Dados climáticos manipulados para Conferência de Paris

Um novo escândalo sacode a estrutura internacional de interesses vinculados ao controvertido tema das mudanças climáticas. Assim como ocorreu com o célebre caso “Climategate” de 2009, que abalou a credibilidade da Unidade de Pesquisas Climáticas da Universidade East Anglia (CRU, na sigla em inglês), o novo escândalo também envolve a manipulação de dados das temperaturas atmosféricas, para fazê-las se “ajustar” ao comportamento previsto nos modelos matemáticos que embasam os prognósticos alarmistas sobre a suposta influência humana na dinâmica climática global.

Em 4 de fevereiro, o jornal inglês The Mail on Sunday publicou uma vasta reportagem sobre as denúncias do Dr. John Bates, cientista sênior da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA), de que a agência havia ignorado os seus próprios critérios internos de avaliação para permitir que um artigo científico com dados manipulados fosse publicado em tempo hábil para interferir nas deliberações da conferência climática de Paris, em 2015 (COP-21).

O artigo em questão, publicado na revista Science de 4 de junho de 2015, contestava a existência da chamada “pausa” no aquecimento atmosférico observada desde 1998 – atestada por numerosos estudos – e afirmava que, na verdade, as temperaturas globais estavam aumentando mais rapidamente que o previsto pelos modelos climáticos. Divulgado com grande publicidade pela NOAA (NOAA, 4/06/2015), o artigo foi amplamente empregado pelos representantes dos EUA, Reino Unido e União Europeia, durante as negociações da COP-21, onde foram decididas numerosas medidas de redução de emissões de compostos de carbono e a criação de um fundo de 100 bilhões de dólares anuais para projetos vinculados à “descarbonização” da matriz energética mundial. Por suas implicações, o texto ficou conhecido como “o artigo que detonou a pausa (no aquecimento)” (“pausebuster paper”, em inglês).

Porém, Bates, que se aposentou da NOAA após 40 anos de trabalho, afirma que o trabalho se baseou em dados “não verificados” e que nunca foi submetido ao rigoroso processo de avaliação interna da NOAA, do qual foi um dos elaboradores. Segundo ele, as suas veementes objeções à publicação do artigo foram desconsideradas pelos seus superiores, no que qualifica como “uma clamorosa tentativa de intensificar o impacto” do documento.

Ele acusa o autor principal do artigo, Thomas R. Karl, ex-diretor dos Centros Nacionais de Informações Ambientais (NCEI), divisão da NOAA responsável pela produção dos dados climáticos, de “insistir em decisões e escolhas científicas que maximizavam o aquecimento e minimizavam a documentação… num esforço para desacreditar a noção de uma pausa no aquecimento global, apressado de forma que pudesse publicar em tempo de influenciar as deliberações nacionais e internacionais sobre a política climática”.

Karl tem estreitos vínculos com o principal assessor do então presidente Barack Obama para assuntos científicos, John Holdren, um notório promotor do alarmismo ambientalista e climático, o que lhe oferecia uma posição privilegiada para influenciar a política climática estadunidense.

O artigo se baseava em dois novos conjuntos de dados de temperaturas continentais e oceânicas, ambos incorretos, segundo o jornal. A reportagem informa que, 18 meses após a publicação do artigo, a NOAA pretende revisar os dados nos quais se baseou, devido ao uso de “métodos inconfiáveis que superestimavam a velocidade do aquecimento”. Ademais, os dados terrestres foram afetados por falhas de software que tornavam “instáveis” as suas conclusões.

O texto informa que o artigo se baseou em uma versão preliminar dos dados, que nunca foi verificada ou aprovada, sendo que a versão final ainda não foi divulgada. Além disso, nenhum dos dados foi arquivado adequadamente, requisito fundamental para assegurar a verificação dos dados primários e do seu processamento por outros cientistas.

Bates afirma que a falha em arquivar os dados e disponibilizar todas as informações usadas no trabalho viola não apenas as normas da NOAA, mas também as da própria revista Science. Antes de se aposentar, o cientista continuou contestando internamente a decisão de publicar o artigo. No final, afirma, “eu soube que o computador usado para processar o software tinha sofrido uma pane completa”, por motivos ignorados. Mas a consequência é que o estudo “detonador da pausa” não poderá mais ser replicado ou verificado por outros cientistas.

Para piorar, a própria NOAA montou um acobertamento dos fatos, após a publicação do artigo, cujas conclusões foram objeto de um inquérito do Comitê de Ciências da Câmara dos Deputados. Intimada pelo presidente do comitê, deputado federal Lamar Smith, a agência negou a entrega de e-mails internos sobre o assunto e afirmou que ninguém havia contestado internamente o estudo.

Entrevistado pelo Mail on Sunday, Karl admitiu que os dados não haviam sido arquivados por ocasião da publicação do artigo, justificando que “John Bates está falando sobre um processo formal que leva bastante tempo”. Mas negou que a pressa na publicação tivesse alguma intenção política. “Não houve discussão sobre Paris”, afirmou.

A despeito das evidências de manipulação, é pouco provável que as denúncias do Dr. Bates venham a produzir qualquer efeito prático sobre a agenda e os desdobramentos da “indústria aquecimentista” e seus negócios que envolvem valores anuais da ordem das centenas de bilhões de dólares, além de impor uma série de condicionantes restritivos às políticas de desenvolvimento, principalmente, das economias emergentes. De qualquer maneira, é mais uma evidência – se alguma ainda fosse preciso – de que a agenda climática nada tem a ver com a verdadeira Ciência e os interesses maiores da humanidade. Algum dia, a conta será cobrada.

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