EUA, república bananeira?

Em sua recente participação na 13ª reunião anual do Clube de Discussões de Valdai, no final de outubro, o presidente Vladimir Putin se referiu jocosamente às alegações que já circulavam sobre uma suposta ingerência russa nas eleições presidenciais estadunidenses, que ocorreriam menos de duas semanas depois. “Alguém pensa seriamente que a Rússia pode, de alguma maneira, influenciar a escolha do povo estadunidense? Os EUA são algum tipo de república de bananas? Os EUA são um grande Estado. Por favor, me corrijam se eu estiver errado”, disse ele (RT, 27/10/2016).

Agora, setores do Establishment oligárquico estadunidense engasgados com a vitória eleitoral de Donald Trump estão ativamente empenhados em converter em realidade a ironia de Putin, com uma ostensiva e virulenta campanha para impedir que o presidente eleito seja empossado na Casa Branca, em 20 de janeiro próximo.

A primeira tentativa foi deslanchada horas após a confirmação do triunfo de Trump, com uma sequência de manifestações rapidamente articuladas pelas redes de organizações do megaespeculador George Soros, um dos principais patrocinadores da campanha derrotada de Hillary Clinton (Resenha Estratégica, 16/11/2016). Apesar de ter conseguido realizar protestos em várias cidades importantes, com uma vasta propaganda midiática, o “Outono Americano” não logrou sucesso e as manifestações desapareceram tão rapidamente como surgiram.

Em seguida, entrou em cena a candidata do Partido Verde, Jill Stein (que recebeu 1% dos votos na eleição de 8 de novembro), pedindo uma recontagem dos votos em Wisconsin, Michigan e Pensilvânia, sob a alegação de uma suposta interferência eletrônica externa no sistema de apuração dos votos, em benefício de Trump (apesar de o estado usar cédulas de papel no processo). Em Wisconsin, a recontagem foi aprovada e confirmou o resultado anterior (em verdade, foram registrados mais 131 votos em Trump), mas a justiça federal negou o processo nos outros dois estados (The Guardian, 13/12/2016).

Curiosamente, Stein conseguiu uma façanha ao levantar em poucos dias os fundos necessários para os pedidos de recontagem; de fato, em 24 horas ela conseguiu mais doações à iniciativa do que para toda a sua campanha presidencial, levantando bem fundadas suspeitas de que por trás dela estivesse – ele mesmo, George Soros! (Investment Watch Blog, 25/11/2016, Truthfeed.com, 3/12/2016 e YourNewsWire.com, 26/11/2016).

Em paralelo com a recontagem, o núcleo duro do Establishment recuperou a balela da “interferência” russa no processo eleitoral. A trama envolveria supostos hackers a soldo do Kremlin, que teriam vazado ao sítio Wikileaks e-mails da liderança do Partido Democrata e de assessores de Hillary, com o intuito de ajudar Trump, em virtude de sua notória simpatia por Putin. Na sexta-feira 9 de dezembro, tanto o Washington Post como o New York Times publicaram bombásticas reportagens sobre uma “avaliação da comunidade de inteligência” estadunidense, segundo a qual havia evidências sólidas sobre a interferência russa. Sem surpresa, porém, as reportagens se limitam a reproduzir declarações de funcionários não identificados da Agência Central de Inteligência (CIA), que teriam informado um grupo seleto de senadores sobre a trama sinistra do Kremlin. Nas conversas, porém, tais funcionários admitiam que não tinham como provar a participação do governo russo nos vazamentos, apenas que, no passado, Moscou utilizou intermediários em operações do gênero.

Um veterano ex-agente de campo da CIA, Robert Baer, assumiu o papel de virtual relações públicas da campanha, pedindo “uma nova eleição”, se as evidências confirmarem as acusações da agência (Antiwar.com, 12/12/2016).
Nos dias seguintes, porém, o alegado “consenso” das agências estadunidenses sobre o assunto se mostrou menos “consensual”, pois tanto o FBI como o escritório do Diretor Nacional de Inteligência (DNI), que, oficialmente, representa a visão das 17 agências de inteligência do país, se negaram a confirmar os relatos atribuídos à CIA (Zero Hedge, 12/12/2016).

Ademais, o diretor do Wikileaks, Julian Assange, afirmou que a fonte dos vazamentos foi um insider da campanha de Hillary, e não agentes russos. Seu relato foi confirmado pelo ex-diplomata britânico Craig Murray, um associado de Assange e profundo conhecedor das tramoias do Establishment anglo-americano, que alegou conhecer pessoalmente a fonte. “Isso é bobagem”, disse ele. “Eu sei que vazou [os e-mails]. Eu me reuni com a pessoa que os vazou e, certamente, não são os russos, é um insider. É um vazamento, não um hackeamento; são duas coisas diferentes.”

Segundo ele, “se o que a CIA está dizendo fosse verdade, e a declaração da CIA se refere a pessoas que se sabem ser ligadas ao Estado russo, eles teriam prendido alguém se fosse alguém dentro dos EUA. Os EUA não têm sido tímidos em prender delatores e em extraditar hackers. Eles, simplesmente, não têm qualquer conhecimento (The Guardian, 10/12/2016).”

Em uma entrevista ao Washington Blog, antes mesmo das eleições, o ex-diretor técnico da Agência de Segurança Nacional (NSA), William Binney, considerado um dos maiores especialistas estadunidenses em inteligência eletrônica, fez um cáustico comentário sobre as acusações:

Se os idiotas na comunidade de inteligência esperam que acreditemos neles depois de toda aquela besteira que nos disseram [sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque e a inexistência de uma rede de coleta de informações de cidadãos estadunidenses], então, eles precisam apresentar provas claras do que dizem. Até agora, não conseguiram provar nada. O que sugere que não têm provas e querem apenas criar um clima de guerra no público estadunidense, para uma segunda Guerra Fria com os russos. Afinal de contas, há montes de dinheiro em jogo para o complexo de relações incestuosas militar-industrial-inteligência-governamental (Washington Blog, 24/10/2016).

Binney se tornou um dos principais críticos públicos das atividades da NSA dentro dos próprios EUA, antes mesmo de Edward Snowden, embora as suas denúncias não tenham tido a mesma repercussão.

Até mesmo a Casa Branca entrou no esquema, tendo o presidente Barack Obama determinado a elaboração de um relatório detalhado sobre a alegada interferência russa, a ser concluído – mas não publicamente divulgado – antes do final do seu mandato – ou seja, referendando indiretamente as acusações.

“Foi o presidente eleito que se recusou a demonstrar as suas conexões financeiras com a Rússia. Foi o presidente eleito que nomeou um chefe de campanha com laços financeiros pessoais extensos e lucrativos com a Rússia. Foi o presidente eleito que teve um assessor de segurança nacional na campanha, que foi um colaborador pago da RT, o canal de propaganda russo”, acusou o secretário de imprensa da Casa Branca, Josh Earnest (RT, 13/12/2016).

Para o editor da revista Defense & Foreign Affairs, Gregory R. Copley, “a Casa Branca está fazendo uma coisa quase sem precedentes na história presidencial e na história das transições dos EUA. Ela está tentando se esforçar ao máximo para desacreditar um novo governo. O que é notável é a maneira tão suave como o presidente eleito Trump está respondendo a isso – não está reagindo à natureza incrível e insultuosa dos ataques contra ele e sobre as tentativas de caluniá-lo com as alegações de ajuda estrangeira na sua vitória eleitoral”.

Peter van Buren, um ex-alto funcionário do Departamento de Estado, se disse assustado com os fatos:

Nós estamos vendo pessoas importantes sérias nos EUA, que estão procurando anular uma eleição. As pessoas votaram, 62 milhões de pessoas votaram em Donald Trump, a maioria dos votos eleitorais sob o sistema que os EUA têm tido durante mais de 200 anos. As pessoas estão insatisfeitas com esse resultado e estão procurando passar por cima dele. Houve esforços de recontagem: não funcionaram. Há cientistas políticos argumentando que deveríamos adiar [a votação no] o Colégio Eleitoral [em 19 de dezembro] ou tentar manipulá-la, de modo que os delegados façam algo que nunca foi feito na história dos EUA [transferirem os seus votos ao candidato do outro partido]. E, tudo isso falhando, vamos culpar uma potência estrangeira por influenciar a nossa eleição e usar isto como uma ferramenta para passar por cima do processo democrático e mudar uma eleição numa nação democrática. Isso me deixa assustado.

Por sua vez, Trump parece disposto a comprar a briga. Logo após a publicação das reportagens, ele qualificou como “ridículas” as acusações da CIA, tendo um porta-voz da sua equipe de transição afirmado que “essa é a mesma gente que nos disse que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa”. Além disso, ele já afirmou publicamente que pretende converter em semanais os briefings que a agência transmitia diariamente aos seus antecessores, alegando não precisar de “ouvir as mesmas coisas todos os dias”.

A agressividade da investida contra Trump denota as divisões internas do Establishment e sugere que os seus setores mais radicais, que consideram ter muito a perder com o reposicionamento estratégico prometido pelo presidente eleito, principalmente, nas relações com a Rússia, não estão dispostos a aceitar passivamente a derrota eleitoral. Por isso, conhecedor da tradição da CIA de não se deter diante de nada que se oponha à sua agenda, Trump está se cercando de altos oficiais militares afinados com as suas posições, para postos chave, como o Pentágono (James Mattis), o Departamento de Segurança Interna (John Kelly) e o Conselho de Segurança Nacional (Michael Flynn).

Flynn, alegadamente, teria a seu cargo uma ampla reformulação do aparato de inteligência estadunidense. Se fizer isso, Trump será o primeiro presidente, desde John Kennedy, a se atrever a contrariar o núcleo de interesses representados na CIA. Para tanto, terá que tomar todas as precauções, para não acabar como o seu infortunado antecessor, alvo de uma trama semelhante às que tais grupos praticavam em países que rotulavam depreciativamente como repúblicas bananeiras.

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