Greve dos caminhoneiros deve induzir reflexão sobre infraestrutura

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A greve dos caminhoneiros deve servir para que o País reflita sobre outros modelos de transporte para o escoamento de grãos e bens. Esta foi a posição do senador José Medeiros (PPS-MT), em pronunciamento realizado no Senado, na segunda-feira 2 de março. Segundo ele, estamos “com essa crise que nos traz oportunidade de refletir sobre o nosso sistema de transportes, sobre toda essa relação com a nossa infraestrutura. Somos um país dependente do setor de commodities, vivemos, praticamente, da exportação dessas commodities, mas precisamos ter corredores para isso (Sonoticias.com.br, 2/03/2015)”.

Para Medeiros, uma das soluções possíveis para os entraves logísticos é a conclusão das obras da Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (FICO), que irá integrar o norte de Mato Grosso até a Ferrovia Norte-Sul, que ligará o Pará ao Rio Grande do Sul. “Seria um novo corredor muito importante para o estado, porque, hoje, depende-se basicamente da [rodovia] BR-364 e da BR-163. A nossa preocupação tem sido, desde que chegamos a esta casa, justamente lutar e cobrar do governo soluções para que a nossa infraestrutura melhore”, disse o senador.

Ele destacou que a FICO beneficiará diretamente os municípios de Cocalinho, Nova Nazaré, Água Boa, Canarana, Gaúcha do Norte, Paranatinga, Nova Ubiratã, Lucas do Rio Verde, Nova Maringá, Brasnorte, Sapezal, Campos de Júlio e Comodoro: “O objetivo é que ela continue rumo a Rondônia e Acre, e que possamos, dentro em breve, ter a Ferrovia Transcontinental e ter uma saída para o Pacífico.”

Medeiros referiu-se à audiência que teve na semana passada com o presidente interino da Valec Engenharia, Construções e Ferrovias S/A, Bento José de Lima, e com o diretor-executivo do Movimento Pró-Logística de Mato Grosso, Edeon Vaz Ferreira, com a finalidade de “cobrar agilidade nessa nova ferrovia”. O senador declarou-se muito entusiasmado com o encontro, no qual o presidente da Valec apresentou uma proposta de novo modelo de concessões, visando ao barateamento dos fretes.

“O modelo atual é muito ruim e cito o exemplo de Rondonópolis, no Mato Grosso, onde temos a Ferronorte, em que o preço da tonelada transportada pelos vagões de trem é, basicamente, o mesmo preço da tonelada transportada pelo caminhão”, afirmou.

Segundo a Associação Brasileira de Logística e Transporte de Carga (ABTC), o prejuízo diário sofrido com o bloqueio de estradas por conta da greve dos caminhoneiros foi da ordem de R$ 21 milhões, em uma estimativa otimista. A ABTC também destacou a falta de alternativas em termos de transportes como um agravante da situação: “Uma saída relevante seria utilizar os modais ferroviário e aquaviário, entretanto esses não dispõem de malha de dimensão similar (Reuters, 26/02/2015).”

Um dado mais recente é o da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que afirmou que a paralisação dos caminhoneiros nas estradas que escoam aves e suínos na Região Sul gerou um prejuízo de R$ 700 milhões e afetou 70% da capacidade de produção da região, a segunda maior do País e aves e suínos (Agência Brasil, 3/03/2015).

Independentemente da legitimidade das reivindicações dos caminhoneiros, os transtornos causados pelas manifestações realizadas em 11 estados ressaltaram a vulnerabilidade viária de um país que transporta cerca de dois terços das suas cargas em caminhões, desprezando os modais ferroviário e, principalmente, o hidroviário. A correção de rumo necessária, há muito necessária, precisa ser deflagrada o quanto antes, mas, primeiro, será preciso superar a atávica inércia nacional diante de iniciativas de longo prazo, que demandam grandes investimentos e, sobretudo, costumam ultrapassar a duração dos mandatos políticos.

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