Foro de Guadalajara: É preciso uma nova abordagem que valorize a dignidade do homem

O título deste artigo é constituído pelas brevíssimas palavras de um dos participantes do Foro de Guadalajara pela União dos Estados Nacionais, a Justiça Social e o Bem Comum, que refletem o resultado dos dois dias de intenso trabalho, no evento realizado na cidade mexicana, em 18-19 de outubro últimos, para discutir o tema geral “A crise mundial além do âmbito econômico financeiro; a globalização e as ameaças à dignidade do trabalho humano”. Na oportunidade, mais de 200 pessoas, incluindo mexicanos, brasileiros e europeus, de várias áreas, se reuniram para debater os desafios que a Humanidade está enfrentando na atualidade, com discussões empolgadas sobre as formas de superação da crise global atual. Um tema central recorrente nas intervenções foi a ideia de que nenhuma solução será encontrada para resolver a atual crise econômica e financeira, bem como para por fim à profunda crise espiritual, se uma nova idéia de dignidade humana, justiça social e bem comum não se tornar o novo guia moral da Humanidade.

Como ressaltaram vários expositores, o que o mundo precisa é de uma nova mudança de paradigma, uma ruptura, uma nova renascença espiritual, combinando uma ressurreição das melhores ideias da civilização europeia. Houve um forte consenso de que é chegada a hora para a formação de movimentos sociais ao redor do globo, além do estabelecimento de novas formas de cooperação entre os Estados nacionais. Outros palestrantes clamaram pela concretização da integração da América Latina, com base em grandes projetos de infraestrutura, e tendo em conta as raízes culturais comuns das nações do continente. Igualmente, foi dada uma atenção renovada ao modo como se manifesta a crise cultural mundial e aos novos parâmetros que deveriam orientar a ciência e a educação científica e cultural da juventude.

O evento, realizado na Câmara Comercial de Guadalajara, foi patrocinado pela Federação Revolucionária de Trabalhadores e Camponeses do Estado de Jalisco (CROC), a Capax Dei Editora e o Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIa). A abertura dos trabalhos foi feita pelo presidente da CROC, Dr. Antonio Álvarez, e pelo prefeito de Guadalajara, Ramiro Hernández García, e contou com a presença de autoridades estaduais, entre elas, um representante do governador do estado.

Na ocasião, o presidente da CROC destacou a profunda mudança de paradigma, com a qual o México se confronta, implicando em um rápido crescimento da violência e da delinqüência, e ressaltou que uma visão mais fundamental se faz necessária, a qual torna necessário que o crescimento econômico se dê com base em obras públicas e no desenvolvimento da economia real.

Em sua intervenção, o prefeito municipal afirmou: “Sem dúvida, a globalização nos tem oferecido desafios que não tínhamos, em condições anteriores. A globalização abriu as portas, rompeu paradigmas e impôs as novas condições, deflagrou uma corrida, a corrida pelo crescimento; mas, também, gerou uma série de contradições, que, hoje, estamos vendo manifestar-se de maneiras diferentes, no mundo inteiro. A globalização, também, nos levou à polarização em muitos sentidos, começando pelo social e o ambiental.”

Entre os participantes brasileiros, estavam o senador paranaense Roberto Requião e o engenheiro e economista Darc Costa.

O número de participantes e o interesse despertado pelo seminário constata o fermento existente em torno da imperiosa necessidade de que o México volte a mirar a América Latina, sua aliada natural. Como avaliaram Ángel Palacios e Verónica Cruz, membros da coordenação do seminário, “durante a preparação do evento, o interesse cresceu constantemente; entre as organizações sociais do país, sindicatos, profissionais, empresários, estudantes, existe uma vocação para a integração com a América Central e do Sul, que o tratado de livre comércio com os EUA e o Canadá não conseguiu extinguir, tudo nos une. Nos entendemos nos aspectos fundamentais que vinculam o Estado nacional a uma economia voltada para a moral e a uma cultura que enriqueça as nossas nações”.

Os males sociais da “Nova Economia”

Está claro, no momento atual de crise econômica e financeira internacional, que soluções “técnicas” não funcionarão, como foi enfatizado pelo coordenador-geral do Foro e presidente do MSIa, Lorenzo Carrasco, na abertura da conferência, juntamente com o secretário-geral da seção estadual das centrais sindicais CROC-FROC, Antonio Álvarez Esparza.

Nas palavras de Carrasco: “Ao enfrentarmos com um sem fim de explicações econômicas sobre a crise mundial, que se aprofunda, sem encontrar em tais exegeses um diagnóstico definitivo sobre suas causas e, consequentemente, suas possíveis terapias, temos que concluir que a esfera dos especialistas econômicos é uma torre de Babel em processo de demolição… Com elites que perderam parcialmente o controle e a capacidade de escravizar abertamente as populações, sua alternativa é a emergência de uma sociedade hobbesiana. O Leviatã de Hobbes é o símbolo do conceito de poder inspirado no Trasímaco da República de Platão; um Estado onde “poder é justiça” e a lei natural transcendental é negada.”

Por isso, afirmou, “a presente crise é mais do que econômico-financeira, sendo o mundo econômico o âmbito em que se refletem e se materializam as concepções predominantes sobre o homem e a natureza”.

Uma importante contribuição aos trabalhos foi proporcionada pelas intervenções dos líderes trabalhistas e empresários mexicanos e brasileiros. No caso mexicano, como enfatizou Antonio Álvarez Esparza, a deterioração econômica do país, nas últimas décadas, começou quando se passou a seguir os ditames da “Nova Economia”, tendo como resultado a desindustrialização, com o fechamento de mais de 1600 empresas, enquanto o PIB sofria uma redução de 40% e milhares de trabalhadores perderam os seus empregos, forçando-os a aceitar o aquecido debate sobre a reforma da legislação trabalhista. O presidente do CROC também clamou por uma mudança fundamental de paradigma, para uma nova lógica baseada em conceitos-chave da encíclica Rerum Novarum e na idéia da dignidade humana.

O líder sindical brasileiro Luiz Sérgio da Rosa Lopes, vice-presidente da Central Sindical de Profissionais (CSP), fez um apelo por uma nova era de crescimento que garanta uma educação de qualidade para a juventude. Em sua intervenção, ele fez uma referência específica à obra do presidente Getúlio Vargas, qualificando-o como o pai da nação brasileira, por ter inaugurado a era industrial no país e ter implementado as primeiras leis trabalhistas e o estado de bem estar social no Brasil. Segundo ele, apesar de o país sul-americano se encontrar atualmente sob ataque do neoliberalismo, o Brasil deve transmitir uma “visão otimista” para o mundo e engajar a sua população na luta por mais justiça social, nas ruas e no Congresso.

O senador e ex-governador do Paraná, Roberto Requião, aprofundou no seu pronunciamento a ideia de “mudança de paradigma”. De acordo com o parlamentar, estamos vivendo em um “tempo de crises”, em que a Humanidade começa a se “rebelar e a exigir justiça”. O que se faz necessário é um “partido da crise”, da mesma forma em que isto foi necessário, na década de 1930, quando Vargas mudou o Brasil, ao dar início a um vigoroso processo de industrialização. Requião enfatizou que a crise não será resolvida apenas com palavras de ordem e boas intenções, mas somente por meio de uma verdadeira ruptura. Ao mesmo tempo, fez um chamado por uma maior cooperação econômica entre o Brasil e o México, bem como pela ampliação da cooperação do Brasil com outros países do planeta. Para o senador, não haverá futuro para a América Latina se as nações da região não concretizarem uma efetiva “América Latina Unida” – daí a necessidade de que os povos do continente acordem e reúnam a criatividade dos patriotas brasileiros e mexicanos em todas as esferas da vida.

Por sua vez, Anno Hellenbroich, correspondente deste sítio em Wiesbaden, Alemanha, lançou um olhar sobre a situação atual do mundo sob o ponto de vista europeu, destacando que o conceito de “transcendência do homem” é a chave para definir a natureza essencial do homem na sociedade em crise. Assim como a reunificação da Alemanha demonstrou, há mais de duas décadas, grandes mudanças para o bem também necessitam de muito tempo para superar as “dores da mudança”. Dado o crescente descontentamento com relação à crise europeia, teremos que aceitar uma “Europa Socrática”, onde, na medida em que mais respostas sejam apresentadas, surgem mais perguntas. De fato, disse, não existe a decisão política “sem alternativas”.

Reforma financeira global

Tal como foi delineado pela economista mexicana Marivilia Carrasco, dirigente do MSIa, a nova ordem financeira requer uma visão diferenciada sobre a “economia visível e a que não se pode ver”, a qual tem levado à criação de uma gigantesca “bolha especulativa”. Ela abordou o tema do credito nacional em contraposição ao sistema supranacional, que sustenta a globalização financeira.

À luz de tais observações, o general mexicano Robert Badillo, autor do livro Os responsáveis pelas crises financeiras contemporâneas e suas origens (Capax Dei, 2012) destacou a necessidade de adoção de novas “regras éticas” e uma “regulamentação dos bancos”. Ele mostrou que o México, no atual curso da crise, tem perdido as suas reservas de petróleo para os Estados Unidos, e que o país latino-americano têm sido atacado ideológica, econômica e mesmo militarmente pelo seu vizinho do Norte. Daí a necessidade de reaver a sua soberania nacional e de criar uma economia que – tal como Carrasco definiu – seja baseada em um “conceito de crédito, que seja concebido como um instrumento para criar desenvolvimento econômico e industrial”, ao mesmo tempo em que os bancos centrais devem passar a agir de maneira soberana. Um exemplo ilustrativo de como isto poderia ser feito foi a decisão do então presidente mexicano José López Portillo, que, em 1982, sob ataque do Fundo Monetário Internacional (FMI), nacionalizou o sistema bancário e recuperou para o Estado a soberania sobre o crédito e a moeda.

O economista e jornalista italiano Paolo Raimondi, correspondente deste sítio em Roma, falou sobre a necessidade de se “reintroduzir, em âmbito internacional, a Lei Glass-Steagal”, que foi promulgada nos EUA em 1933, impondo uma separação entre bancos comerciais e bancos de investimento e logrando restringir a especulação dos bancos de crédito. A reintrodução de tal princípio de separação no sistema bancário pode se tornar o ponto de partida para uma reforma financeira global, de modo a definir novas regras para recolocar as finanças na condição de exercer a sua mais importante função, a criação de crédito e de outros mecanismos para dar suporte ao crescimento econômico e ao real desenvolvimento e modernização das economias.

Retorno à escola “personalista” de pensamento

Não haverá nenhuma mudança nas estruturas financeiras existentes, nem uma recuperação da economia mundial, a menos que a Europa, que se encontra confrontada por uma enorme crise, concretize a idéia dos “Estados Unidos da Europa”, uma união política baseada em um conjunto de valores. Em um painel dedicado à questão, sob o título “A missão da Europa, em defesa da dignidade humana e da justiça social”, o ex-senador italiano Guido Folloni caracterizou a crise atual como o “fim de uma época”, em que até mesmo o pensamento “utilitarista” se encontra ameaçado. Segundo ele, a crise financeira é apenas a ponta do iceberg, que revela uma muito mais profunda crise de pensamento, de valores e de moralidade.

Uma mudança de paradigma requer o retorno à escola de pensamento “personalista”. Esta inclui os direitos da pessoa e a apreciação das comunidades humanas, com a família exercendo um papel-chave neste sentido – de modo que o Estado-nação tem a sua origem na “pessoa”, no ser humano. A partir de um ponto de vista cristão, a pessoa sublinha o caráter único e singular de cada indivíduo para a Humanidade. O escritor romano Severino Boécio (480-524) já elaborava tal idéia, ao afirmar que a pessoa é uma “substância individual e incomunicável da natureza racional”.

Essa é, essencialmente, a idéia da autotranscendência, que pavimenta o caminho para conhecer “o outro”, como destacou o teólogo Romano Guardini, ao afirmar que “a pessoa significa os meios em que eu, no meu ser, e com todas as coisas consideradas, não posso ser propriedade de outro ser, desde quando eu pertenço a mim mesmo”. Folloni se referiu à constituição dos Estados modernos, os quais se focam nos “valores absolutos da pessoa”, proclamando os seus direitos e reconhecendo a igualdade entre todos os seres, independentemente da sua origem étnica, cor, gênero, língua, religião, opinião política ou de qualquer outro tipo, ainda que relacionada a alguma condição social, de riqueza, de origem ou de qualquer outro tipo. Por sua vez, a geração de 1968 levou ao poder um “individualismo radical”, colocando a Humanidade em uma perspectiva guiada pelo hedonismo, a qual nega o caráter “transcendental da natureza humana”. Hoje, a crise oferece uma nova oportunidade de mudar tal tendência. Para Folloni, a escola europeia de pensamento pode oferecer uma nova definição de civilização como base para a geopolítica de um mundo renovado e aberto.

A memória cultural coletiva

No Foro, esta autora discorreu sobre a ideia da dignidade humana, a qual constitui um leitmotiv nos 2000 anos da história da civilização europeia, a qual, por sua vez, é produto das culturas greco-romana e judaico-cristã. No decorrer da história europeia, diversas catástrofes ocorridas formaram o que pode ser chamado “uma memória cultural coletiva européia”. Um exemplo é a Peste Negra do século XIV, à qual poetas, escritores e pintores da época responderam com o Renascimento, e focalizando a sua atenção nos papeis singulares do indivíduo na História e nos seus potenciais criativos únicos.

Os trinta anos de guerras religiosas, que se estenderam entre 1618 e 1648, foram uma catástrofe similar, a qual deixou marcas na memória cultural coletiva. Poucas décadas depois, o filósofo alemão Gottfried W. Leibniz, com base nos seus escritos sobre filosofia e economia, estabeleceu uma nova base para uma renovação da economia europeia, assim como introduziu, pela primeira vez, uma “perspectiva eurasiática” para a Europa, a qual incluía a Rússia e a China.
Importância similar tiveram os esforços do período posterior à Segunda Guerra Mundial (1939-1945), incluindo os pais da Constituição Alemã de 1949, que, em resposta aos horrores da guerra, colocaram no centro do documento a “dignidade humana” e os seus direitos inalienáveis, da mesma forma como também se refletiram na Declaração dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU). Esforços análogos foram realizados pelos fundadores da Europa moderna: o chanceler alemão Konrad Adenauer, o presidente francês Charles de Gaulle e o diplomata italiano Alcide de Gasperi, bem como os demais fundadores do Mercado Comum Europeu, com o objetivo principal de realizar uma união política da Europa – desafio que, a despeito da profunda crise que a Europa enfrenta, não está perdido nos dias de hoje.

Em sua exposição, o padre Francisco de Miranda, um franciscano mexicano especializado na obra do evangelizador espanhol Vasco de Quiroga, destacou que o maior presente dado pela Europa, há cinco séculos, foi o Novo Mundo. O próprio Vasco de Quiroga, já com idade avançada, se incumbiu de ir ao Novo Mundo, no ano de 1536, onde assumiu o posto de bispo na então recém-inaugurada diocese de Michoacan, no México, onde exerceu um papel central na história da evangelização do México. O seu objetivo era construir uma sociedade de acordo com a Utopia de Thomas More, e um dos aspectos do seu projeto era a criação do hospital de Santa Fé, bem como escrever um tratado sobre “integridade, liberdade e desenvolvimento”. No seu livro Utopia, Quiroga enfocou o tema da dignidade humana, reafirmando que todos os homens são iguais. Além disto, aspirou a obter a liberdade para todos os indígenas e escravos, bem como o desenvolvimento integral da pessoa, o estabelecimento de uma verdadeira sociedade cristã, concebendo a futura América Latina como uma “doação de um dos melhores aspectos da Europa”. Segundo Miranda, por tais motivos, ele é considerado pela Organização das Nações Unidos para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) como um homem que pertence a toda a Humanidade.

A América Latina – como ficou claro nos trabalhos – não é apenas um dos continentes mais ricos do mundo em termos de recursos naturais e humanos, mas também pode ser um ponto de partida para um novo impulso de desenvolvimento de toda a Humanidade. Nas últimas décadas, um ataque sistemático tem sido conduzido contra os trabalhadores e a indústria no México. Com a entrada em vigor do NAFTA (Tratado de Livre Comércio da América do Norte, firmado pelo México, EUA e Canadá), o país latino-americano começou a se tornar progressivamente mais “americanizado”, perdendo a soberania sobre os portos, aeroportos e recursos minerais, além de se empobrecer cada vez mais, atingindo a marca de 60% de sua população vivendo sob a linha da pobreza. Esta situação foi apresentada no Foro pelo empresário mexicano Manuel Villagomes, que defendeu uma revisão do NAFTA, de modo a possibilitar uma melhor cooperação economia com a América Latina.

O renascimento da energia nuclear e um novo paradigma ecológico

No painel dedicado ao tema energético, o engenheiro químico mexicano Cícero Rafael Basurto, diretor do Sindicato Único da Indústria Nuclear (SUTIN), ao lado do engenheiro brasileiro Roberto Cardoso Travassos, Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN), do geólogo brasileiro e diretor do MSIa Geraldo Luís Lino, e do astrobiólogo mexicano Omar Pensado Díaz, ilustraram de diferentes formas os desafios da expansão da oferta de energia e de uma reorientação das políticas científicas no continente.

Rafael Basurto apresentou um panorama da energia nuclear no México. Seu colega brasileiro fez o mesmo sobre o programa nuclear de seu país. Segundo Travassos, o mundo se encontra, atualmente, na quarta geração de tecnologia de reatores nucleares, na qual se baseia o presente “renascimento da energia nuclear” que ocorre em todo o mundo. Ele destacou que o Brasil detém uma reserva de urânio com cerca de 300.000 toneladas, número que tende a crescer nos próximos anos, na medida em que somente 30% do território brasileiro foram devidamente prospectados em busca de minérios radioativos até o momento, mas que já situa o país como um dos maiores detentores de recursos uraníferos no planeta.

Lino e Pensado Díaz discorreram sobre as verdadeiras e falsas emergências mundiais e a necessidade de adoção de um “novo paradigma ecológico”, agenda que inclui a rejeição à fraude do aquecimento global antropogênico na formulação das políticas públicas, bem como a necessidade de se iniciarem pesquisas sobre novas tecnologias energéticas, que abram caminho para uma revolução no setor, como as chamadas Reações Nucleares de Baixa Energia (antes conhecida como “fusão a frio”) e a exploração da energia do vácuo quântico. Uma forma diferente de se combater a fome e a pobreza no mundo foi apresentada por Pensado Díaz, que dirige o Instituto de Pesquisas Avançadas da Universidade Popular de Vera Cruz, onde desenvolve estudos sobre o conceito de “terraformação” (terraforming, em inglês) para a colonização de planetas como Marte, com a criação de uma biosfera no planeta vizinho.

Integração latino-americana

O presidente da Federação das Câmaras de Comércio e Indústria da América do Sul, Darc Costa, fez uma descrição atualizada do seu livro América do Sul: Integração e Infraestrutura (Capax Dei, 2011), cuja edição em espanhol foi lançada no Foro. Ele destacou que, enquanto a América Latina representa somente 4% do comércio mundial, a região tem um poder de compra de mais de 4 trilhões de dólares – superior, portanto, ao do Japão. Além disto, o continente é autossuficiente em alimentos e o Brasil sozinho representa 55% do PIB da região. Portanto, a estratégia de integração da América Latina deve ser baseada na consideração de fatores demográficos e geográficos e no desenvolvimento industrial, que provoca importantes transformações na força de trabalho e estimula uma maior integração dos setores produtivos entre países vizinhos. A integração física do continente requer a construção de redes de ferrovias funcionais interligando todos os países, bem como de uma malha continental de gasodutos e oleodutos e o desenvolvimento de hidrovias em áreas como a do rio Orinoco (que se estende da Venezuela à Colômbia e se conecta com o rio Negro, que percorre grande parte da Amazônia brasileira). Costa fez, também, duras críticas aos Estados Unidos, por fazer tudo o possível para bloquear a integração da América Latina, e ao NAFTA, por colocar a economia mexicana em uma crise profunda.

A cultura que cria nações

A necessidade de uma “mudança de paradigma” também tem implicações culturais, pois envolve a luta contra a mudança de paradigma artificialmente induzida pela ação das fundações Rockefeller e Ford, na década de 1960. Como delineou a jornalista e diretora do MSIa, Silvia Palacios, as duas entidades, que contaram com a ajuda de diversas organizações não governamentais (ONGs), foram as grandes responsáveis pela difusão em grande escala da contracultura e do “sexo, drogas e rock”, bem como pela introdução de programas educacionais baseados em ideologias de gênero e multiculturalistas e em ideias inspiradas no malthusianismo.

Palacios questionou se a proposta de vida do multiculturalismo é uma alternativa para reavivar as nossas nações, ou se é uma imposição dos setores dominantes para consolidar as estruturas de poder mundial, apoiadas em uma vaga e frágil subjetividade do homem. Segundo ela, o programa da contracultura foi paulatinamente escalando a cúpula de poder, até se converter em ações governamentais definidas e, ao mesmo tempo, impregnar alguns dos organismos da ONU. “Cultura significa cultivar, mas a pergunta é: o que se cultiva?”, disse. E concluiu definindo que a cultura está vinculada à transcendência da Nação e da Pátria, subordinada ao respeito dos direitos inalienáveis do homem – esta é a métrica com a qual se deve medir toda manifestação cultural boa e verdadeira.

Para a professora do Instituto de Educação da Cidade do México, Paola Leoni, a única forma de mudar tal estado de coisas é com o estabelecimento de um novo tipo de educação. Em sua exposição, ela fez referência ao trabalho do intelectual mexicano José Vasconcelos, que previu a criação de um novo homem, nascido de todos os grupos étnicos, cuja missão é harmonizar o mundo. Ao mesmo tempo, é necessário combater o sentimento de vazio e a inclinação de muitos jovens no México em cometer suicídio, dada a má situação econômica do país e a ausência de uma perspectiva de futuro.

A beleza artística é a chave para a educação

O Dr. Gildo Magalhães, professor de História da Ciência da Universidade de São Paulo (USP) e Anno Hellenbroich falaram sobre os intensos debates que ocorrem nas comunidades científica e musical, em todo o mundo. Magalhães observou que a cultura da ciência necessita de “um retorno a uma nova metafísica”, tal como demonstrado por Galileu Galilei e Nicolau de Cusa , que estabeleceram que “a natureza está escrita em caracteres matemáticos e que Deus trabalha matematicamente”. Portanto, o Universo não é aleatório, mas, de fato, segue uma razão, tal como Gottfried Leibniz demonstrou no seu famoso experimento de refração e reflexão da luz, que segue o caminho do menor quantum positivo de energia – daí a sua famosa frase de que Deus criou o melhor de todos os mundos. Muitos cientistas rejeitam tal abordagem, mas o Universo, efetivamente, segue um caminho racional, tornando-se cada vez mais complexo, e o homem, sendo parte da esfera social, é capaz de otimizá-lo, enfatizou.

Um debate similar se observa no mundo musical. Sobre esse aspecto da música, Hellenbroich se referiu ao diálogo sobre a beleza artística, mantido pelo Papa Bento XVI, ao reunir um seleto grupo de renomados artistas de todo o mundo, em um evento realizado em 2009. “Vocês são os ‘guardiães da beleza’ e os ‘arautos da esperança para a Humanidade'”, afirmou o Pontífice, na ocasião. Hellenbroich descreveu o atual debate entre os artistas, muitos dos quais se recusam a aceitar a ideia de que a beleza é divina e constitui uma expressão da natureza transcendental do ser humano.

Para ilustrar os desafios na música e na arte, ele escolheu as Variações Diabelli, Opus 120, o último trabalho de Beethoven para o piano, que foram compostas em paralelo com a sua Missa Solemnis e as últimas três sonatas para piano. Nas Variações Diabelli, Beethoven – tal como em um testamento – demonstrou o princípio da obra criativa exemplificada pelas “variações” de um determinado tema musical, mesmo que banal. A noção de variação implica em que há uma “crescente multiplicidade na unidade” (na medida em que há crescentes complexidades no Universo). Para Beethoven, a busca da transcendência na musica foi um dos maiores impulsos proporcionados pela sua extraordinária obra. Hellenbroich apresentou quatro variações, de modo a transmitir um pouco da centelha de Beethoven para o público presente.

O maestro mexicano Alfredo Mendoza, diretor do instituto Schola Cantorum, enviou uma calorosa saudação à conferência, ressaltando que, neste momento, temos o dever de ser, mais do que nunca, verdadeiros cidadãos do mundo, que se preocupam em observar pontos de concordância universal entre as diversas culturas religiosas e políticas dos povos do mundo. Para o músico, precisamos engajar-nos em tarefas comuns que exigem a nossa solidariedade, bem como completar as grandes tarefas que temos diante de nós, hoje e futuramente, que darão aos nossos filhos, bem como a todas as gerações futuras, um amanhã dignificado, que esteja de acordo com as representações de São Paulo: justiça, paz e alegria.

Os trabalhos foram encerrados com uma bela apresentação do conjunto Ars Antiqua, que executou peças musicais dos séculos XV ao XVIII, em réplicas de instrumentos musicais típicos da era colonial, de modo a ilustrar a herança da evangelização do Novo Mundo.

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