Embrapa: vegetação nativa preservada ocupa 61% do território nacional

Em um momento em que a proteção do meio ambiente é considerada como fator fundamental da formulação das políticas públicas, deveria receber grande destaque a notícia de que nada menos que 61% do território brasileiro ainda são cobertos por vegetação nativa preservada. No entanto, se o leitor fizer uma pesquisa com o Google ou qualquer outra ferramenta de busca, encontrará uma nota no portal G1 e pouca coisa mais. Nos sítios de ONGs como o Instituto Socioambiental (ISA), WWF-Brasil, Greenpeace Brasil, Conservação Internacional Brasil, SOS Mata Atlântica e outras que integram o primeiro time do aparato ambientalista – e, em tese, deveriam regozijar-se com a boa nova –, silêncio total (no sítio do ISA, algumas notas tinham como títulos, “Amazônia esquartejada”, “Direito à terra e meio ambiente ameaçados: democracia em risco”, “Avança destruição do rio Xingu” e outras do gênero).

A rigor, a reportagem do jornalista Anderson Viegas foi publicada apenas na seção de Mato Grosso do Sul do G1, em 27 de janeiro, não recebendo o devido destaque nem mesmo na página principal do portal das Organizações Globo. Recorramos, então, a ela, para conhecer mais detalhes sobre essa notícia alvissareira, que vai na contramão do discurso catastrofista empregado habitualmente pelos ambientalistas.

O número foi apresentado pelo ecólogo Evaristo Eduardo de Miranda, coordenador do Grupo de Inteligência Territorial Estratégica (GITE) da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em uma palestra na abertura oficial da colheita da soja, em Ponta Porã (MS). Segundo ele, a área preservada corresponde a cerca de 519 milhões dos 850 milhões de hectares do território brasileiro, sendo 11% de áreas de vegetação nativa em propriedades rurais (reserva legal e áreas de proteção permanente), 17% de vegetação nativa em unidades de conservação, 13% são de vegetação nativa em terras indígenas e 20% de vegetação nativa em terras devolutas, relevos, águas interiores etc.

Esses dados foram atualizados até o final de 2016 pela Embrapa, com base em informações próprias e de outros órgãos do Poder Público e entidades da iniciativa privada, como Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Ministério do Meio Ambiente, Fundação Nacional do Índio (Funai), Agência Nacional das Águas (ANA) e Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão (MPOG).

Os demais 39% do território brasileiro estão distribuídos entre: lavouras e florestas plantadas – 8%; pastagens – 19,7%; e cidades, macrologística, infraestrutura, mineradoras e outras ocupações – 11,3% (vide o gráfico abaixo).

“Nestes 8% de áreas cultivadas, está toda a cana-de-açúcar, toda o reflorestamento, os grãos, a citricultura, enfim, tudo o que plantamos. Essa agricultura deste tamanho, que preocupa o mundo e que faz um monte de coisa utiliza somente 8% do território brasileiro, imaginem se utilizasse 20%, o que também não seria nada, comparando com outros países, imaginem o tamanho que poderia ser esse setor”, disse Miranda.

“Esses dados estão sendo apresentados pelo ministro (da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) Blairo Maggi, nos eventos que ele vai no exterior como o ‘Green Card’ da agricultura brasileira. Quando se vai discutir sobre agricultura e preservação ambiental em outros países, questionamos como está a situação daquela nação em relação a esses aspectos. Eles têm os dados é só apresentarem para compararmos”, desafiou.

Igualmente, Miranda observou que os produtores rurais brasileiros trabalham com base em uma das mais rigorosas e restritivas leis ambientais do mundo, citando como exemplo as margens de rios, que na legislação brasileira são definidas como áreas de proteção permanente (APPs), onde é proibido o cultivo.

“Esse é um trabalho que a Embrapa fez quando ainda estava se discutindo o Código Florestal. Em El Salvador, as áreas de margens de rios são totalmente ocupadas por pequenos e grandes produtores. Na Costa Rica, tudo é ocupado com culturas e banana. No México, nas margens do rio Papaloapan, as áreas são totalmente cultivadas. São depósitos aluviais. O lado do rio é o melhor lugar que tem para plantar. A civilização se desenvolveu cultivando ao lado dos rios. Assim é no Chile, na Argentina, na China, no Senegal e nos países desenvolvidos também, como ao longo do rio Ródano, na França; no rio Reno, na Alemanha; o Vale do Pó, na Itália; o rio Guadalquivir, na Espanha; o Tejo, em Portugal; o Danúbio, na Áustria e o baixo Reno, na Holanda, entre outros. Já o Brasil preserva, e por lei obrigatória, se tem de preservar as margens do rio. Não estou falando contra ou defendendo a legislação brasileira, só estou mostrando como é a lei brasileira e a comparação com outros países”, ressaltou.

De acordo com Miranda, a necessidade de recomposição muitas áreas, imposta pelo novo Código Florestal, fará com que dos 8% do território atualmente utilizados para a agricultura, entre 35 milhões de hectares e 95 milhões de hectares serão destinados à recomposição da vegetação, como APPs e áreas de reserva legal (RL).

Seria interessante que os ambientalistas, que geralmente se mostram tão preocupados com a “proteção” ambiental no País, prestassem mais atenção a esses números. Na Europa, por exemplo, de onde vem boa parte dos recursos financeiros para as ONGs ambientalistas que aqui operam, apenas 0,6% da vegetação original está preservada, proporção cem vezes menor que a observada no Brasil (talvez, por isso mesmo, não tenham dado a devida atenção).

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