Dirigismo econômico: na China, pode, no Brasil, nem pensar

Uma reportagem publicada no Globo de 17 de julho informa que empresas e bancos estatais chineses estão de olho nas oportunidades de grandes negócios oferecidas pela crise financeira que avassala o Estado do Rio de Janeiro. Na lista de compras e investimentos, empresas e empreendimentos de infraestrutura, nas áreas de como saneamento, logística, telecomunicações e energia, inclusive a usina nuclear Angra 3, Companhia Estadual de Águas e Esgoto (Cedae), Light e Oi (em recuperação judicial). Ademais, os orientais já compraram a participação da Odebrecht no Aeroporto Internacional do Galeão e se preparam para participar com a Petrobras na conclusão do complexo petroquímico Comperj.

No total, os investimentos chegam a R$ 32 bilhões. O interesse prioritário em infraestrutura se justifica, tanto por serem investimentos com retorno assegurado em contrato, como pelo fato de o patrimônio do estado estar em liquidação. Além disso, os investimentos são ainda mais atrativos pelas cláusulas que os atrelam à contratação de fornecedores chineses. Ou seja, um autêntico “negócio do Brasil”.

Hsieh Yuan, diretor da empresa de consultoria Mazars Cabrera, comenta: “Após a atração de investidores estrangeiros para a China em meados dos anos 1970 e a busca de matérias-primas mundo afora, estamos hoje em uma terceira onda, com a internacionalização das estatais chinesas. Essas aquisições de empresas estão dentro do planejamento do governo chinês, e é ancorado pelo atual plano quinquenal de Pequim, que prevê taxas de crescimento de pelo menos 6,5% ao ano.”

Em outro artigo, publicado no “Estadão” de 11 de julho (“A volta da China como grande potência”), o diplomata aposentado Rubens Barbosa, faz um interessante comentário sobre a ascensão da China no cenário global. Como ex-embaixador em Londres e Washington, conselheiro da poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE), Barbosa é um legítimo representante dos setores mais “globalizados” das elites dirigentes brasileiras, para os quais o País não tem alternativa de inserção na ordem global, que não passe pelo atrelamento quase incondicional às agendas ditadas pelas grandes potências do Hemisfério Norte.

Como informa no artigo, em junho, ele participou de um encontro acadêmico e empresarial, em Macau, “sobre a Iniciativa One Belt One Road (Obor)”, com a qual “a China passa a substituir os países ocidentais nas propostas de projetos de grande porte e de visão de futuro”. Sem disfarçar a admiração, escreve:

A Obor consiste na criação de eixos de infraestrutura terrestre e marítima da Ásia ao Mediterrâneo, nos moldes das antigas rotas de comércio que constituíram a Rota da Seda. Composta por duas vertentes distintas, a iniciativa compreende o Cinturão Econômico da Rota da Seda (Belt), corredor terrestre que estabelece ligação entre China, Ásia Central e Europa, e a Rota da Seda Marítima (Road), que conecta a China ao Sudeste Asiático, Oriente Médio e Europa por via naval.

A Obor é uma das principais prioridades da diplomacia chinesa e faz parte do arcabouço institucional da projeção da China como potência global no século 21. Trata-se de um projeto bastante ambicioso, cobrindo cerca de 65% da população do mundo, perto de um terço do PIB global e ao redor de um quarto de todos os bens e serviços mundiais.

A realização da cúpula multilateral sobre a Obor, em Pequim, em maio, contou com a presença de 28 chefes de Estado, incluindo os presidentes da Argentina e do Chile. É importante ressaltar que, para além das considerações de estratégia geopolítica, a One Belt estaria gerando benefícios para a economia chinesa e seu comércio externo.

Adiante, observa:

O cinturão econômico é parte de uma ação de maior penetração política e de projeção da China na Ásia e em outros continentes. Pequim coloca-se em posição central numa espécie de nova arquitetura econômica regional encabeçada pela China, principal provedor de recursos e empregos em regiões com elevada demanda por infraestrutura e com mão de obra jovem em busca de trabalho.

A projeção de influência global deverá estender-se aos setores cultural, educacional e até mesmo ao da cooperação na área espacial. Os serviços oferecidos pelos satélites chineses seriam elemento de um “corredor de informação espacial” da Obor, a ser constituído nos próximos cinco anos. A rede Beidou, com 14 satélites em operação, deverá contar com 35 até o fim desta década, segundo o governo chinês, ao custo de US$ 25 bilhões.

Depois de comentar que Pequim pretende converter Macau num enlace para facilitar os contatos e negócios com os países de língua portuguesa, Barbosa sugere a realização de um encontro do Conselho Empresarial dos Países de Língua Portuguesa na ex-colônia portuguesa, “para estimular a cooperação econômica e comercial e também obter informações sobre investimentos e oportunidades de negócios, além da participação em feiras e exibições”.

Talvez, para não passar recibo de “sinófilo”, Barbosa conclui afirmando que “é cedo, contudo, para especular se a Iniciativa Obor se transformará num significativo marco na história da economia globalizada”.

Evidentemente, a China tem tirado um proveito superlativo da “globalização” deflagrada pela desregulamentação financeira que tem prevalecido desde a década de 1980, estando em marcha batida para tornar-se a maior economia do mundo, destronando os EUA. A facilidade com que Pequim se apresenta com dezenas a centenas de bilhões de dólares, para fazer os seus negócios, se explica pelo fato de estar sentada sobre reservas superiores a 2 trilhões de dólares em moeda e títulos do Tesouro dos EUA, das quais está fazendo uso em toda sorte de investimentos produtivos (ao contrário de um certo grande país subequinocial, que prefere entesourar as suas em bancos estadunidenses, apenas para satisfazer os rentistas que dominam a sua política econômica).

Mas a questão principal, da qual os liberais brasileiros como Barbosa costumam passar ao largo, é que a China pratica um dirigismo econômico bastante eficiente, orientado por um legítimo projeto nacional de desenvolvimento, continuamente atualizado e revisado, em função da dinâmica geopolítica e econômica mundial. No Brasil, desde há muito, ambos os conceitos foram proscritos e banidos dos debates sobre os rumos do País, não sendo de bom tom sequer mencioná-los, entre aqueles círculos de elite.

Talvez, os chineses tenham dificuldades para entender semelhante atitude por parte dos dirigentes da quinta maior nação do planeta em território e população e uma das mais ricas em recursos naturais. Pelas dimensões da sua capacidade produtiva, inclusive de pesquisa e desenvolvimento, a sua posição central na América do Sul e a condição de integrante do grupo BRICS, o Brasil deveria estar preparando-se para atuar como o catalisador da qualificação do subcontinente sul-americano para ser uma contraparte da integração eurasiática encabeçada pela China e a Rússia – em vez de limitar as suas perspectivas de desenvolvimento à atração de investimentos externos, inclusive os chineses. Por isso, se quiserem que o País supere a sua gravíssima crise atual e se apresente ao mundo com o pleno desenvolvimento dos seus potenciais, convém que os brasileiros abandonem de vez certos preconceitos ideológicos que não têm vez no século XXI e caiam na real, reaprendendo algumas coisas úteis com os pragmáticos chineses.

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