Informe especial: Foro de Guadalajara 2014

Elisabeth Hellenbroich e Silvia Palacios

Guadalajara foi a sede da segunda edição do Foro de Guadalajara, realizado entre os dias 20 e 22 de outubro. Ali reuniram-se dirigentes sindicais, políticos e intelectuais representantes de diversos países ibero-americanos, bem como da Europa e da Rússia, para discutir o tema geral “As bases para uma nova ordem mundial justa: a política como forma superior de caridade”.

O evento foi patrocinado pelo Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIa), a Capax Dei Editora, a Federación Revolucionaria de Obreros y Campesinos do Estado de Jalisco (FROC-CROC) e a Central de Sindicatos Brasileiros (CSB).

Assim como ocorreu na primeira edição do Foro, em outubro de 2012, o encontro fraternal proporcionou uma intensa troca de ideias sobre os temas que configuram a crise global, de modo a formular princípios que atendam às demandas colocadas pela população mundial: a vigência do Estado nacional soberano, recuperando as suas origens cristãs; economia e infraestrutura; o mundo do trabalho; a pessoa e a dignidade humana; a emigração; uma estética que realce a beleza da alma, em contraposição à “anticultura” vigente.

Na sessão inaugural, estiveram presentes personalidades políticas e acadêmicas do estado de Jalisco, como o ex-governador Daniel Cosio Vidauri, e o secretário de Trabalho de Jalisco, Eduardo Almaguer Ramírez, representando o governador Jorge Aristóteles Sandoval. Em sua mensagem, reconheceu a dedicação dos dirigentes sindicais da FROC-CROC, Antonio Álvarez Esparza e Joaquín Álvarez Esparza, pelo seu “extraordinário esforço empreendido para que, desde Guadalajara, Jalisco e México, possam emergir propostas regionais para fazer o nosso mundo ser mais viável. (…) As soluções neste mundo global devem vir das regiões, e não de Wall Street ou de alguma potência europeia ou asiática”.

Por sua vez, Antonio Álvarez Esparza replicou que “a política hoje deve se basear em uma visão cristã, uma ideia que pode ser compartilhada também com o povo do Brasil, da Argentina e da Europa”. Ele destacou que as políticas públicas devem ser conduzidas de acordo com o Bem Comum dos cidadãos e concluiu: “Estou seguro de que as conclusões deste tão importante foro internacional de Guadalajara terão um efeito no mundo globalizado, assim como nos povos do nosso continente.”

O discurso de abertura dos trabalhos foi realizado por Lorenzo Carrasco, coordenador geral do Foro. “A justiça e o Bem Comum são os princípios essenciais encarnados na Doutrina Social da Igreja”, afirmou. “Vivemos em um tempo de mudanças, mas a deplorável condição da economia mundial e a profunda crise cultural fazem com que a civilização sofra. Nesse contexto, a sociedade nega a dignidade do homem. É por isso que se deve reabilitar a política, para que se possa transcender a uma ordem superior, que é a da caridade. A imagem escolhida para a conferência [uma fotografia de um menino que dorme dentro de uma caixa de papelão, para se proteger – n.e.] é a realidade de milhões de pessoas na era da globalização financeira”, disse ele.

Carrasco descreveu os grandes problemas geopolíticos contemporâneos: a crise econômica internacional, a crise de saúde, representada pela nova epidemia do vírus Ebola, e a investida do terrorista Estado Islâmico, junto com as operações militares contra o grupo: “Esta guerra está sendo conduzida sem a legítima autoridade das Nações Unidas. A guerra justa requer justiça; necessitamos de uma autoridade legítima, não apenas de um exército para bombardeios. Este tipo de ataques não resolverá nada. Qual é a autoridade legítima? É necessária a autoridade do Conselho de Segurança das Nações Unidas. O resultado desta aventura bélica mal executada contra o EI é gerar maiores danos ao Oriente Médio e a destruição de nações. Daí a necessidade de construir uma nova ordem mundial, e o imperativo de mudar a nossa concepção sobre a práxis dos assuntos mais importantes da política.”

Além disso, ele destacou a exigência de refletir em torno da noção de estados nacionais soberanos, com a profundidade com que foram concebidos por São Tomás de Aquino e pelo rei francês Luís XI [ambos no século XIII]. “Uma nova ordem mundial, baseada em uma aliança de estados soberanos tem que reafirmar a dignidade do homem. Isto significa que cada pessoa tem direito ao trabalho. De acordo com a noção de caridade do cristianismo, temos que promover a aproximação fraternal entre as nações, para construir um mundo de economia pautada no Bem Comum.”

A solução aos problemas do mundo não pode estar na esfera dos maniqueístas, nem da predestinação calvinista, ressaltou Carrasco.

Cardeal Iñiguez: “Tudo na sociedade deve ser feito para o homem”

Os presentes, independentemente de credo ou convicções políticas, se identificaram com as palavras pronunciadas pelo cardeal emérito de Guadalajara, Juan Sandoval Iñiguez. Em sua intervenção, ele fez um reconhecimento do compromisso do papa Francisco com os “excluídos” do mundo. Neste sentido, destacou que, depois de conhecer a exortação apostólica A Alegria do Evangelho, do Pontífice, de quem é amigo, lhe disse: “Os comunistas não gostavam de João Paulo II. Tenha cuidado com os capitalistas.”

Retomando o tema da conferência, o cardeal lembrou que a noção de caridade é baseada na visão de que “o homem é criado à imagem de Deus”. Tudo na sociedade deve ser feito “para o homem”, afirmou. Hoje, para alguns, o dinheiro é mais importante que o homem. A sociedade não pode estabelecer-se sobre a perspectiva maniqueísta ou calvinista, que veem a riqueza pessoal como a manifestação da “predestinação” de Deus, afirmando que os ricos são “eleitos de Deus” – manifesta na ideologia do “excepcionalismo” estadunidense.

Para o cardeal, a sociedade, ao contrário, deve ter por base a reafirmação do Cristianismo e dos seus valores: “O homem é dignificado pelo seu trabalho.” Ele se referiu à recente carta apostólica do papa e à sua forte crítica à ganância do capital e à especulação: “O homem não pode ser sacrificado no altar da ganância do capital (…), a sua dignidade é de primeira importância e o trabalho deve ser concebido como uma vocação.”

Iñiguez sublinhou ainda que, entre os principais desafios da sociedade contemporânea, está a luta contra a pobreza e a corrupção: “Necessitamos uma nova ordem que reafirme os princípios do bem comum e do papel da família como o maior elemento da sociedade.”

Em resposta a um comentário anterior de Carrasco sobre o determinismo calvinista, Iñiguez enfatizou que, efetivamente, o calvinismo que é seguido nos Estados Unidos tem como princípio a predestinação: “No Destino Manifesto, os escolhidos são eles, que acreditam que podem tomar todo o necessário do continente, como o petróleo e outras coisas. Buscam uma nova ordem baseada em guerras, para estabelecer um governo mundial. Nesta, há que se destruir a família, o Estado nacional e a Igreja Católica.”

Caridade significa solidariedade concreta

A política como uma forma superior de caridade foi o tema recorrente de vários conferencistas. No painel inicial, o secretário geral da CROC, Antonio Álvarez Esparza, descreveu que as específicas “estruturas do pecado” na política, como a ganância e a luta incansável pelo poder, se converteram em expressões do “imperialismo moderno”.

A forma para mudar essas estruturas de pecado é o estabelecimento da política com base na solidariedade, o que significa ser solidário com os pobres, a defesa do princípio de igualdade dos povos e fazer com que a solidariedade fortaleça o caminho para a paz e o desenvolvimento. “A solidariedade corresponde à caridade”, afirmou Esparza.

Para ilustrar o significado mais concreto dessa “caridade”, ele se referiu ao jesuíta polonês Maximilian Kolbe, que, prisioneiro no campo de concentração de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial, ofereceu a sua própria vida, em um grande gesto de caridade, para morrer no lugar de um pai de família polonês que tinha vários filhos e, desta forma, ajudou-o a sobreviver. O princípio da solidariedade universal e a “opção do pobre”, de acordo com Esparza, demanda concretamente a reforma do sistema monetário mundial, assim como a reforma do comércio internacional.

A dignidade do trabalho no centro de uma nova ordem mundial justa

Um dos pontos altos do Foro foi a consolidação do Fórum Sindical Brasil-México, iniciado em setembro de 2013, no Rio de Janeiro (RJ). Compareceram ao evento mais de duas dezenas de dirigentes sindicais da CSB e da mexicana FROC-CROC, para discutir assuntos comuns, como o neoliberalismo e os trabalhadores, flexibilização das legislações trabalhistas e ações sindicais.

Os trabalhos foram conduzidos por Lorenzo Carrasco, o ex-senador italiano Gian Guido Folloni e o padre José de Jesús Pérez, diretor da Pastoral do Trabalho de Jalisco. No início, foi lida a mensagem enviada ao Foro por Dom Roberto Francisco Ferreira Paz, bispo de Campos, Brasil.

O senador Folloni destacou alguns aspectos chave das encíclicas sociais que têm início em 1891, com a Rerum Novarum do papa Leão XIII. Na ocasião, disse, a encíclica foi a resposta aos problemas que os trabalhadores industriais enfrentavam, submetidos a uma miséria generalizada, utilizada para justificar a ideologia marxista de luta de classes. A encíclica, ao mesmo tempo, repele o marxismo e confirma o direito do homem a um trabalho que seja manifestação da dignidade humana, como o direito do homem à propriedade privada.

Por sua vez, Pérez refletiu também sobre a noção da dignidade do homem. O trabalho é fundamental para compreender o profundo significado do homem, criado à imagem de Deus, e ao qual é dada a missão de “crescer, multiplicar e submeter a terra”, afirmou. Nos tempos em que a idolatria pelo dinheiro e poder substituíram o homem, deve-se por especial atenção nos jovens e realizar esforços para dar-lhes uma educação decente e uma vida familiar saudável.

Nesse sentido, ele destacou que o papa Francisco tem exigido, desde o início do seu pontificado, que a Igreja e a sociedade saiam de sua comodidade e busquem os mais pobres, para falar com eles e empreender ações para organizar uma nova ética do trabalho e de responsabilidade social: “Um terço da humanidade vive na mais espantosa miséria e muitos acreditam falsamente que a violência é a melhor resposta. Portanto, temos que lutar desesperadamente pela justiça social, sem a qual não haverá paz.”

“A chave da organização de uma sociedade é o trabalho, que não pode se tornar uma mercadoria, como quer a globalização financeira e mordaz. Todos os esforços conjuntos para uma nova ordem mais justa e solidária são bem-vindos. Esta nova edição do Foro de Guadalajara trará renovadas expectativas na concretização de novas formas de solidariedade intersindicais, que podem se constituir em uma alternativa ao neoliberalismo e, ao mesmo tempo, vão desenhando a globalização da justiça social e da caridade, da repartição mais equitativa das rendas e dos bens”, disse ele.

Concluindo, Pérez expressou a sua esperança “de que o Foro possa construir pontes e estabelecer bases novas para o progresso futuro”.

Os efeitos do neoliberalismo na vida dos trabalhadores

Os dirigentes sindicais mexicanos e brasileiros concentraram o debate em como superar as estruturas do “pensamento econômico neoliberal” e voltar a uma sociedade que respeite o trabalho e garanta o emprego ao homem. O vice-presidente da CSB, Luiz Sergio da Rosa Lopes, fez uma descrição detalhada dos devastadores efeitos do neoliberalismo e da doutrina radical da liberdade de mercado na sociedade. O sistema econômico está dominado pela ideia de que a “lei do mais forte” é a que determina a vida da sociedade, afirmou.

Lopes afirmou que, em todo o mundo, há 100 companhias que têm um faturamento superior ao PIB do México, Brasil, Venezuela, Argentina e Colômbia juntos. Estas empresas dominam 33% da produção mundial, mas, no entanto, geram apenas 19 milhões de empregos – apenas 0,7% da força de trabalho mundial.

Ele o recordou é preciso fazer frente à espantosa realidade de 1,3 bilhão de pessoas em todo o mundo que vivem com menos de um dólar por dia – e dos outros dois bilhões de que vivem com até dois dólares. O fato mais assustador é o de que os dez homens mais ricos do planeta possuem uma fortuna que é tão grande quanto a produção de 50 países, e 443 multibilionários têm juntos uma fortuna que equivale à da metade da humanidade.

Por outro lado, ressaltou, hoje, os sindicatos estão em crise, não apenas no Brasil, mas também em outros países da América Latina: “Isto é resultado das normas econômicas neoliberais, que levaram a uma situação em que as companhias começam a transferir a sua produção e a criar uma organização trabalhista “flexível, ao mesmo tempo em que as empresas estatais, como o exemplo da Pemex demonstra, são privatizadas.”

O secretário geral da FROC-CROC-Jalisco, Antonio Álvarez Esparza, recordou as conquistas históricas da Revolução Mexicana, a primeira revolução social do século XX, que no seu tempo conduziu a uma situação em que a indústria e o campo desfrutavam da proteção do Estado. Este Estado representava a unidade, as finanças estavam regulamentadas e se estabeleceu a equidade nas relações humanas. Ao final da Segunda Guerra Mundial, havia pleno emprego no México, e o país estava no caminho certo.

Mais tarde, devido à influência do pensamento ultraliberal de economistas como Friedrich von Hayek e sua doutrina ortodoxa do capitalismo, um novo pensamento começou a dominar a economia mexicana, nas duas últimas décadas. Esta doutrina neoliberal teve um efeito destrutivo nas famílias e na situação dos empregos. Esparza afirmou que as mudanças efetuadas na lei do trabalho, em 2011, são um bom exemplo dos estragos causados, já que conduziram à flexibilização do trabalho, ao empobrecimento social e à abertura à especulação financeira.

Hoje, com o acúmulo do endividamento, o México se vê obrigado a vender as suas empresas. Desta forma, nos últimos anos, 1.200 companhias foram vendidas a preços irrisórios. Ferrovias, aeroportos e rodovias foram privatizados e se criou um enorme setor econômico informal, com custos trabalhistas ínfimos.

Os sindicalistas mexicanos fizeram coro com os seus colegas brasileiros, ao destacar que os sindicatos perderam sua capacidade de defender os legítimos direitos de um trabalho digno e de emprego garantido, por obra das políticas neoliberais vigentes.

2014 – Ano de crise: quais são as lições das duas guerras mundiais?

No ano da comemoração do centésimo aniversário do começo da Primeira Guerra Mundial e do septuagésimo-quinto da Segunda Guerra Mundial, a autora Elisabeth Hellenbroich fez uma breve resenha histórica, destacando que as duas guerras mundiais estão profundamente encarnadas no inconsciente coletivo dos europeus.

Enquanto a Primeira Guerra deixou um saldo de 18 milhões mortos, na Segunda houve ainda mais vítimas, cerca de 50 milhões. Hellenbroich destacou que as elites europeias caminharam rumo à Primeira Guerra como “sonâmbulas”, como afirmou o historiador Samuel Clark, autor do livro homônimo, Os sonâmbulos (Companhia das Letras, 2014), sem consciência dos horrores que desencadearam.

Para destacar este fato, citou o discurso do pelo presidente da Conferência Europeia de Bispos, cardeal Reinhard Marx, em uma conferência em Madri dedicada aos problemas sociais da Europa, quando refletiu sobre a herança histórica das duas guerras e sobre o seu efeito na consciência europeia. Ele recordou, ainda, a discussão que teve com o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, que lhe confidenciou um conselho de seu pai, que lhe explicou porque valia a pena lutar pela ideia de uma Europa unida: “Se tens dúvidas sobre a Europa, vá visitar as tumbas dos soldados.”

Como destacou a autora, a geopolítica foi um elemento chave para o desencadeamento da Primeira Guerra Mundial. No discurso proferido pelo geopolítico britânico Halford Mackinder, intitulado “O pivô da história”, realizado em 1904 na Real Sociedade Geográfica Britânica, ele assinalou que o “coração eurasiático” era o principal problema do Império Britânico. Segundo ele, a maior ameaça potencial seria uma hipotética aliança entre o núcleo eurasiático (Rússia) e os países limítrofes, em particular, a Alemanha e o seu compromisso com projetos ferroviários em grande escala.

A forma mais adequada de se aprenderem as lições das duas guerras mundiais seria buscar alguns princípios superiores na política internacional, impregnados de caridade, solidariedade e justiça – fundamentos da doutrina social católica. O papa João Paulo II, autor de várias encíclicas sociais, destacou, em um discurso emocionado na ONU, em 1995, a importância singular da Declaração Universal dos Direitos do Homem, o direito à vida, o direito a uma economia justa, a uma educação decente, a sua própria cultura, nação e linguagem. Assim, só pode haver paz se cada nação lutar pelo bem comum.

ethos perdido da Europa

O ex-senador Guido Folloni falou sobre o “ethos perdido da Europa”. Ele destacou os imensos esforços para levar a Europa à reconstrução econômica e política, logo após a Segunda Guerra Mundial, com a colaboração de líderes como Konrad Adenauer (Alemanha), Charles de Gaulle e Robert Schumann (França) e Alcide de Gasperi (Itália), resultando no atual bloco europeu de 27 países. No entanto, como demonstram as recentes eleições parlamentares europeias, há um profundo mal-estar e uma forte reação entre muitos europeus contra a “superburocratização” da Europa de Bruxelas [sede da União Europeia – n.e.].

A questão para a Europa é a de recriar a ideia original de si própria. Uma ideia que se reflita em sua história, da mitologia grega e do Gênesis, que diz que, depois do dilúvio universal, Noé enviou os seus três filhos para “repovoar a terra” e reconstruir o que havia ficado após o dilúvio. De acordo com Folloni, a Europa é uma “ideia”, um conceito que o povo está buscando e atuando constantemente.

A Europa entre o desenvolvimento e a integração

O economista e jornalista Paolo Raimondi, correspondente desta Resenha em Roma, continuou com as reflexões sobre a Europa, ao destacar o significado da geopolítica para desatar guerras. Ele fez referências à declaração do papa Francisco, para quem os riscos atuais de novas guerras têm origem em “estratégias geopolíticas e de ânsia de poder e dinheiro”. Após a destruição das duas guerras, o desejo de criar uma nova Europa foi muito forte. Este desejo esteve presente na obra dos fundadores do atual bloco europeu, que viam a missão da Europa na defesa da dignidade humana, baseada na solidariedade.

“Hoje a Europa está entre a integração e a desintegração”, afirmou Raimondi. As raízes disso datam do começo dos anos 1990, quando logo após a queda dos regimes da Europa Oriental, em vez de se construir uma Europa unida, desencadearam-se as guerras geopolíticas, como os sangrentos conflitos nos Bálcãs, e as guerras monetárias contra as moedas europeias.

A zona do euro hoje tem 350 milhões de habitantes e requer um programa urgente de reconstrução econômica e de infraestrutura. A Europa tem que se emancipar da influência hegemônica dos Estados Unidos e um fator determinante será a cooperação com os BRICS. A Rússia precisa da Europa e a Europa precisa da Rússia para estabelecer uma opção na forma de progresso euroasiático.

O desenvolvimento eurasiático e o Projeto Razvitie

A integração econômica euroasiática foi abordada de forma mais profunda por Yuri Gromyko, membro da Academia Russa de Ciências, que iniciou com uma referência à situação da Ucrânia. O que está sucedendo ali, segundo ele, é uma tragédia real e a sua finalidade é destruir a identidade cultural entre ucranianos e russos. As sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos e a Europa contra a Rússia foram qualificadas por ele como completamente “contraproducentes”.

Gromyko apresentou, em uma série de gráficos, o conceito de “cinturão transeurasiático de desenvolvimento”, como uma opção econômica real para a economia mundial. Esta concepção se baseia na construção do chamado Corredor Razvitie [desenvolvimento, em russo – n.e.], com múltiplos projetos de infraestrutura, inclusive ferrovias, estradas, telecomunicações, redes de eletricidade e a construção de novas cidades. Tais projetos implicam em um conceito totalmente inédito de inovação e de novas tecnologias.

A construção de novas cidades no Oriente Extremo da Rússia, bem como a extensão do cinturão transeurasiático até a Ásia Central e a Ilha Sacalina representa um desafio formidável – uma nova forma de levar a civilização humana às regiões mais distantes. Tal conceito inclui um enorme potencial que pode ser usado como projeto-piloto a ser adotado por alguns dos países que integram o BRICS.

Além das cadeias da ilusão – o que ocultam o Google, Facebook etc.

No painel de Ciência, Poesia e Música, o escritor alemão Anno Hellenbroich fez uma veemente advertência sobre as atividades das companhias de tecnologia de informação, como a Google, Facebook, Amazon e outras, todas sediadas nos EUA. Estas empresas, disse ele, se dedicam a coletar sistematicamente dados privados dos cidadãos, para, literalmente, “monetizá-las”. Segundo ele, por trás da quase obsessão das companhias de TI com esta coleta de dados, estão interesses comerciais manifestos, que bombardeiam os usuários dos seus serviços com publicidade criada de acordo com as características específicas de cada um deles.

Hellenbroich situou as suas observações no marco da “comoção Snowden”, causada pelas revelações de que a principal agência de inteligência dos EUA, a NSA, juntamente com a sua contraparte britânica GCHQ, intercepta sistematicamente e em escala mundial as comunicações eletrônicas de chefes de Estado, ministros, jornalistas, empresas e uma multidão de indivíduos. Ficou demonstrado que recolhem dados dos correios eletrônicos e ligações telefônicas de milhões de pessoas, dentro e fora dos EUA e do Reino Unido. Com esta capacidade, a NSA pode elaborar milhões de perfis pessoais. O ex-analista Edward Snowden revelou, por exemplo, que o programa PRISM da NSA (supostamente, criado para o combate ao terrorismo) analisa comunicações de áudio, vídeo, fotos, correios eletrônicos e big data, obtidos das grandes companhias de TI estadunidenses, inclusive a Microsoft, Google, Yahoo e outras.

As atividades da NSA incluíram a interceptação dos celulares de chefes de governo, como a chanceler alemã Angela Merkel e a presidente brasileira Dilma Rousseff. Isto desencadeou intensas discussões em vários países, onde um grande número de cidadãos passaram a exigir que o Estado resguardasse os seus direitos humanos e tomasse medidas para protegê-los desse “pesadelo orwelliano”.

Entre as críticas mais fortes contra esses métodos de vigilância totalitária, destacam-se os dos professores bielorrussos Shoshana Zuboff e Evgeny Morosov, respectivamente, das universidades de Cambridge e Stanford. Em uma recente palestra em Potsdam, Alemanha, Zuboff afirmou que a Google tem desenvolvido de tal forma as suas atividades de coleta de dados pessoais, que a receita da empresa passou de 25 bilhões de dólares, em 2008, para 400 bilhões, em 2014, o que a levou a superar a petroleira ExxonMobil entre as maiores empresas do mundo em valor de mercado. Para Hellenbroich, o problema não é o acesso à informação, mas o seu uso com sentido de responsabilidade.

Porém, ressaltou, a informação não é sinônimo de “conhecimento”, e o que realmente conta é a capacidade do homem para gerar novas ideias, o que está muito além da coleta de informações. Ele lembrou a contribuição do filósofo alemão Gottfried W. Leibniz, inventor do sistema binário que constitui a base do mundo digital, demonstrando que, para se viver no “melhor dos mundos possíveis”, o fundamental para o progresso da civilização são as ideias e as invenções criadoras do homem.

A trama do Universo, o todo e a parte

Gildo Magalhães, professor de História da Ciência e da Tecnologia da Universidade de São Paulo (USP), polemizou com a escola darwinista predominante, que vê a evolução como uma mera seleção biológica. Para ele, temos que retornar ao pensamento de Platão e dos filósofos e artistas do Renascimento, que demonstraram que o Universo se organiza de acordo com um processo de “evolução causal”, e não casual.

O homem participa da evolução do Universo, enfatizou, quando, ao explorar as suas leis, cria novas hipóteses científicas. Atualmente, há uma necessidade urgente de a Ciência voltar a se comunicar com a Arte. Como exemplo, citou as Cartas sobre a educação estética do homem, de Friedrich Schiller, nas quais este afirma que “a verdade é beleza e a beleza é verdade”. A verdadeira arte não reproduz o que é “visível”, afirmou, mas a essência da bela arte produz “metáforas” nas mentes daqueles aos quais se dirige o artista, com o fim de iluminar um mundo “invisível”.

O mesmo vale também para a Ciência, que cria hipóteses sobre coisas do Universo que não são visíveis. Como exemplo, citou a Seção Áurea, para demonstrar que o Universo – a natureza inorgânica e orgânica – se organiza de acordo com as suas proporções, baseadas no célebre número phi, cujo valor é 1,618. No Renascimento, o grande matemático frei Luca Pacioli fez estudos sobre a Seção Áurea e suas aplicações na arte.

Toda a grande pintura renascentista seguia o princípio de construção proporcional orientado pela Seção Áurea, já que este era o meio para expressar em suas pinturas algo que a mente humana somente podia compreender como metáfora, com respeito à realidade metafísica subjacente.

Poesia e música, alma em movimento

O tema foi tratado pelo maestro Alfredo Mendoza, fundador e diretor da Schola Cantorum do México, que o demonstrou falando sobre a Lied (canção, em alemão; plural Lieder), forma de composição musical utilizada de forma particular pelos compositores do século XIX, como Franz Schubert, Robert Schumann e outros, com a qual convertiam a poesia em música.

Em contraste com o entretenimento vazio e a “música lixo”, que permeia a cultura da nossa sociedade, Mendoza sublinhou que o desenvolvimento da grande música e da grande arte se originou na Grécia. A lírica, o drama e a música (métrica e ritmo) se desenvolveram ao longo de mais de 2 mil anos. Nos períodos que sucederam a Grécia Clássica, como o Barroco, o Clássico e o Romântico, essas formas de expressão musical foram ainda mais refinadas e empregadas por diferentes compositores, para levar a alma humana a uma harmonia perfeita. Entre as grandes composições assim criadas, destacou a Paixão Segundo São Mateus, de Johann Sebastian Bach, bem como os oratórios e as cantatas de Bach e outros compositores, que se aperfeiçoaram ainda mais no período Clássico, com a forma musical da sonata.

Mendoza deu atenção particular a Schubert e Schuman, que criaram a união perfeita entre “a lírica do texto e a expressão musical”, na forma das Lieder.

Para coroar a sua apresentação, o maestro, que também é tenor, proporcionou um belo recital, acompanhado pela pianista Nobuko Hara e o violonista Hugo Gracián, interpretando Lieder de Schubert, Schumann e Mozart, além de canções de compositores mexicanos, espanhóis e brasileiros, dos séculos XV ao XX.

O mundo no século XXI: a hora universal dos povos?

O jurista Humberto Podetti, professor da Universidade de Buenos Aires, iniciou a sua exposição comentando a eleição do papa Francisco e a sua importância para a América Latina, lembrando a citação do seu primeiro discurso como Pontífice, em que disse que “foram me buscar no fim do mundo”.

Podetti revisou a história da América Latina e dos diferentes significados de tal “fim do mundo” no pensamento latino-americano. Com a chegada de Cristóvão Colombo, iniciou-se um processo em que os europeus se mesclaram com os povos americanos. Na ocasião, o jurista espanhol Francisco de Vitoria, da Universidade de Salamanca, influenciado por São Tomás de Aquino, escreveu sobre os direitos de todos os seres humanos. De acordo com ele, todos os homens são livres. O homem é vizinho de outro homem, e não, como diria posteriormente Thomas Hobbes, o lobo do próprio homem. Durante o período da evangelização, foram criadas várias universidades em todo o continente, baseadas no modelo da de Salamanca, e, no campo religioso, uma nova dimensão se criou com a aparição da Virgem de Guadalupe ao índio Juan Diego, que abriu caminho para um diálogo entre a Cristandade e a cultura indígena. Aqui começou a nossa mestiçagem, ressaltou Podetti. O Novo Mundo teve em sua origem a fraternidade do humanismo, que, por ser humanismo, é cristão.

Vendo o mundo atual, observamos que 30% da população mundial vive na pobreza, pelo que o papa Francisco, vindo do “fim do mundo”, traz uma nova dimensão com o seu pontificado, um “humanismo popular”. Como tem enfatizado o próprio Pontífice, o papel da Igreja latino-americana é, “temos que sair e compartilhar o nosso pensamento com o resto do mundo”.

A importância da visão multipolar do BRICS para a África

O tema foi tratado pela camaronesa Marguerite Welly-Lottin, residente na Itália e presidente da GRIOT, uma organização internacional voltada para ajudar imigrantes africanos na Europa.

A África, com mais de um bilhão de habitantes, é um continente rico, não apenas em recursos naturais, mas também por seus habitantes, disse ela.

Entretanto, o continente tem sido degradado e saqueado por interesses coloniais e neocoloniais. Ainda no período pré-colonial, os africanos padeciam com a escravidão, em que os escravos eram vendidos como gado. Quando, afinal, o colonialismo foi superado pelos movimentos de independência, houve um otimismo real durante um curto período, expressado por pensadores como o senegalês Cheikh Anta Diop, que, em 1974, criou um fascinante plano de desenvolvimento para o continente, baseado na criação de infraestrutura, indústrias, energia e ações culturais.

Em troca, o que se seguiu foi um período de guerras e de geopolítica neocolonial. Em busca do domínio dos ricos recursos africanos, empresas multinacionais foram um dos principais fatores na orquestração de guerras por matérias-primas e de despovoamento. Hoje, é comum ouvir-se que existem muitos africanos, que são negros portadores de doenças que roubam os empregos. Assim, a emigração se tornou lugar comum, para a Europa, EUA, Canadá e Austrália, os chamados países ricos do planeta, que, em realidade, estão mergulhados em uma grande crise. “A opção real à emigração é o progresso”, disse ela.

Ao final, bastante aplaudida pela plateia, Welly-Lottin ressaltou a relevância que os africanos conferem ao BRICS, bloco de países que está lutando pela “criação de um novo eixo de progresso, mundial e pacífico”, desde que seus integrantes não venham como novos colonizadores, mas como verdadeiros parceiros de um esforço de progresso.

O desenvolvimento como alternativa à emigração

Batendo na mesma tecla, o diretor do MSIa no México, Ángel Palacios Zea, discorreu sobre a trágica situação econômica e social enfrentada pelo México, como resultado de anos de deterioração causada pelo Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), que devastou a capacidade produtiva do país.

Em sua palestra, ele ressaltou a tenebrosa realidade social enfrentada pela sociedade mexicana, marcada pelo bárbaro assassinato de 43 estudantes em Iguala, no estado de Guerrero, por policiais e narcotraficantes, que abalou e mobilizou o país, em especial, a juventude.

Igualmente, ele mostrou o contraste com as expectativas de poucas décadas atrás. Nos anos 80, o governo tinha um ambicioso programa de fomento da indústria e da infraestrutura, que incluía a construção de novas cidades, portos, canais e centrais nucleares. O objetivo era industrializar plenamente o país, para que se cumprisse o mandato constitucional da justiça social.

Não obstante, tais planos foram “seqüestrados” por interesses anglo-americanos, que ameaçaram explicitamente com que não permitiriam “um novo Japão ao sul da fronteira dos EUA”. Hoje, o país se converteu em um paraíso para o crime organizado, como demonstrado pelos crimes em Iguala. E destacou a enorme emigração de mexicanos para os EUA, em busca de trabalho e segurança econômica. Desde a década de 1980, mais de 10 milhões de mexicanos deixaram o país.

Para ele, a grande disjuntiva que coloca à nação é se a população continuará sendo forçada a emigrar, enfrentando, entre outros, os perigos das redes de tráfico humano, ou se será possível mantê-la no país com trabalho digno. Neste particular, é indiscutível que o caminho para se dar ao povo mexicano uma perspectiva de futuro passa pelas grandes obras de infraestrutura.

Como exemplo, citou o futuro Canal da Nicarágua, obra de 240 km orçada em 50 bilhões de dólares, que será financiada pela China e terá o apoio da Rússia, cuja construção gerará empregos para mais de 50 mil pessoas. Os benefícios, para a América Central e o próprio México, serão múltiplos, inclusive, com a redução da emigração de centroamericanos para os EUA, o que também favorecerá o México, onde proliferam as redes de “coiotes” que se alimentam do sangue da emigração forçada.

Ciência pioneira e novos princípios físicos

Na segunda sessão do painel de Ciência, Poesia e Música, o geólogo Geraldo Luís Lino, diretor do MSIa no Brasil e autor do livro A fraude do aquecimento global: como um fenômeno natural foi convertido numa falsa emergência mundial (Capax Dei, 2009), apresentou a palestra “Um novo paradigma científico para uma era de transformações”.

Depois de advertir que a plateia ouviria conceitos e propostas que pareceriam ficção científica, Lino discorreu sobre o esgotamento do paradigma mecanicista prevalecente na Ciência, defendido por nomes como Bacon, Galileu, Descartes, Newton, Kelvin e outros, que consideravam o Universo como um “gigantesco mecanismo de relojoaria”, o qual se mostra cada vez mais disfuncional e incapaz de explicar um número rapidamente crescente de fenômenos observados, em numerosos campos científicos.

Como exemplo de disfuncionalidade, ele destacou os modelos matemáticos do clima, incapazes de representar adequadamente a complexa dinâmica climática, mas têm sido usados para promover a equivocada noção da influência humana sobre as mudanças climáticas globais.

Como candidato à substituição do “mecanicismo”, apresentou o sistema “holístico/quântico”, baseado na noção de que todas as partes do Universo estão interligadas entre si, a partir do reconhecimento de que toda a energia e a matéria existentes se derivam de um campo de energia fundamental, denominado pelos físicos “campo do ponto zero”, do qual também se derivam as forças fundamentais do Universo – gravitação, eletromagnetismo e forças nucleares fraca e forte.

Em seguida, apresentou alguns pioneiros do novo paradigma, como o genial engenheiro elétrico e inventor sérvio-estadunidense Nikola Tesla, inventor da geração de eletricidade em corrente alternada, que possibilitou a eletrificação mundial, e autor de numerosas experiências para a captação da “energia do ponto zero”, que chamava “energia radiante”.

Lino concluiu, afirmando que a consolidação do paradigma “holístico/quântico” terá enormes repercussões sobre todas as áreas do conhecimento e das atividades humanas, como a possibilidade de utilização em grande escala da “energia do ponto zero”, e conclamou os países ibero-americanos, em especial, o México, Argentina e Brasil, que já dispõem de importantes centros de excelência, a enfrentar o desafio de fomentar pesquisas nas áreas relevantes.

Plano Ares: um projeto de colonização espacial

Na sequência, um grupo de cientistas da Universidade Popular de Veracruz (UPAV), liderado pelo astrobiólogo Héctor Omar Pensado Díaz, apresentou o fascinante Plano Ares, nada menos que um projeto para a colonização de Marte, desenvolvido em conjunto com a Mars Society, entidade estadunidense dirigida pelo engenheiro aeroespacial Robert Zubrin.

A audaciosa proposta, desenvolvida em um dos estados mais carentes do México, envolve a elaboração de um conjunto de conceitos científicos que permitam a transformação do meio ambiente marciano para permitir a colonização do planeta por seres humanos. Para testar na prática alguns deles, o projeto inclui a instalação de um módulo de pesquisas semelhante ao que seria usado em Marte, em uma região montanhosa de Veracruz, cujas características geológicas são similares às de Marte, apresentado em um vídeo de dez minutos. Já construído, o módulo encontra-se em fase de testes e deverá ser instalado no local ainda no primeiro semestre de 2015. Como destacou o Dr. Pensado, o projeto tem uma ativa interação com a comunidade local, atuando como um importante fator de motivação dos jovens para temas científicos importantes para o futuro da humanidade.

A importância do conhecimento da dinâmica climática real

Coube ao biólogo Jorge Benítez Rodríguez, da UPAV, e ao climatologista Enrique Buendía Carrera, da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), fazer uma crítica à atual histeria sobre o “aquecimento global”.

O primeiro demonstrou que todos os modelos que apontam o suposto aquecimento atmosférico fracassaram, ao não antecipar que a elevação das temperaturas ocorrida desde meados da década de 1970 se interromperia ao final do século XX; desde então, as temperaturas da atmosfera se mantiveram no mesmo nível, enquanto todos os modelos previam que aumentassem. A razão, enfatizou Benítez, foi que a dinâmica climática se manifesta em ciclos de longo prazo e, em grande medida, é influenciada por fatores cósmicos, como os ciclos de atividade solar. Por conseguinte, as mudanças climáticas nada têm a ver com a produção humana de dióxido de carbono (CO2).

Por sua vez, o Dr. Buendía demonstrou a possibilidade de se anteciparam fenômenos como secas intensas e inundações, como as que ocorreram no México, nas últimas décadas, pelo conhecimento da atividade solar, refletido nos ciclos de manchas solares. Trata-se de um trabalho sistemático que vem desenvolvendo na UNAM, com um nível de sucesso de tal ordem que ele se tornou consultor do governo federal e de vários governos estaduais, para ajudar a elaborar medidas de mitigação dos efeitos de tais fenômenos. A sua exposição demonstrou, uma vez mais, a necessidade da observação da natureza para um melhor conhecimento da dinâmica do clima global, em contraste com os questionáveis resultados dos modelos matemáticos favorecidos pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), cujo relatório mais recente fora divulgado no fim-de-semana anterior ao Foro de Guadalajara.

A ideologia de gênero como instrumento do poder hegemônico

O último painel do Foro foi dedicado ao lançamento da edição mexicana do livro Ideologia de gênero: o neototalitarismo e a morte da família, do intelectual argentino Jorge Scala, publicado pela Capax Dei Editora (a edição brasileira de 2011 é uma coedição das editoras Katechesis e Artpress).

Antes da conferência do autor, a diretora do MSIa Silvia Palacios proferiu uma palestra com o título “A crise antropológica leva ao subdesenvolvimento do homem”. O tema foi a profunda crise antropológica enfrentada hoje pelas sociedades de todo o mundo, inserida no contexto da crise econômica e política global. Em suas palavras, “estamos nos defrontando com estruturas de injustiça social e de malthusianismo fanático. Neste afã de domínio, a cultura associada à globalização financeira concebe a pessoa humana e a sua dignidade como um obstáculo para os interesses que querem manter a sua hegemonia global, a começar pelo controle dos fluxos de recursos naturais.

Uma expressão típica desses interesees é a “ideologia de gênero”, que se agrega ao multiculturalismo e a uma noção peculiar do que sejam os “direitos do homem”. Segundo ela, a matriz malthusiana nas relações internacionais começou a ser gestada a partir da década de 1970, quando certos interesses oligárquicos anglo-americanos voltaram a sua atenção para a criação de planos e métodos para o controle demográfico nos países em desenvolvimento, começando por selecionar algumas nações para colocar em prática os seus métodos de controle populacional, com o intuito de preservar para o seu usufruto os recursos naturais destas.

Isso começou a se difundir em paralelo com a chamada revolução do sexo, drogas e música rock, ao mesmo tempo em que se relativizava a “dignidade do ser humano”, afirmou.

A partir da década de 1960, entretanto, houve um movimento anticolonial em todo o mundo, do qual uma das expressões foi a criação do Movimento dos Não-Alinhados, que, juntamente com a encíclicaPopulorum Progressio, do papa Paulo VI, teve um grande impacto nos países em desenvolvimento.

Como uma resposta às demandas pelo direito ao desenvolvimento econômico e social, desencadeou-se uma nova batalha geopolítica, exemplificada pela política secreta elaborada pelo então secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, para impor às nações do chamado Terceiro Mundo uma série de políticas malthusianas, inclusive medidas de controle demográfico, como o aborto em grande escala. Esta política ficou conhecida quando foi divulgado o chamado relatório NSSM-200, já na década de 1990.

O resultado de todas essas políticas, disse Palacios, foi o subdesenvolvimento moral e a debilitação da capacidade da população para se mobilizar de forma eficaz contra tal estratégia. Assim, afirmou, “vivemos uma crise cultural, o que tem provocado uma nova definição solerte dos direitos humanos. Neste novo mundo, o homem já não é o centro da Criação. A ideologia de gênero é difundida pelas Nações Unidas, que está comprometida com a promoção das campanhas a favor do aborto, gênero, indigenismo e ambientalismo radicais”.

Uma ideologia lúgubre e totalitária

Em seguida, o Dr. Scala falou sobre alguns aspectos do seu livro, que já teve sete edições (inclusive a brasileira).

Ele iniciou com a definição do que é ideologia, mostrando que, em certos sistemas totalitários fechados da década de 1930, a ideologia como crença nas “raças inferiores”, era utilizada como uma ferramenta de poder.

Na atualidade, disse, estão sendo difundidas novas formas de ideologia, por meio da televisão e outras redes de propaganda, assim como nas escolas, as quais utilizam uma técnica muito específica de manipulação das mentes e o uso de truques lingüísticos para mudar o significado das palavras análogas. Por exemplo, a palavra “gênero” é agora utilizada para manipular e manter em aberto e vaga a noção de masculinidade e feminilidade.

Na educação de gênero, que se fomenta em certas formas da educação moderna, se diz, por exemplo, que o sexo é dependente do ambiente cultural e social. Em sua forma extrema, isto significa que, hoje, posso acordar homem e, amanhã, mulher, disse Scala. Segundo a ideologia de gênero, macho e fêmea são gêneros iguais. Não se faz nenhuma diferença que mostre que o homem e a mulher são o complemento um do outro, afirmou. Para ele, este ponto de vista tem um efeito direto no casamento e na família. Por exemplo, na atualidade, existem nada menos que 45 formas diferentes de casamentos e novos tipos de famílias. As consequências desta ideologia de gênero, promovida, entre outras, pela Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres, que foi presidida pela atual presidente do Chile, Michelle Bachelet, são muito graves, pois relativizam e destroem o significado de “ser humano” e, em última análise, promovem uma desintegração da sociedade.

Não obstante, concluiu, “podem desaparecer povos inteiros, mas, onde haja um ser humano – mulher ou varão -, a sua inteligência buscará a verdade, a sua vontade tentará amar e se autodirigir para o bem. Os que não dobram os joelhos perante os poderosos de plantão, mas buscam com sinceridade a sua plenitude humana, se torna indestrutíveis frente à ideologia da moda, como a do gênero”.

Assim como ocorreu com a edição anterior do Foro de Guadalajara, os trabalhos apresentados deverão ser futuramente publicados em forma de livro.

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