Greenpeace, teu nome é cinismo!

Uma grande madeireira canadense está movendo dois processos multimilionários contra o Greenpeace, por danos morais e prejuízos financeiros acarretados por sórdidos e prolongados ataques da ONG ambientalista, e já conseguiu que esta admitisse que suas campanhas não se baseiam em fatos reais ou evidências científicas.

A empresa é a Resolute Forest Products, sediada em Quebec, uma das maiores do país, que, depois de anos sendo acusada de “destruidora de florestas”, decidiu processar o Greenpeace, no Canadá e nos EUA, em ações cujo valor total chega ao equivalente a 220 milhões de dólares estadunidenses. O processo mais caro foi impetrado nos EUA, com base na Lei de Organizações Corruptas e Influenciadas pelo Crime Organizado (RICO, na sigla em inglês), uma draconiana legislação aprovada na década de 1970 para combater organizações mafiosas.

“O Greenpeace é uma fraude”, afirma a petição da empresa, “porque arrecadar dinheiro, e não salvar o meio ambiente, é o objetivo primário” da ONG. O texto acusa a organização ambientalista de “ter demonstrado, repetidamente, que fará qualquer coisa para promover as doações, inclusive a fabricação de evidências”.

Em sua defesa, a ONG afirma que a ação da Resolute constitui um ataque genérico à “liberdade de expressão”. Se o Greenpeace perder a ação, diz Amy Moas, uma das acusadas, “isto poderia significar não apenas um mundo sem o Greenpeace e o registro de 45 anos de um movimento para proteger o meio ambiente, mas um mundo onde a liberdade de expressão se torne mais restrito para grupos de defesa, indivíduos, artistas, jornalistas e editores (Outside Online, 16/05/2017).

Mas o mais pitoresco é a bizarra argumentação utilizada pela defesa do Greenpeace, de que a incendiária retórica utilizada em suas campanhas não passa de “opinião” e, por conseguinte, não deveria ser passível de contestação judicial:

O uso da expressão “destruidora de florestas” nas publicações, por exemplo, é uma óbvia retórica. A Resolute não destruiu literalmente uma floresta inteira. É claro, pode-se argumentar que a Resolute destruiu partes da Floresta Boreal Canadense, sem respeitar as políticas e práticas estabelecidas pelo governo canadense e o Forest Stewardship Concil [empresa de certificação de produtos florestais – gll], mas o ponto é: a declaração ‘destruidora de florestas’ não pode ser provada como verdadeira ou falsa, é meramente uma opinião (Financial Post, 02/03/2017).

O texto acrescenta que os ataques à empresa “são, inquestionavelmente, manifestações não verificáveis de opinião subjetiva e, no máximo, hipérbole retórica não passível de ação judicial”.

Cinismo, teu nome é Greenpeace!

Em um contundente artigo publicado em 2 de março, no sítio da revista National Review, o executivo-chefe da Resolute, Richard Garneau, desabafou:

Há alguns anos, o Greenpeace e grupos aliados escolheram a minha companhia, Resolute, a maior empresa de produtos florestais do Canadá, como a sua próxima vítima. Eles compilaram uma litania de afirmativas bizarras: por exemplo, nós éramos “destruidores de florestas”, agravando as mudanças climáticas e causando uma “espiral de morte e extinção de caribus [cervídeo também conhecido como rena – gll]” no hábitat boreal do Canadá. O Greenpeace assediou companhias com as quais fazemos negócios, ameaçando-as com o mesmo tipo de campanhas de difamação como as que lançaram contra nós e, até mesmo, instigando ataques cibernéticos contra os seus sítios na internet. E eles se jactaram sobre os prejuízos – 100 milhões de dólares canadenses – que afirmavam ter infligido aos nossos negócios.

Eles estavam mentindo sobre as nossas práticas florestais, de modo que fizemos algo que ninguém do grupo de outros alvos já havia encontrado o meio de fazer: os processamos, no Canadá, por difamação e interferência intencional em relações econômicas, e nos Estados Unidos, sob a legislação RICO.

Uma coisa engraçada aconteceu, quando o Greenpeace e seus aliados foram forçados a provar as suas acusações no tribunal. Eles começaram a mudar o tom. As suas condenações das nossas práticas florestais “não se prendem a um sentido literal estrito ou à precisão científica”, como afirmam na sua última alegação legal. Em vez disto, as suas acusações contra a Resolute eram “hipérboles”, “retórica incendiária” e “manifestações não verificáveis de opinião subjetiva”, que não deveriam ser tomadas “literalmente” ou justificar quaisquer ações legais contra eles. Estas são admissões sóbrias, após anos de ataques irresponsáveis.

Nenhuma “perda de florestas” foi causada pela Resolute, os grupos admitem – agora, que foram legalmente responsabilizados. É claro que essas últimas admissões são consistentes com os fatos levantados por cada jornalista e comentarista independente que tem coberto a disputa… Até mesmo Steve Forbes [executivo-chefe da revista Forbes – gll] se manifestou, considerando a nossa ação judicial como “um exemplo notável de como empresas atacadas injustamente deveriam responder”. Peter Reich, um dos mais renomados ecologistas florestais do mundo, tem dito que o Greenpeace tem “um desrespeito fundamental pela realidade científica”.

Ouvir, finalmente, a verdade vinda do próprio Greenpeace é uma compensação, mesmo que venha na forma de uma defesa torturada das suas ações, em lugar de um simples pedido de desculpas. Surpreendentemente, a despeito de admitir no tribunal que a sua retórica contra a Resolute não é verdadeira, o Greenpeace continua a nos vilipendiar pública e privadamente. Há algumas semanas, nós enviamos a eles uma notificação judicial, exigindo que deixassem de enviar cartas ameaçadoras aos nossos clientes, acusando-nos de “destruição de florestas em Quebec e Ontario”. Alguns meios noticiosos nos EUA assinaram memoriais amicus [não integram o processo, mas podem fornecer informações relevantes para ele – n.e.] em favor do Greenpeace, com base em argumentos sobre liberdade de expressão. Mas liberdade de expressão não é a mesma coisa que calúnia e difamação. E o público deveria perguntar a esses meios quando poderá esperar uma cobertura investigadora e crítica do que o próprio Greenpeace agora admite serem práticas enganosas.

Aos leitores versados em inglês, recomendamos enfaticamente a leitura integral do artigo.

Em maio, o Instituto Econômico de Montreal (MEI) concedeu a Garneau a Medalha John Dobson da Livre Empresa. “Nós concedemos essa medalha a indivíduos que defendem a livre empresa, entre outras coisas, não se intimidando diante de grupos de lobby que tentam solapar a liberdade econômica e empresarial. E, neste aspecto, o agraciado deste ano é um tremendo lutador”, disse o presidente do MEI, Michel Kelly-Gagnon (Wood Business, 12/05/2017).

Como seria previsível, o aparato internacional de ONGs dedicado à agenda desestabilizadora dos seus mentores do Establishment oligárquico centrado no eixo anglo-americano encontra-se em franca mobilização em defesa do Greenpeace. No Brasil, a seção local da notória ONG digital Avaaz está engajada numa campanha de coleta de assinaturas eletrônicas para pressionar editoras clientes da Resolute. “Vamos inundá-las com a mensagem da nossa campanha para que façam negócios com outras empresas, a não ser que o caso seja abandonado pela madeireira”, diz o texto da petição.

De fato, não é todo dia que, mesmo uma empresa do porte da Resolute, se dispõe a bater de frente com o aparato ambientalista e, em especial, o Greenpeace, a ONG com a maior capacidade de mobilização de apoio e midiática.

Para o Brasil, onde o Greenpeace já sofreu reveses importantes, como no caso do programa nuclear nacional, fica o exemplo para os setores produtivos que constituem os alvos costumeiros das suas insidiosas e inconsequentes campanhas. Aqui, o que não faltam são pretextos para se acionar judicialmente a “multinacional verde”, por danos morais e prejuízos reais causados em incontáveis projetos de infraestrutura e atividades produtivas, em especial, o setor madeireiro.

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