Imbróglio no Golfo reflete declínio do “excepcionalismo”

Para qualquer pessoa minimamente informada, soou como surreal e cínico o argumento do governo da Arábia Saudita para justificar o rompimento de relações diplomáticas e a imposição de uma série de sanções ao Catar. Medida acompanhada por outras monarquias do Golfo Pérsico, o Egito e um punhado de outros governos financeiramente dependentes dos sauditas, e prontamente endossada pelo hiperativo presidente estadunidense Donald Trump.

O apoio catari ao terrorismo internacional foi a principal justificativa de Riad e seus aliados para a investida contra Doha, que inclui o fechamento das fronteiras terrestres, proibição do uso dos espaços aéreos, embargo comercial, saída de diplomatas e cidadãos cataris e outras medidas restritivas. Juntamente com elas, a coalizão apresentou ao governo do emir Tamim bin Hamad al-Thani um inaceitável ultimato de dez pontos, cujo cumprimento de apenas um ou dois deles implicaria na renúncia do emirado à sua existência como um Estado soberano. Entre elas, o rompimento de quaisquer relações com o Irã e o fechamento da rede de televisão Al-Jazira.

Ora, Riad acusar Doha de apoio e conluio com o terrorismo islâmico equivale a algo como a família Genovese responsabilizar a família Gambino por ações mafiosas em Nova York ou, em termos brasileiros, o Primeiro Comando da Capital (PCC) culpar o Comando Vermelho pelo avanço da criminalidade no Rio de Janeiro e outras capitais do País. É de domínio público que ambos os países são patrocinadores de grupos jihadistas que tem infernizado o Norte da África e o Oriente Médio, principalmente, a Síria.

De modo que os motivos reais devem ser procurados por detrás de outros biombos.

De início, três fatos podem fornecer pistas importantes:

1) A ação ocorreu menos de duas semanas após a visita de Trump a Riad, na qual participou de uma inusitada cúpula árabe-estadunidense, instou os 37 líderes presentes (todos sunitas) a “expulsar o terrorismo”, inaugurou um centro internacional de combate ao terrorismo (sic) e apontou o xiita Irã como o maior promotor do terrorismo internacional – no mínimo, uma desconsideração para com os anfitriões e os serviços de inteligência anglo-americanos, que não têm rivais na disputa pelos primeiros lugares. E, dada a histórica simbiose entre Riad e Washington, é pouco crível que os sauditas tenham tomado tal iniciativa sem pelo menos um endosso estadunidense, ainda que informal. O imediato e entusiasmado comentário favorável de Trump, em sua conta no Twitter, reforça essa impressão.

2) O apoio imediato da Turquia (sunita) ao Catar, inclusive, com a determinação de enviar uma força militar ao emirado, aprovada às pressas pelo Parlamento de Ankara, para ampliar o pequeno contingente que ocupa a base turca existente no país desde 2014, a qual pode abrigar até 5.500 homens. Nos dias seguintes, o presidente Recep Erdogan subiu o tom das críticas à investida contra Doha, rotulando-a como “desumana” e “antiislâmica”.

3) O igualmente imediato apoio do Irã, oferecendo rotas alternativas para os aviões cataris e enviando alimentos ao emirado, quase totalmente dependente de importações para alimentar os seus 2,6 milhões de habitantes. Nos últimos meses, Doha e Teerã têm mantido discretos entendimentos para implementar a exploração conjunta do gigantesco campo de gás natural South Pars/North Dome, que ambos compartilham na zona de exploração econômica exclusiva do Golfo Pérsico. O Catar é o segundo maior exportador mundial de gás natural, atrás apenas da Rússia, cujas receitas conferem ao país a primazia do maior PIB per capita do planeta.

Aparentemente, a investida de Riad, tendo a reboque um punhado de países dependentes das suas benesses financeiras, teve como motivação principal a crescente impaciência da Casa de Saud com a cada vez mais influente posição do Irã como potência regional, igualmente incômoda para os EUA e Israel, que estariam apoiando os sauditas de forma apenas pouco disfarçada. Em um comentário publicado pela Strategic Culture Foundation (13/06/2017), que reflete as posições de uma importante facção estratégica russa, o sempre arguto Federico Pieraccini observa:

Trump e a facção do Estado Profundo que lhe é leal objetivam criar uma OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte] árabe, capaz de confrontar o Irã, liberando Washington de uma presença constante no Oriente Médio. Nesta estratégia, os EUA estão enfocados em dois fatores chave, especificamente, a venda de petróleo saudita em dólares estadunidenses e a venda de armamentos aos aliados dos EUA, para manter satisfeito o seu complexo industrial-militar. Estes objetivos coincidem com o ocorrido recentemente nos emirados, com a visita de Trump. Os EUA e a Arábia Saudita assinaram acordos em montante superior a 350 bilhões de dólares. A Arábia Saudita apoia fortemente a criação de uma OTAN árabe. A organização oficializaria o papel de Teerã como o maior perigo para toda a região. Ademais, o projeto de uma OTAN árabe conviria bastante a Israel, que odeia Teerã.

Para complicar essa equação, os EUA têm no Catar uma de suas maiores bases militares no exterior, Al Udaid, sede de suas operações aeronavais no Golfo. Temos, assim, a peculiaridade de duas potências da OTAN, EUA e Turquia, disporem de bases no país e estarem em posições aparentemente opostas no enredo em curso.

Um elemento adicional é a recente aproximação do emirado com o Hizbollah libanês, grupo xiita cujas milícias armadas estão atuando decisivamente, ao lado de forças iranianas e russas, no combate aos jihadistas na Síria, para grande contrariedade dos EUA e de Israel, este último já irritado com o apoio catari ao Hamas palestino.

Por outro lado, um fator que poderá ser determinante para o desfecho do imbróglio é a posição da Rússia, que já atua em estreita articulação com a Turquia e o Irã, no esforço de levar o conflito na Síria a uma conclusão política viável. Não por outro motivo, o chanceler catari, Mohammed bin Abdulhrahman al-Thani, primo do emir, tratou logo de voar a Moscou, para uma reunião com seu colega Sergei Lavrov. A mediação russa ganha um contorno mais favorecido, devido às boas relações com os sauditas.

Entretanto, todos esses fatores combinados sugerem que, além dos interesses particulares e compartilhados entre os atores engajados, o caso tem como cenário de fundo o indisfarçável desgaste da agenda hegemônica unipolar centrada no papel “excepcional” dos EUA, no período pós-Guerra Fria, frente à atuação cada vez mais assertiva de potências como a Rússia, Irã, China e até mesmo aliados como a Turquia, cujos interesses não coincidem totalmente com os de Washington. Dentro dos próprios EUA, as facções do Establishment oligárquico se digladiam em torno da maneira de conduzir a pauta estratégica, em geral, diferindo apenas no grau de recusa a aceitar o esgotamento do “excepcionalismo” estadunidense.

Nesse cenário, os sauditas mostram que apostaram as suas fichas na extensão da hegemonia estadunidense, contando com impedir que o Irã possa ameaçar a sua autoproclamada posição de hegemon regional. Os cataris, mais pragmáticos e cosmopolitas (nada menos que 88% da população do país é estrangeira), parecem mais dispostos a distribuir as fichas em uma maior variedade de apostas. Assim sendo, é possível que parte das negociações com Moscou e Teerã inclua uma redução do apoio catari aos grupos jihadistas que lutam na Síria.

A propósito, não deixa de ser simbólico que o imbróglio no Golfo tenha ocorrido ao mesmo tempo em que a Organização de Cooperação de Xangai (OCX) realizava a sua 17ª cúpula, em Astana, Cazaquistão, na qual a Índia e o Paquistão foram oficializados como membros plenos do grupo (ver nota).

Como conclusão, compartilhamos a sintética descrição de Pieraccini: “O século estadunidense está chegando rapidamente a um fim. Os terroristas estão mordendo as mãos dos seus senhores e os vassalos estão se rebelando. O mundo unipolar que se curva aos EUA está desaparecendo rapidamente e as consequências estão sendo sentidas em várias áreas do mundo.”

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