Colômbia: como é branco e refinado o acordo de paz

É cada vez mais evidente que as negociações do controvertido acordo de paz negociado entre o governo de Juan Manuel Santos e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) beneficiaram consideravelmente os insurgentes, em sua condição de narcocartel, que incentivaram as suas bases camponesas a ampliar os cultivos de coca, com a promessa que o acordo lhes garantiria indenizações do próprio governo.

O resultado é que, nos dois anos de duração das gestões do governo com a narcoguerrilha, a área plantada com coca aumentou nada menos que 68%, atingindo 188 mil hectares e convertendo o país no maior produtor mundial. De fato, uma branca e refinada negociação!

Já na fase de execução do pacto – cujos itens referentes aos vínculos das FARC com o narcotráfico foram amplamente repudiados pela população –, é palpável que a desarticulação dos poderosos “narcotentáculos” das FARC está longe de assegurada, o que converte a narcoguerrilha em um assunto que transcende as fronteiras nacionais e um problema de segurança para os países vizinhos. Em grandes traços, percebe-se que a intenção do comando central das FARC é dividir o grupo em três braços, para: 1) incorporar-se à vida político-partidária; 2) manter as atividades do “narconegócio” em algumas zonas anteriormente controladas pela narcoguerrilha; e 3) apoiar os grupos de crime organizado sul-americanos, fornecendo apoio logístico, treinamento e combatentes experimentados.

Esta última linha de ação já é motivo de intranquilidade no Brasil, devido à constatada presença de elementos das FARC nos conflitos deflagrados no início do ano pelos cartéis brasileiros nas prisões da Região Amazônica, como parte de uma feroz disputa por rotas e mercados de drogas ilícitas. Em uma entrevista ao jornal Valor Econômico de 17 de fevereiro, o comandante do Exército Brasileiro, general Eduardo Villas-Bôas, observou: “A Polícia Federal estima que cerca de 80% da criminalidade seja ligada direta ou indiretamente às drogas. Outro aspecto: a droga é a origem de quase todos os problemas. O Amazonas já virou um grande corredor de passagem de drogas. O controle dessas rotas é que está sendo disputado, inclusive nos presídios, pelas facções.”

Em outro trecho da entrevista, ele explicitou a preocupação com as FARC: “(…) Sabemos que algumas frentes [das FARC] não vão aderir. Existe a possibilidade de membros das FARC se juntarem a outras estruturas de guerrilha, como a Frente de Libertação Nacional ou guerrilhas urbanas. Temos uma incerteza, que vai exigir atenção muito maior para essa área: desde que se iniciaram as conversações de paz houve aumento das áreas de plantio na Colômbia. É importante destacar que temos 17 mil quilômetros de fronteiras. Fisicamente, é impossível vigiar essa área.”

Até mesmo o Departamento de Estado dos EUA, em seu último relatório “Estratégia Internacional sobre Controle de Narcóticos 2017”, apresentou uma precisa avaliação da participação das FARC no aumento dos plantios de coca.

Diplomacia pró-legalização

A despeito dessa realidade, o governo de Santos manobra publicamente para manter a ilusão de que as FARC cumpriram o acordado nos itens referentes ao narcotráfico, como se este fosse um fenômeno linear, ao mesmo tempo em que se lança numa intensa ofensiva diplomática em favor da legalização do consumo de drogas.

Já em 2015, Santos sinalizou internamente, em clara mensagem à narcoguerrilha, e externamente, dirigindo-se aos centros de poder global, que a política de combate ao narcotráfico sofreria uma mudança ou, pelo menos, uma certa distensão. Para demonstrá-lo, lançou uma nova estratégia de controle de drogas que, entre outros aspectos, reduziu o foco na erradicação forçada dos cultivos de coca – por exemplo, suspendendo a erradicação aérea nas zonas em que isto poderia promover atritos com as FARC – e ampliou os esforços em outras direções.

A partir daí, o presidente passou a apresentar-se nos foros internacionais apropriados para defender uma flexibilização no consumo de drogas. Em março de 2016, perante à Comissão de Narcóticos das Nações Unidas, em Nova York, a delegação colombiana encabeçada por ele defendeu tal orientação e procurou ativamente ganhar o apoio do México e de outros países.

Em convergência com isso, os setores do Establishment anglo-americano que promovem a narcolegalização, representados em instituições como o Diálogo Interamericano e por personagens do calibre do megaespeculador George Soros, promoveram amplamente a concessão do Prêmio Nobel da Paz a Santos, como reconhecimento pelo acordo com as FARC. Tais grupos têm promovido intensamente a legalização com argumentos falaciosos, como o de que a luta contra as drogas é uma utopia e o motivo do seu fracasso é o fato de que a proibição aumenta a atração pelo uso.

Em sintonia com essa visão, em março último, a chanceler colombiana María Ángela Holguín proferiu um sintomático discurso durante as deliberações do período de sessões da Comissão de Narcóticos da ONU, em Viena, no intento de demonstrar que o mundo fracassou no combate às drogas. “Os números são contundentes. Estamos longe de resolver os múltiplos problemas associados às drogas ilícitas”, afirmou.

Referindo-se ao centenário da Convenção do Ópio, ocorrido em 2012, Holguín sustentou que “mais de um século se passou e continuamos na mesma batalha”, e acrescentou que a Colômbia está promovendo uma discussão internacional “séria e informada, uma discussão franca e inclusiva, que análise e reenfoque as políticas de drogas, dados os frustrantes resultados globais e as flutuações nos resultados nacionais”. Segundo ela, “fazendo um balanço sincero, a comunidade internacional deve aceitar que está longe, muito longe, de eliminar ou reduzir as adicções, a produção, o tráfico de substâncias ilícitas e a lavagem de ativos, como demonstram as cifras globais das Nações Unidas”. Em 2008, disse, havia no mundo 210 milhões de consumidores; em 2014, este número havia subido para 247 milhões.

No discurso, ela teve que admitir a responsabilidade do governo colombiano pelo aumento da área cultivada: “Depois de vários anos de redução sustentada, os cultivos de planta de coca aumentaram, infelizmente, nos anos de 2014 e 2015, em percentagens relevantes que estão em torno de 40% em cada um destes anos.” Entre as causas, destacou o fato de que, pelos termos do capítulo sobre as drogas do acordo de paz, diante dos benefícios previstos para a substituição voluntária dos cultivos de coca, os camponeses estão aumentando as suas plantações, para aumentar as suas eventuais recompensas oferecidas pelo governo.

Entretanto, a chanceler assegurou que tudo está sob controle: “A solução para o problema das drogas ilícitas faz parte do acordo e inclui expressamente o compromisso dos ex-membros da guerrilha de romper todos os vínculos com o cultivo, a produção e o tráfico de substâncias ilícitas.”

A mesma ilusão também se manifestou na recente visita a Washington realizada no final de março pelo ministro do Interior, Juan Fernando Cristo, para falar sobre os avanços do acordo de paz. Na ocasião, em um evento realizado no onipresente Diálogo Interamericano sobre a implementação do acordo, ele indicou que, “nos próximos meses, os camponeses começarão a ser pagos para erradicar o cultivo ilegal”, e que “o governo se mantém otimista, já que o acordo de paz garantirá que as FARC não influenciarão os camponeses para manter os cultivos ilegais”.

Porém, ele próprio observou que ainda há outro problema a ser resolvido: a ocupação dos territórios das FARC por organizações criminosas, “entre elas, o Cartel do Golfo [mexicano], para controlar o narcotráfico e a mineração ilegal”.

A Convenção de 1912, mencionada por Holguín, foi o primeiro tratado internacional sobre drogas, em que um grupo significativo de países afetados pelo consumo de narcóticos, entre eles os EUA, China e alguns países europeus, se comprometeram a reprimir a produção, comercialização e consumo de ópio, morfina e cocaína, até então legal em vários deles. Prática que constituía, em grande medida, um legado das Guerras do Ópio travadas contra a China pelo Império Britânico, no século XIX.

A Convenção foi o embrião da legislação internacional antidrogas, posteriormente incorporada à ordenação mundial representada na Liga das Nações. Embora a Grã-Bretanha a tenha assinado formalmente, nunca foi refreado a sério o aspecto mais relevante gestado nas Guerras do Ópio: a criação colonial de enclaves financeiros, como Hong Kong e outros surgidos posteriormente, ao amparo do comércio das drogas. Logo, estes se converteriam em centros de reciclagem dos rendimentos do tráfico de drogas e armas, contrabando de pedras preciosas e evasão fiscal, passando a integrar as engrenagens do sistema financeiro internacional até os nossos dias. É nestes “esconderijos” à luz do dia que se oculta o “Estado-Maior” que comanda o narcotráfico internacional, e a lavagem dos “narcodólares” e “narcoeuros” representa o cerne desta estrutura global.

Efetivamente, é utópico se tentar combater o narcotráfico sem atacar os mecanismos centrais que o controlam: os poderosos interesses representados em bancos bem conhecidos de Wall Street e da City de Londres, entre eles o HSBC (fundado em 1865 como Hong Kong and Shangai Banking Corporation, especificamente, para canalizar os lucros do tráfico de ópio), os paraísos fiscais e outros enclaves da lavagem de dinheiro – virtualmente, intocáveis, porque aportam uma liquidez indispensável a um sistema financeiro mundial tecnicamente insolvente e à beira do desastre.

Desses mesmos centros de poder global, são propagados deliberadamente os valores da contracultura que favorecem o consumo de drogas entre juventudes sem perspectiva de futuro decente ou desprovidas de horizonte moral e transcendente, como o pessimismo cultural, o relativismo e o hedonismo, que provocam uma ruptura existencial em grande parte da população. Aí deve incluir-se o aumento do consumo de drogas entre os contingentes de veteranos das múltiplas guerras travadas pelo poder anglo-americano em vários continentes. É essa condição moral perversa que explica o empenho de tais grupos das oligarquias globais para promover a legalização e o consumo “controlado” de drogas alucinógenas para as suas próprias populações.

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