Geoglifos descobertos no Acre

Muito antes de os europeus terem chegado às Américas, em 1492, a floresta amazônica já vinha sendo transformada durante milhares de anos pelos seus habitantes, que, não raro, eram mais sofisticados do que se costumava admitir até há pouco tempo. Uma evidência disto são os geoglifos, construções circulares encontradas no Acre, como revelado por uma equipe de cientistas encabeçada pela Dra. Jennifer Watling, do Museu de Arqueologia e Etnografia da Universidade de São Paulo (USP).

Embora o propósito dessas estruturas ainda permaneça um mistério, os pesquisadores pensam que podem ter servido como locais para rituais.

Juntamente com fotos aéreas, o desmatamento moderno ajudou a revelar cerca de 450 geoglifos no Acre.

“O fato de esses locais terem ficado escondidos sob a floresta tropical madura, realmente, muda a ideia de que as florestas amazônicas são ‘ecossistemas intocados’”, afirmou a Dra. Watling.

Vista aérea de um dos 450 geoglifos encontrados no Acre (Univ. Exeter/AFP).

Como os arqueólogos descobriram pouquíssimos artefatos nos locais, a suspeita é que as estruturas – que se estendem por 13.000 quilômetros quadrados – não foram construídas para criar cidades ou por razões de defesa.

Em vez disso, eles acreditam que os humanos alteraram florestas de bambu e criaram clareiras pequenas e temporárias, “concentrando-se em espécies de árvores economicamente valiosas, como palmeiras, criando uma espécie de ‘supermercado pré-histórico’ de úteis produtos florestais”, destaca o estudo, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS, 6/02/2017).

O estudo se baseou em técnicas inovadoras usadas para reconstruir cerca de 6.000 anos de histórico da vegetação e de fogo ao redor de dois sítios contendo geoglifos.

Watling, que realizou a pesquisa enquanto estudava na Universidade de Exeter, na Grã-Bretanha, disse que as descobertas mostram que a região não foi intocada pelos humanos no passado, contrariando a crença popular.

No entanto, fazendo uma concessão à visão prevalecente sobre a alegada fragilidade dos ecossistemas amazônicos, observou: “Nossa evidência de que as florestas amazônicas foram manejadas por povos indígenas muito antes do contato com os europeus não deveria ser usada como justificativa para as formas destrutivas e insustentáveis de uso do solo praticadas hoje.”

“Deveria, ao contrário, servir para destacar a engenhosidade dos regimes de subsistência no passado que não levam à degradação florestal e a importância dos povos indígenas na descoberta de alternativas mais sustentáveis para o uso do solo”, concluiu (Amazonia.org.br, 7/02/2017).

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