Davos 2017: globalização não está funcionando, é preciso evitar o nacionalismo e o “populismo”

A globalização, como praticada nas últimas décadas, não está cumprindo as promessas de prosperidade geral e isto está gerando uma insatisfação crescente, principalmente nas classes médias, o que tem se refletido em fenômenos como a saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit), a eleição de Donald Trump, a reemergência do nacionalismo econômico e uma crescente revolta contra as elites políticas. Um dos resultados é a ascensão de líderes “populistas” com pouca simpatia pela globalização, que poderão ganhar terreno nas eleições europeias deste ano. Portanto, é preciso encontrar meios de se tornar a globalização mais “inclusiva” e reduzir as desigualdades socioeconômicas, para evitar o risco dos nacionalismos.

Este foi, em essência, o fio condutor dos debates da edição de 2017 do Fórum de Davos (como é mais conhecido o Fórum Econômico Mundial-WEF), na semana passada, os quais evidenciaram uma sensível alta nas inquietações das elites globais.

Compreensivelmente, a disparada das desigualdades mundiais esteve presente na maioria das discussões, sendo o fenômeno apontado como a maior ameaça à estabilidade da ordem global, na qual o “Homem de Davos” (“Davos Man”) construiu a sua visão do mundo e prosperidade. Às vésperas do evento, como tem feito nos últimos anos, a ONG britânica Oxfam divulgou o seu relatório anual sobre a desigualdade, Uma economia para os 99%, com conclusões verdadeiramente espantosas. Vejamos algumas delas:

* desde 2015, o 1% mais rico detinha mais riqueza que o resto do planeta;

* atualmente, oito homens detêm a mesma riqueza que a metade mais pobre do mundo;

* ao longo dos próximos 20 anos, 500 pessoas passarão mais de US$ 2,1 trilhões para seus herdeiros – uma soma mais alta que o PIB da Índia, um país que tem 1,2 bilhão de habitantes;

* a renda dos 10% mais pobres aumentou cerca de US$ 65 entre 1988 e 2011, enquanto a dos 1% mais ricos aumentou cerca de US$ 11.800, ou seja, 182 vezes mais;

* um diretor executivo de qualquer empresa do índice FTSE-100 ganha o mesmo em um ano que 10.000 pessoas que trabalham em fábricas de vestuário em Bangladesh;

* nos Estados Unidos, uma pesquisa recente realizada pelo economista Thomas Pickety revela que, nos últimos 30 anos, a renda dos 50% mais pobres permaneceu inalterada, enquanto a do 1% mais rico aumentou 300%;

* no Vietnã, o homem mais rico do país ganha mais em um dia do que a pessoa mais pobre ganha em dez anos.

“Se nada for feito para combatê-la, a desigualdade crescente pode desintegrar nossas sociedades. Ela aumenta a criminalidade e a insegurança e mina o combate à pobreza. Ela gera mais pessoas vivendo com medo do que com esperança”, afirma o documento.

Como seria de se esperar, tratando-se de um encontro de milhares de pessoas com percepções e interesses bastante díspares, as propostas para o enfrentamento do problema variam bastante. Para uns, o melhor ainda é confiar nas velhas soluções “de mercado” e no “instinto animal” dos empreendedores, inserindo aqui e acolá uma pitada de compensações sociais, como a participação dos empregados nos lucros das empresas.

Esta é, por exemplo, a receita do fundador da multinacional alimentícia Chobaini, Hamdi Ulukaya, que iniciou um programa de participação há cinco anos: “Nós demos a todos os empregados de tempo integral a chance de compartilhar do nosso crescimento. Compensar adequadamente os nossos trabalhadores era não apenas a coisa certa a fazer; os nossos resultados mostram que também foi economicamente inteligente.”

Já o fundador e CEO do banco de investimento Moelis & Co., Ken Moelis, prefere o velho laissez-faire governamental, apostando numa receita pró-crescimento para sarar as doenças da combalida classe média: “Davos faria melhor se pensasse em crescimento, em vez de redistribuição.”

Na mesma linha foi Ray Dalio, fundador da empresa de investimentos Bridgewater Associates, para quem a solução para revigorar a classe média é “criar um ambiente favorável para fazer dinheiro” e a liberação dos “instintos animais” dos empresários, com a redução das regulamentações governamentais.

No extremo oposto, o psicólogo e ativista estadunidense Scott Santens defendeu a proposta de uma renda básica universal, que já vem sendo ensaiada em vários países. Com ele concorda Marc Benioff, da Fundação Fórum Econômico Mundial, para quem “nós precisamos considerar a renda básica universal, em que os governos proporcionariam aos cidadãos uma renda adicional à que já ganham em seus trabalhos” (WEF, 20/01/2017). Apesar de, previsivelmente, tal proposta não contar com uma ampla aceitação, o mero fato de a discutirem é indicativo do nível de inquietação dos “Senhores do Universo” (os debates no painel específico podem ser vistos neste link).

Ian Bremmer, presidente do Eurasia Group, ofereceu uma posição equilibrada e mais objetiva, que sintetizou o pensamento de muitos (WEF, 16/01/2017):

Eu acho que a resposta começa com reconhecer duas coisas: primeiro, que não há uma bala de prata única que possa ser disparada magicamente para nos livrar de todos os problemas da globalização. Nós precisamos pensar sobre este tema de uma forma holística. Segundo, nós não podemos pensar sobre a “solução” para as reclamações contra a globalização apenas de uma perspectiva tecnocrática, de cima para baixo. Certo, os líderes poderiam fazer um trabalho melhor no âmbito político, mas uma grande parte da resposta tem que vir da maneira como todos nós agimos como cidadãos no dia-a-dia. Para começar, todos nós temos que mostrar bem mais empatia do que temos mostrado até agora com aqueles que têm sofrido no lado perdedor do superciclo da globalização. A despeito de toda a sua retórica, isto foi uma coisa que Trump fez de forma brilhante e correta. Então, a coisa começa com o respeito em um âmbito humano, e isto é algo que tem muito pouco a ver com a formulação de políticas das elites.

Agora, se vocês me perguntarem sobre uma política específica, eu diria que a taxação de transações financeiras – particularmente, sobre os fluxos de saída de capitais, mas não só eles – seria, provavelmente, um bom lugar para começar. A taxa não precisa ser alta, mas mesmo um valor simbólico, em seu efeito combinado, reduz os riscos dos ciclos de expansão e quebra que dificultam ainda mais a administração das tensões estruturais da globalização. Quando isso falhar, um imposto financeiro também seria uma fonte útil de receita para financiar programas de ajuste – talvez, algum dia, até mesmo financiar uma renda básica universal. E, finalmente, ao afetarmos um dos setores que tem se beneficiado mais visivelmente da globalização, nas últimas décadas, uma tal medida ajudaria a aplacar parte das paixões que saíram de controle ultimamente e, de outra forma, seguramente, irão aumentar.

Na síntese do evento, no item “uma nova ordem mundial”, os redatores escrevem (WEF, 20/01/2017):

O principal sentimento em todo o encontro foi o de que estamos vivendo uma mudança geopolítica não vista desde o final da Guerra Fria – de um mundo unipolar, com uma superpotência, para um multipolar.

“Estamos nos movendo para um mundo em que se têm várias grandes potências”, disse aos participantes o economista Nouriel Roubini. “Ou essas grandes potências trabalham juntas, ou haverá crescentes fricções e conflitos sobre comércio e moedas, em economia e finanças.”

A mudança é assustadora, disse o vice-primeiro-ministro belga, Alexander De Croo, aos participantes de um painel sobre o crescimento do populismo – tema que perpassou todo o encontro. “O que temos é a ansiedade sobre um mundo que está mudando”, disse ele.

Sobre que mundo novo seria esse, houve um consenso de que a globalização deve ser preservada em seus fundamentos:

A questão que continua emergindo é com que esse mundo se parecerá. Será um retorno aos anos 1930, com um crescimento dos interesses nacionais egoístas, à custa de um bem mais amplo? Não, segundo os líderes de Davos.

Embora quase todo mundo pedisse uma reforma da globalização, a maioria concordou com o presidente Xi [Jinping, na primeira participação de um líder chinês em Davos – n.e.]: vale a pena salvar a globalização.

“Existem 3,6 bilhões de pessoas em todo o mundo que aspiram por uma renda melhor, comida na mesa duas vezes por dia, uma vez por dia. Dar as costas à globalização, dar as costas a ajudar o desenvolvimento, é exatamente o enfoque errado. Dizer que a globalização é ruim porque ela destrói empregos é um atalho muito curto para algo que precisa de um trabalho e entendimento bem mais analítico”, disse a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde.

E não é apenas a globalização que necessita de reformas para fazer frente aos desafios desses tempos de mudança: os nossos modelos de governança também devem ser sacudidos. (…)

A propósito do celebrado discurso de Xi Jinping, saudado como um defensor da globalização num momento em que um líder como Donald Trump se apresenta como um crítico feroz da mesma, esta é a maneira como uma potência com mais de 5 mil anos de história defende os seus interesses. Tendo se aproveitado da globalização para construir o que é hoje a maior base industrial do planeta e apresentando-se com todos os méritos para ocupar um dos polos de poder do novo cenário mundial, é evidente que a China não quer provocar uma tsunami capaz de ameaçar o sistema global, mas investir numa reconfiguração que seja a mais conveniente possível ao seu projeto nacional de desenvolvimento. Não por acaso, os chineses já falam numa “reglobalização”, em contraposição à “desglobalização” apontada por certos analistas. “Reglobalização” na qual, evidentemente, “a China está sendo chamada a desempenhar um papel chave de liderança”, como escreveu He Yafei, ex-vice-ministro de Relações Exteriores, num artigo escrito para destacar a presença de Xi em Davos, antes do Fórum (The BRICS Post, 9/01/2017).

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