Catastrofismo ambientalista decreta “apocalipse ambiental”

 

Na quarta-feira 2 de agosto, os jornais e sítios noticiosos e ambientalistas informaram ao mundo que a data marcou o Dia da Sobrecarga da Terra para este ano. Para quem desconhece a efeméride, trata-se do dia hipotético em que a humanidade já teria “esgotado” toda a capacidade anual de renovação dos recursos naturais à sua disposição no planeta. Ou seja, segundo os criadores do conceito, até o final do ano, estaríamos comendo a nossa “poupança” natural, devido a um estilo de vida cuja sustentação necessitaria de 1,7 planetas como a Terra.

No sítio do World Wide Fund for Nature (WWF), por exemplo, encontramos a seguinte explicação:

Se a natureza fosse manejada como uma conta bancária, todos esperaríamos ser avisados de quando não houvesse nada mais a ser retirado. Bem, hoje, 2 de agosto, é o dia quando nós, a humanidade, recebemos esse aviso “oficial” do “Banco da Natureza”. Ele se chama Dia de Sobrecarga da Terra.

A Terra nos proporciona coisas vitais como água potável, alimento e ar – e, até certo ponto, ela tem uma admirável capacidade de regenerar-se. Mas não podemos ficar retirando o tempo todo e esperar que a Terra corresponda. O Dia de Sobrecarga da Terra marca o momento em que retiramos tudo que o planeta pode sustentar no presente ano. (…) Além deste ponto (e 2017 ainda tem 150 dias pela frente), a “conta” está tecnicamente zerada. E o que isto significa para a nossa admirável vida selvagem, áreas florestais e as pessoas? Não são boas notícias. Mais florestas derrubadas. Oceanos esvaziados. Espécies exploradas até que os seus números entrem em colapso (WWF, 02/08/2017).

Para marcar a ocasião, o WWF-Brasil e o Museu do Amanhã do Rio de Janeiro promoveram um seminário a respeito do tema. Em entrevista ao jornal O Globo (02/08/2017), o diretor de Conteúdo do Museu, Eduardo Carvalho, afirmou:

Hoje é o lugar da ação, pois, sem isso, não teremos amanhã. O que vai ditar a situação do mundo nas próximas cinco décadas é o que fizermos agora, já que os “juros” deste “cheque especial ambiental” são a intensificação do aquecimento global e das mudanças climáticas, a redução da biodiversidade e a aceleração da extinção em massa que vão afetar toda a vida na Terra e farão a humanidade sofrer.

Sombrio, não?

Em termos mais específicos, a determinação da data é feita com base no conceito de “pegada ecológica”, introduzido na década de 1990 pelo canadense William E. Rees, detentor de um PhD em Ecologia Populacional, e seu aluno, o suíço Mathis Wackernagel, PhD em Planejamento Regional. Nos anos seguintes, ambos se empenharam em criar vários canais institucionais dentro do aparato ambientalista internacional e se juntar a outros, para difundir o conceito.

Rees fundou a Sociedade Canadense de Economia Ecológica (Canadian Society for Ecological Economics), além de ser pesquisador do Instituto Pós-Carbono (Post Carbon Institute) e do Projeto Integridade Global (Global Integrity Project), e assessor da Rede de Capacidade de Suporte (Carrying Capacity Network), entidade estadunidense abertamente racista, que promove o controle de população e uma dura repressão à imigração, principalmente, de países hispânicos.

Em 2003, Wackernagel, juntamente com a engenheira ambiental estadunidense Susan Burns, criou a Global Footprint Network (GFN – Rede de Pegada Global), com sede em Oakland, EUA, e filiais em Genebra, Suíça, e Bruxelas, Bélgica. Como o nome sugere, a ONG é especializada em calcular as “pegadas ecológicas” para toda a humanidade, numa escala que vai do planeta inteiro até pessoas individuais, passando por países e cidades. Para popularizar o conceito, a GFN criou o “Dia de Sobrecarga da Terra” (Earth Overshoot Day, em inglês), divulgado anualmente.

A primeira data para o dia do apocalipse ambiental, calculada retroativamente, foi para o ano de 1987, tendo caído em 19 de dezembro. De lá para cá, a data foi recuando rapidamente até a atual, 2 de agosto, o que, a se dar crédito ao conceito, sugeriria uma deterioração fulminante da alegada capacidade de recuperação do planeta.

Para uma definição conceitual, recorramos ao WWF-Brasil:

A Pegada Ecológica é uma metodologia de contabilidade ambiental que avalia a pressão do consumo das populações humanas sobre os recursos naturais. Expressada em hectares globais (gha), permite comparar diferentes padrões de consumo e verificar se estão dentro da capacidade ecológica do planeta. Um hectare global significa um hectare de produtividade média mundial para terras e águas produtivas em um ano.
Já a biocapacidade, representa a capacidade dos ecossistemas em produzir recursos úteis e absorver os resíduos gerados pelo ser humano.
Sendo assim, a Pegada Ecológica contabiliza os recursos naturais biológicos renováveis (grãos e vegetais, carne, peixes, madeira e fibras, energia renovável etc.), segmentados em Agricultura, Pastagens, Florestas, Pesca, Área Construída e Energia e Absorção de Dióxido de Carbono (CO2).

Segundo os adoradores do ursinho panda:

Atualmente, a média mundial da Pegada Ecológica é de 2,7 hectares globais por pessoa, enquanto a biocapacidade disponível para cada ser humano é de apenas 1,8 hectare global. Tal situação coloca a população do planeta em grave déficit ecológico, correspondente a 0,9 gha/cap. A humanidade necessita hoje de 1,5 planeta para manter seu padrão de consumo, colocando, com isso, a biocapacidade planetária em grande risco.

A “pegada” brasileira foi calculada em 2,9 gha/cap, pouco acima da média mundial. Mas a ONG tem tratado de oferecer a sua experiência a outras unidades da federação, algumas dos quais já a contrataram para levantar as suas “pegadas”, casos de Campo Grande (MS), que registrou 3,14, e do governo de São Paulo, trabalho no qual o índice para o estado foi estimado em 3,52 e, para a capital, 4,38. Traduzindo, para reforçar a imagem, o WWF-Brasil informa que, “se todas as pessoas do planeta consumissem de forma semelhante aos paulistas, seriam necessários quase dois planetas para sustentar esse estilo de vida. Se vivessem como os paulistanos, seriam necessários quase 2,5 planetas”.

Para comparação, vejamos as “pegadas” de alguns países em 2013, de acordo com a GFN (em gha/cap): Canadá: 8,76; EUA: 8,59; Finlândia: 6,73; Rússia: 5,72; França: 5,06; Reino Unido: 5,05; Malásia: 4,21; Espanha: 4,03; China: 3,59; Argentina: 3,73; Indonésia: 1,45; Sudão: 1,43; República Centro-Africana: 1,14; Índia: 1,06.

Entre as cidades, Atenas aparece com 4,84, Barcelona, 4,52 e o Cairo, com 2,85.

É fácil constatar a existência de uma correlação direta entre o nível de desenvolvimento e a “pegada” dos países. E, considerando a média mundial de 2,7, verifica-se que os níveis de desenvolvimento minimamente aceitáveis para sociedades modernas, digamos, pelo menos equivalentes ao da Espanha (4,03), estão bem acima do que as formulações matemáticas da GFN consideram toleráveis para o planeta. A própria ONG oferece essa visualização no gráfico abaixo, que compara o “número de Terras” necessário para que o mundo inteiro tivesse os níveis de desenvolvimento de cada país assinalado. Como os que têm os maiores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) estão à direita do gráfico, a mensagem proporcionada pela “pegada” é direta: de acordo com o conceito, o planeta não suporta a extensão global dos índices de desenvolvimento dos países mais avançados a todos os países.

 

A GFN também oferece uma ferramenta para que cada indivíduo calcule o seu “dia do apocalipse”, de acordo com vários indicadores: consumo de produtos animais, distância das fontes de produção dos alimentos, tamanho da habitação, número de residentes, disponibilidade de eletricidade, eficiência dos aparelhos elétricos, quantidade de lixo gerado, uso de automóveis, transportes públicos e avião e outros. Este autor fez o teste e obteve a inacreditável data de 22 de março, sendo informado de que se todos os mais de 7,5 bilhões de habitantes do planeta tivessem o mesmo padrão de vida seriam necessárias 4,5 Terras para sustentá-los.

Assim sendo, o autor informa aos leitores que o seu estilo de vida é o de um cidadão de classe média, residente em uma casa comum de vila na Zona Norte do Rio de Janeiro, onde vivem três pessoas, dispondo dos eletrodomésticos e equipamentos eletrônicos geralmente encontrados na maioria dos lares brasileiros (inclusive um único aparelho de televisão), gerando uma quantidade de lixo comparável à dos vizinhos, além de percorrer cerca de 150 quilômetros por semana num automóvel de motor 1.0 (quase sempre acompanhado por pelo menos outra pessoa), cerca de 90-100 quilômetros por semana em transportes públicos (basicamente, metrô) e tendo voado uma média anual de 30 horas, nos últimos anos.

Segundo os catastrofistas, níveis de vida como os dos moradores desta vila do Rio de Janeiro não seriam “sustentáveis”, se fossem estendidos a todo o mundo.

Seguramente, se os leitores calcularem as suas próprias “pegadas”, terão surpresas semelhantes.

Salta aos olhos que há algo errado com o conceito de “pegada ecológica”, pois trata-se de um nível de vida que, longe de constituir privilégio, deveria estar ao alcance de qualquer habitante do planeta. Porém, como a geração de emissões de carbono entra com nada menos que 70% do cálculo da “pegada”, é evidente que as viagens de automóvel e avião acabam tendo um peso desproporcional no cômputo geral. De qualquer modo, o mero senso comum sugere ser absurdo que seriam necessários quatro planetas e meio para sustentar uma população mundial nos mesmos níveis.

Em si próprio, o alto peso relativo do carbono indica a falta de rigor científico do índice, pois parte do tendencioso princípio de que o sexto elemento da Tabela Periódica é um “poluente” ambiental, devido ao seu alegado – mas jamais comprovado – papel na dinâmica climática global.

A própria falácia de composição do conceito se mostra na sugestão de que, este ano, a partir de 2 de agosto, o mundo estaria raspando a sua “poupança natural”. Estendendo-se a analogia, é fácil perceber que, se assim fosse, em apenas três anos, o planeta veria inteiramente esgotada a capacidade de regeneração dos seus sistemas naturais (experimente o leitor retirar 40% de uma poupança em um ano, seguida de retiradas de quantidades semelhantes, nos anos seguintes). Como a GFN vem fazendo o cálculo do “dia da sobrecarga” desde 2003 e, até hoje, o apocalipse ambiental não chegou, a conclusão é que a “pegada” não passa de mais uma das incontáveis falácias com as quais o movimento ambientalista internacional tem procurado impor ao mundo a sua agenda neomalthusiana de restrições ao desenvolvimento socioeconômico, principalmente, dos países que buscam superar o seu subdesenvolvimento.

Em suma, ninguém precisa perder o sono com o suposto apocalipse ambiental. Certamente, todos temos problemas incomparavelmente mais sérios a merecer atenção.

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