Catalunha, complexidade e ignorância

Leonardo Servadio*

Os eventos que deram origem ao pseudorreferendo para a independência catalã, em 1º de outubro de 2017, são complexos. A Catalunha faz parte do Estado unitário espanhol desde a sua constituição, no século XV, após o casamento de Isabel de Castela e Fernando de Aragão, mas, dentro de tal unidade, sempre manteve um grau considerável de autonomia das realidades e tradições locais.

No entanto, no decorrer da história, houve vários momentos de tensão e choque entre as ambições independentistas catalãs e as centralistas de Madri, por exemplo, nos séculos XVII, XVIII e XIX. O Renascimento catalão, surgido com base no romantismo europeu em meados do século XIX, deu um novo impulso à língua e à literatura catalã, contrapondo a sua posição reacionária (carlista**) à onda liberal introduzida na Espanha por Napoleão e promovida por grupos de poder mais abertos às novidades da época, que também levou a um renovado impulso centralista. Durante o século XX, as tensões cresceram na época da ditadura de Primo de Rivera (1923-1930), mas também na época da República de 1931; no plano histórico, não se pode estabelecer uma equivalência entre independentismo e democracia.

Após o longo período de ditadura franquista (1939-1975), durante a qual a aspiração à independência assumiu cores “progressistas” enquanto oposição ao regime, com a nova Constituição democrática de 1978, a Catalunha aceitou de bom grado a nova situação. Mas a Constituição afirma a indivisibilidade da Espanha.

A Constituição espanhola estabelece um regime de autonomia muito amplo para a Catalunha, e a língua catalã prevalece na educação escolar na região, onde o espanhol (castelhano) é tratado como uma língua estrangeira. Isto apesar do fato de que, como resultado das migrações internas ocorridas no período em que a Catalunha experimentou um forte desenvolvimento industrial (do século XIX até a época pós-franquista), uma grande parte da população residente tem o castelhano como língua materna.

Ao contrário de outras regiões autônomas espanholas, como o País Basco, no entanto, a rica Catalunha não possui autonomia fiscal. Por isso, insere-se no quadro do regime de solidariedade, o qual implica em que os impostos arrecadados em cada região são assumidos e redistribuídos pelo Estado central madrilenho, em função das principais urgências percebidas em âmbito nacional (espanhol).

Ao longo dos anos, os vários governos catalães (Generalitat) têm acelerarado o impulso autonomista, financiando redes de televisão e rádio, revistas e jornais de corte separatista, constituindo “embaixadas” no exterior e difundindo a palavra independentista, entre outras coisas, insistindo na tecla fiscal: a Catalunha ambiciona manter internamente as suas riquezas, para não compartilhá-las com o restante da Espanha.

Neste aspecto, em vez de uma atitude progressista, o impulso independentista catalão lembra o similar egoísta que se difundiu na Itália no período pós-ideológico posterior a 1989, com a Liga do Norte, desejosa de não compartilhar com o resto do país as riquezas do norte da Itália, sem levar em conta que essa riqueza também provinha do comércio que ocorria em âmbito nacional e internacional.

A corrupção política não podia estar alheia a tudo isso. A imprensa espanhola tem divulgado amplamente o que pode sobre Jordi Pujol, que governou a Generalitat por mais de duas décadas, após a queda do regime de Franco, e há tempos é investigado pelo Poder Judiciário. Fala-se em um sistema de propinas em obras públicas, pelo qual o regente catalão levava entre 3% e 20% em cada uma delas, em dinheiro vivo. O dinheiro era transportado em sacos de lixo por parentes de Pujol, depositado em bancos em Andorra e, a partir daí, aplicado em vários investimentos em mercados estrangeiros, cuja trilha tem apresentado grandes dificuldades para as autoridades investigadoras.

O sucessor de Pujol, Artur Mas, proveniente de uma família cuja riqueza se origina do tráfico de escravos até o limiar do século XX, muito além do período em que a atividade era considerada legítima, no mínimo, parece ter encoberto as operações ilícitas do seu antecessor.

A suspeita é que esses personagens se movem nos bastidores para promover a ideologia independentista, entre outras coisas, para evitar as investigações do Judiciário espanhol.

Da parte do governo central madrilenho, desde o início do período pós-franquista, tem havido uma clara tolerância em relação aos fermentos independentistas, em seus aspectos legítimos e ilícitos, quer porque ele próprio está longe de ser livre da corrupção, seja porque, tanto no caso dos governos do PP [Partido Popular] como nos do PSOE [Partido Socialista Trabalhista Espanhol], eles precisam do apoio das representações independentistas catalãs no Parlamento de Madri.

Portanto, é aqui que, no independentismo, se somam os aspectos mais degenerativos da política, as aspirações marcadamente egoístas de manter as suas riquezas exclusivamente para si próprios, juntamente com as aspirações românticas próprias de diferentes ambientes da população (embora alheios à corrupção dos catalães poderosos), não facilmente compreensíveis num momento em que a Catalunha desfruta de autonomia absoluta na esfera cultural.

Neste contexto, a Igreja na Catalunha procura desempenhar um papel de mediadora e pacificadora, embora mantendo um olho atento às tradições culturais locais.

A propósito, resulta emblemático o papel da Sagrada Família e de Antoni Gaudi. Este, como muitos outros arquitetos do Modernismo espanhol, era catalanista. E a Sagrada Família foi concebida como um templo expiatório para industriais catalães, que entendiam o quanto da sua riqueza se devia à exploração do trabalho dos pobres, muitos deles provenientes de outras regiões da Península Ibérica

Por isso, a Sagrada Família poderia ser um lugar de reconciliação para promover um diálogo pacífico entre os catalães e os outros povos ibéricos. O fato de que o portal principal deste templo expiatório ostenta o Pai Nosso escrito em letras grandes em catalão e, apenas ao fundo e em letras pequenas, em outras 50 línguas, entre elas até mesmo o espanhol, aponta o problema da Catalunha. A Sagrada Família foi erguida para expressar o desejo do empreendedorismo catalão do século XIX por expiar os seus próprios pecados, mas agora surge a suspeita de que os líderes políticos que dominam hoje a Catalunha tencionem expiar outros pecados, os seus próprios.

Em vez de conceberem a Catalunha como uma região dotada de língua e cultura próprias, envolvida no contexto das outras línguas e culturas ibéricas de forma harmoniosa e colaborativa, no respeito da lei – da qual a Constituição Espanhola de 1978 deve ser a referência principal –, até pessoas da cultura universal, mesmo de fé católica, tendem a propor uma Catalunha separada ao resto do mundo.

Em vez de se conceber o processo institucional como um alargamento progressivo dos horizontes, do âmbito local para o nacional e daí ao global, se ambiciona a saltar todos os passos intermediários e a colocar o localismo diretamente conectado com o globalismo. Desta forma, as aspirações independentistas, com a contaminação derivada das pulsões corruptoras e egoístas, podem confundir-se com aquelas mais eminentemente culturais, límpidas e genuínas, embora anti-historicamente românticas.

Faz sentido acreditar que a Constituição espanhola, votada em toda a Espanha em 1978, como um momento fundamentalmente progressista, na visão de instituições democráticas e aberta ao mundo, seja agora obsoleta? Faz algum sentido se supor que as ambições locais devam ser expressas sem levá-la em conta, como se fosse um acidente do qual se possa prescindir sem problema algum?

Em uma passagem de Os noivos de Alessandro Manzoni, Frei Cristóvão, pessoa integríssima e bem intencionada, se retira do palácio de Dom Rodrigo, depois de ter esperado longamente por ele para um encontro marcado previamente, manifestando um desejo piedoso contrário à violência e ao abuso: “A minha débil opinião seria que não há desafios… sem solavancos.” Neste caso, ficou faltando uma indicação concreta sobre o que fazer para se evitar a injustiça; por outro lado, o bom frade muito pouco poderia fazer cercado pelos esbirros de Dom Rodrigo.

Hoje, a Igreja catalã se encontrada em uma situação algo semelhante à de Frei Cristóvão. É o que escreve o reitor da universidade católica de Sant Pacià de Barcelona, que citamos abaixo. Trata-se de um apelo razoável à paz e ao diálogo, mas é preciso levar em conta que, onde houver abusos, todos devem ser apontados, venham de onde vierem. E na Catalunha houve uns tantos quantos. Se o mais evidente e notório foi a reação policial do governo de Madri ao pseudorreferendo de 1º de outubro, antes dele, houve muitos abusos das forças “soberanistas” catalãs, aterrorizando quem não falava catalão e fazendo da língua, não um exercício de liberdade, mas um instrumento de opressão; dos que penalizaram a Catalunha com subornos fiscais como se fossem impostos legítimos e capitais exportados ilegalmente; dos que usaram os meios de comunicação de massa, difundindo a imagem da Catalunha como o centro do mundo; dos que instigaram o egoísmo regional, em vez de favorecer a solidariedade nacional; e, finalmente, dos que violaram a Constituição nacional votada há menos de quatro décadas.

Talvez, mesmo na Espanha atual, seria oportuno recordar Federico Borromeo,*** com as suas límpidas cartas contra a injustiça em todas as suas dobras e feridas, para converter eficientemente os corações endurecidos pelo choque e o abuso do poder.

A seguir, reproduzo a declaração do Reitor Armand Puig i Tàrrech, divulgada em 2 de outubro:

“O momento é complexo e o futuro imediato, uma incógnita. O grau de politização da sociedade catalã é agora muito alto, e os eventos de 1º de outubro aumentaram exponencialmente a temperatura. Ultimamente, sucederam-se tomadas de posição e declarações. Em setembro, mais de quatrocentos ministros ordenados catalães, entre pregadores e diáconos, assinaram um documento no qual apoiavam o referendo de 1º de outubro. Há outros sacerdotes e diáconos que não compartilham desta posição e não foram votar naquele dia. Tratam-se de duas visões que também são encontradas na sociedade civil e isto só pode ser medido democraticamente por meio de uma solução política.

“Enquanto isso, e sempre, é necessário que a comunidade eclesial permaneça sem sombras, e que as discrepâncias entre os membros da Igreja não se convertam em divisões.

“De fato, não poderia pregar a mensagem evangélica aquele que não vivesse reconciliado com o irmão que pensa diferente em assuntos relacionados à polis. A Igreja, encarnada no mundo, e seus ministros, servos da humanidade, devem ser principalmente ‘fermento de justiça, fraternidade e comunhão’ (nota da Conferência Episcopal de Tarragona, 20 de setembro de 2017). Somente assim se avançará ‘no caminho do diálogo e do entendimento, do respeito aos direitos e às instituições’ (Declaração da Comissão Permanente da Conferência Episcopal Espanhola sobre a situação na Catalunha, 27 de setembro de 2017).

“Em tempos difíceis, a oração é essencial. Oremos para que a convivência se imponha à violência, para que o diálogo seja cultivado pelas partes agora confrontadas e para que direitos dos povos sejam respeitados.”

* Jornalista e escritor, autor, entre outros, de Lo Stato Nazione: Evoluzione e Globalizzazioni (O Estado-Nação: evolução e globalização – Domus Europa Independent Label, 2016). Artigo originalmente publicado no sítio Frontiere Rivista di Geocultura (04/10/2017).

** Movimento político tradicionalista, antiliberal e defensor do Antigo Regime, surgido na Espanha, na primeira metade do século XX, ligado a um ramo da família Bourbon, pretendente ao trono espanhol.

*** Cardeal e arcebispo de Milão, que viveu entre 1564 e 1631, também personagem de Os noivos.

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