da América Espanhola, onde já havia 19 delas, o Brasil não tinha uma única universidade). Assim, José Bonifácio recebeu a educação básica em casa e, aos 14 anos, foi enviado para São Paulo, onde seu tio Tobias Ribeiro de Andrada era tesoureiro da Catedral da Sé. Ali, teria como professores os padres mais cultos da cidade e acesso à biblioteca da Cúria, a mais importante de toda a capitania paulista.

Em 1783, tendo completado a preparação, viajou para Portugal, matriculando-se no curso de Direito da Universidade de Coimbra. Na época, a universidade encontrava-se sob o efeito das reformas promovidas pela administração do Marquês de Pombal (Sebastião José de Carvalho e Melo, 1750-1777), empenhado em retirar o Império Português do marasmo em que se encontrava atolado desde o século XVI. Em especial, foram promovidas mudanças curriculares, com a criação de cursos de Filosofia e Matemática, visando à formação de mentes científicas e não apenas bacharelescas e literárias, aptas a arejar as bolorentas estruturas do Estado lusitano.

Aproveitando ao máximo as oportunidades oferecidas pela universidade, José Bonifácio matriculou-se também em Filosofia e Matemática, enquanto mergulhava a fundo na leitura dos filósofos do Iluminismo, dos grandes pioneiros da Ciência e dos clássicos da literatura ocidental. Além dos estudos, já demonstrava preocupação com a situação do Brasil, defendendo a incorporação dos índios à sociedade civilizada, a extinção do tráfico de escravos e a abolição da escravidão. Igualmente, como relata Otávio Tarquínio de Souza, sonhava com uma grande biblioteca e uma tipografia em cada capitania brasileira, onde “as ciências e as letras estavam por terra e só interessava vender açúcar, café, algodão, arroz, tabaco”.

Apesar das reformas iniciadas por Pombal, o ambiente intelectual da universidade ainda padecia da inércia de mais de dois séculos de estagnação. Em parceria com o futuro médico português Francisco de Melo Franco, o irrequieto santista escreveu uma sátira a respeito, intitulada “O reino da estupidez”.

Em junho de 1787, diplomou-se em Direito e, um ano depois, em Filosofia. Após a dupla formatura, preparou-se para um concurso para a magistratura, no qual foi aprovado em julho de 1789.

Por outro lado, a sua efervescência intelectual e a palavra solta o colocaram na mira da Inquisição, uma das instituições responsáveis pelo atraso intelectual lusitano, que havia recuperado a influência perdida na gestão pombalina (e só desapareceria em pleno século XIX, em 1821). Ainda em 1789, há o registro de um inquérito aberto contra ele pelo Santo Ofício, após a denúncia de um colega que o teria ouvido questionar a existência de Deus.

Até então, nada sugeria que a sua trajetória seria muito diferente da dos pouco mais de 2 mil brasileiros que o haviam precedido em Coimbra, desde o final do século XVI.

Não obstante, antes mesmo do concurso, a sua inclinação para as Ciências havia chamado a atenção do Duque de Lafões, fundador e presidente da Academia de Ciências de Lisboa. Por convite deste, em março de 1789, José Bonifácio ingressava na Academia como sócio livre.

João Carlos de Bragança (1719-1806), segundo Duque de Lafões, foi um dos personagens mais extraordinários da história portuguesa. Destinado à carreira eclesiástica, chegou a matricular-se em Coimbra para estudar Direito Canônico, mas não completou o curso. Na corte, destacava-se pela vasta cultura, capacidade de falar línguas estrangeiras, interesse pelas ciências e artes e habilidade nas artes militares, mas tanto as qualidades como o temperamento difícil lhe criaram não poucos antagonismos entre a acomodada nobreza lusitana.

Em 1755, destacou-se no resgate às vítimas do terremoto que devastou Lisboa, salvando várias pessoas nos escombros da cidade.

Em 1757, viajou à Inglaterra e à Áustria, numa missão secreta até hoje não devidamente esclarecida. Fixando residência em Londres, foi admitido na Royal Society, uma das mais prestigiosas sociedades científicas da época. No entanto, após a morte de seu irmão mais velho, o primeiro Duque de Lafões, em 1761, divergências com o rei Dom José I e seu poderoso ministro Pombal impediram o seu retorno a Portugal.

Com a Guerra dos Sete Anos em andamento (1756-1763), alistou-se como oficial no exército austríaco, que acabou derrotado no conflito que opôs a Áustria à Prússia, com os respectivos aliados. Ainda impossibilitado de retornar ao seu país, passou os 15 anos seguintes em longas viagens pela Europa e o Oriente Médio. Apenas em 1778, após as mortes de Dom José I e de Pombal, pode, finalmente, voltar a Portugal.

A vasta bagagem adquirida nos 21 anos de ausência lhe deu a dimensão exata do enorme atraso português em relação às nações mais avançadas da Europa. Com o intuito de reverter tal quadro, em 1779, fundou a Academia de Ciências de Lisboa, por ironia, tirando proveito do impulso reformista iniciado por Pombal na universidade. Na Academia, tornou-se protetor de talentos como José Bonifácio.

Nesse ambiente, o brasileiro travou contato direto com as mentes mais arejadas de Portugal, além de ter feito amigos para a vida. Entre estes, destaque para Dom Rodrigo de Sousa Coutinho, genro de Pombal e futuro Conde de Linhares, oito anos mais velho, mas que o tratava com grande deferência. “Tornamo-nos amigos à primeira vista”, diria mais tarde o brasileiro.

Seu primeiro trabalho não tardou: a “Memória sobre a pesca das baleias e extração do seu azeite, com algumas reflexões a respeito das nossas pescarias”, publicada em 1790, nas Memórias econômicas da Academia. A qualidade do trabalho aumentou ainda mais o seu conceito junto aos líderes da Academia, que propuseram o seu nome para receber uma bolsa para estudos no exterior, de Mineralogia, Química e técnicas correlatas.

Em fevereiro de 1790, a bolsa lhe foi concedida, sendo ele um dos três únicos agraciados naquele ano. Os outros foram o brasileiro Manuel Ferreira da Câmara Béthencourt e Sá, o futuro Intendente Câmara, e o português Joaquim Pedro Fragoso de Sequeira, que viriam a ocupar importantes cargos na administração de minas em Portugal e no Brasil – assim como José Bonifácio, entre os muitos que desempenharia, nos dois países.

Alguns biógrafos sugerem que, além da reconhecida capacidade de José Bonifácio, também teria influído na decisão do Duque de Lafões, de enviá-lo ao exterior, a intenção de afastá-lo do braço pesado do Santo Ofício, que continuava a importuná-lo.

O roteiro estabelecido para os bolsistas previa, inicialmente, estudos na França e Saxônia, além de viagens técnicas às minas da Boêmia, Hungria, Rússia, Suécia, Noruega, Escócia, Gales e Espanha. Embora não tenha sido cumprido à risca, empenharia José Bonifácio pelos dez anos seguintes (Câmara e Sequeira voltariam antes, em 1798).

Antes de viajar, José Bonifácio casou-se com a irlandesa Narcisa O’Leary, uma órfã que vivia desde pequena em Lisboa, com a tia. Da união, nasceram as filhas Carlota Emília e Gabriela Frederica; ele também teve uma filha fora do casamento, Narcisa Emília, que trouxe para o Brasil.

Iniciada em junho de 1790, a jornada começou por Paris, então em meio às turbulências da Revolução de 1789. Na Escola Real de Minas, concluiu em menos de um ano o curso de Química e Mineralogia de Antoine François de Fourcroy, um dos maiores cientistas europeus. Ao final do curso, apresentou um trabalho intitulado “Memórias sobre os diamantes do Brasil”, que foi publicado pela Sociedade de História Natural de Paris e causou grande impressão, valendo-lhe a admissão na sociedade e o reconhecimento pelos altos círculos científicos franceses. Ali, conviveu com os químicos Lavoisier e Chaptal, o mineralogista Haüy, o botânico Jussieu e outros de idêntico quilate.

Além do aprendizado científico, a estada em Paris proporcionou a José Bonifácio um importante curso prático de política. Como vários outros cientistas, Fourcroy e Jussieu tinham vínculos estreitos com a liderança revolucionária francesa, sendo ambos amigos de Robespierre, embora adeptos de uma monarquia constitucional e opositores do regime republicano, visão partilhada por José Bonifácio.

Em 1791, ele e seus colegas viajaram para a Saxônia, onde se matricularam na célebre Escola de Minas de Freiberg, dirigida por Abraham Gottlob Werner, um dos grandes pioneiros da Geologia. Ali, além de absorver os conhecimentos de ponta na área, teve a oportunidade de visitar as numerosas minas e indústrias metalúrgicas da região, as mais avançadas da Europa.

Em Freiberg, José Bonifácio teve como colegas e tornou-se amigo de personagens que viriam a tornar-se alguns dos maiores cientistas do seu tempo, como os irmãos Wilhelm e Alexander von Humboldt, o também alemão Leopold von Buch e o hispano-mexicano Manuel Andrés del Río.

Da mesma forma, pode também constatar o grande atraso de Coimbra, em relação aos outros centros de ensino europeus, apesar das reformas de Pombal.

Concluído o curso, em 1794, voltou brevemente a Paris – que, então, atravessava o tenebroso período do Terror – e, dali, viajou à Itália, Áustria e Hungria, para visitar minas e fábricas.

Entre 1796 e 1798, esteve baseado na Suécia, de onde viajou várias vezes à Noruega, visitando as principais minas dos dois países. Neste período, descobriu quatro novas espécies e oito variedades de minerais. Em 1868, uma variedade de granada (silicato de cálcio e ferro) descoberta na Noruega foi batizada como andradita, em sua homenagem.

Em 1798, retornou a Freiberg, para conferenciar e trocar conhecimentos com seus antigos mestres, permanecendo até o ano seguinte, quando se dirigiu à Dinamarca. Em Copenhague, foi-lhe oferecido um cargo como mineralogista, mas ele não aceitou, devido ao compromisso com o governo português.

Em setembro de 1800, aos 37 anos, finalmente, retornou a Lisboa, como um dos súditos mais qualificados do Império Português. Como destaca Jorge Caldeira, era um cientista reconhecido por seus pares de toda a Europa, membro das principais sociedades científicas da época, um poliglota que falava e escrevia em seis idiomas e entendia outros cinco, detinha vastos conhecimentos de mineração e metalurgia, era familiarizado com problemas administrativos e havia presenciado uma revolução que estava mudando o mundo.

Em Lisboa, reencontrou os irmãos Antônio Carlos e Martim Francisco, também graduados em Coimbra, o primeiro, em Direito e Filosofia e o segundo, em Filosofia, ambos trabalhando para o governo. Igualmente, reencontrou seus amigos da Academia de Ciências de Lisboa, inclusive, Sousa Coutinho, então ministro da Marinha e Ultramar, que, prontamente, engajou José Bonifácio em seus planos reformadores contra a inércia da Lusitânia. (Continua.)

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