Febre amarela, retrato da tragédia do subdesenvolvimento

Mais de um século após a obra de erradicação pioneira de Oswaldo Cruz, a febre amarela volta a assombrar o Brasil urbano, com um surto que ameaça converter-se numa perigosa epidemia. Para complicar o quadro, o País encontra-se particularmente vulnerável à ameaça, com a combinação de deficiências históricas de infraestrutura de saneamento básico, infestação pelo mosquito Aedes aegypti e a gravíssima crise político-econômico-financeira, que dificulta sobremaneira uma resposta efetiva ao desafio.

Apesar de erradicada nas áreas urbanas, onde o último caso fora registrado em 1942, a febre amarela silvestre continua endêmica nas áreas rurais de grande parte do território nacional (a vacinação é recomendada para a população de 18 estados e do Distrito Federal), mas o surto atual mostra uma virulência incomum, com uma impressionante taxa de expansão e índice de letalidade.

Os primeiros registros foram feitos no início do ano, em Minas Gerais. Até agora, as autoridades estaduais notificaram 84 casos confirmados, 383 ainda em análise e nada menos que 40 mortes. Outros três óbitos ocorreram em São Paulo, um deles de um homem que havia viajado a Minas Gerais. Cerca de 40 casos suspeitos estão sendo analisados, no Espírito Santo (onde nunca havia sido registrada qualquer ocorrência), Bahia, Mato Grosso do Sul e Goiás. O grande temor das autoridades de saúde é que o surto se alastre pelo Sudeste, onde a proporção da população vacinada é bastante reduzida, e que o vírus passe a ser transmitido pelo Aedes aegypti, que infesta a maioria das cidades da região (na zona rural, os transmissores são os gêneros Haemagogus e Sabethes).

“Há muitas décadas o País não enfrentava nada assim. Desde os anos 30 não se via nada igual. O alerta está dado. A febre amarela se adaptou aos novos tempos. Somos um caldeirão para emergência de doenças. O Brasil tem muita gente, muito mosquito e suscetibilidade. Logo, mais que qualquer país, precisa se antecipar. Vigiar o tempo todo”, adverte o presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, Maurício Lacerda Nogueira Nogueira, especialista em febre amarela e professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (SP) (O Globo, 25/01/2017).

“A presença do mosquito Aedes aegypti em grande parte dos municípios brasileiros representa uma grande possibilidade de o vírus se reurbanizar novamente no País. Dessa forma, as políticas de combate e erradicação do Aedes aegypti no Brasil, além de prevenirem as doenças como dengue, zika, e chicungunha, também são importantes para impedir que a febre amarela se faça presente nas cidades”, alerta o Dr. Jessé Reis, infectologista do laboratório Delboni Medicina Diagnóstica (Gazeta Esportiva, 27/01/2017).

Para Marcos Cueto, historiador da Casa de Oswaldo Cruz, a nova ameaça é uma tragédia anunciada. “Na história das epidemias do século XXI, muitas vezes a dengue antecede a febre amarela. Mas aqui as lições da História não são levadas em conta”, diz ele, que também é editor científico da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos (Notícias Terra, 21/01/2017).

Ele recorda que, no início do século XX, o médico sanitarista Oswaldo Cruz conseguiu erradicar as recorrentes epidemias de febre amarela em várias cidades do País, com vigorosas campanhas de ataque aos focos do Aedes aegypti. Em 1907, a doença foi considerada erradicada no Rio de Janeiro. Em 1910, uma campanha de apenas dez meses conseguiu a mesma façanha em Belém (a vacina só seria inventada em 1937).

Entretanto, desde então, “os controles foram ficando cada vez mais relaxados (e por essa mesma razão houve um aumento da dengue e do zika). Não houve uma política de vacinação entre a população urbana e o número de moradores das cidades só aumentou”, afirma. As cidades cresceram de forma desordenada e as áreas mais pobres e sem saneamento são os maiores focos de proliferação do mosquito. No caso de novos surtos da doença, são justamente as parcelas menos favorecidas da população que mais sofrerão com o problema.

Para Cueto, porém, o controle dos vetores é insuficiente: “Temos que resolver os problemas de água, moradia e pobreza que fazem com que existam muitos reservatórios nas favelas. E além disso, temos que resolver o problema da criminalidade nas favelas, que impede o trabalho de sanitaristas no controle dos reservatórios e na educação higiênica.”

O próprio Cueto observa que a obra de Oswaldo Cruz não é mais um modelo a ser copiado, mas um exemplo de liderança – devidamente apoiada pela vontade política do governo Rodrigues Alves (1902-1906), que lhe conferiu carta branca e recursos para resolver o problema. “Agora existem novos desafios, temos problemas novos, precisamos de respostas mais complexas. Precisamos resolver a questão da pobreza urbana e fazer com que a vacina seja acessível para todos”, diz ele.

Mata-mosquitos da campanha contra o Aedes aegypti, no Rio de Janeiro (1904-1907).

O retorno do Aedes aegypti, na década de 1980, depois de ter sido considerado erradicado em 1955, é uma demonstração cabal do descaso nacional com políticas de longo prazo. Em 2016, o mosquito, cuja proliferação é facilitada pela vasta rede de esgotos a céu aberto característica de muitas cidades brasileiras, infectou quase 2 milhões de pessoas, provocando 794 mortes, entre vítimas de dengue, chicungunha e zika. Esta última, apesar da baixa letalidade (apenas seis casos), apresenta outra consequência trágica, a microcefalia, que atingiu 2.100 bebês de gestantes infectadas, além de poder provocar meningite, encefalite e Síndrome de Guillain-Barré, paralisia que pode afetar todos os músculos do corpo.

O retorno do inseto não surpreende, quando se observa que menos da metade da população brasileira tem acesso a redes de coleta de esgoto e menos de um terço, a algum tipo de tratamento dos efluentes. São mais de 100 milhões de pessoas expostas diariamente a uma coleção de doenças, inclusive diarreia, tifo, cólera, hepatite e leptospirose. Entre 200 países, o Brasil ocupa a 112ª posição no ranking mundial de saneamento básico (El País, (24/01/2017).

Em síntese, um retrato retocado do subdesenvolvimento nacional.

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